31 de Maio de 2015 – O som das palavras em silêncio

wordsLer é deixar que as palavras ganhem vida, ganhem um som próprio dentro de nós. Ler é deixar que as palavras façam o seu curso, se transformem. Ler é sermos outros, sendo nós mesmos, surpreendermo-nos, deixarmos que nos digam coisas diferentes, nunca ouvidas, mesmo que com as palavras de sempre. E, às vezes, as palavras entram-nos sem pedir licença, e dizem-nos o que queremos dizer. Como se estivessem à espera do momento certo para invadir, silenciosamente, à espera do momento certo para se fazerem ouvir com estrondo. Como quando olho e leio, de Caio Fernando Abreu: «Foi muito lindo ver-te pela primeira vez e pensar, sem palavras: eu quero».

30 de Maio de 2015 – Wag the Dog

Por que razão o cão consegue abanar a cauda? Porque o cão é mais esperto do que a cauda, caso contrário seria a cauda a abanar o cão. Só que, por vezes, é preciso fazer com que a cauda abane o cão. Mesmo que não se veja como, mesmo que, aparentemente, tudo esteja normal, e pareça que é o cão que está a abanar a cauda. «Wag the Dog» é um filme de 1997, com Robert de Niro e Dustin Hoffman, e o título em português é menos metafórico. Chama-se «Manobras na Casa Branca». É uma boa tradução, embora demasiado literal para um título tão metafórico. Era preferível deixar ficar no ar a questão, para que, sempre que olhemos para o que se passa, procuremos perceber se é o cão que está a abanar a cauda, ou a cauda que está a abanar o cão.

29 de Maio de 2015 – Se o teu telefone não tocar…

Se não receberes nenhuma mensagem. Se não te escrever em nenhum sítio da rede. Se não usar nenhuma super-aplicação informática para saber onde e como estás. Se não te enviar um postal de uma qualquer cidade por onde ande perdido. Se não te enviar uma carta, ou deixar um bilhete à porta, ou na caixa do correio. Se, na ausência indesejada, o teu telefone não tocar. Se tudo isto, quero que saibas que sou eu.

28 de Maio de 2015 – Natália de Andrade

natalia-andradeSúbito, voltei a “tropeçar” em Natália de Andrade. Uma espécie de fenómeno musical trágico-cómico, para o qual há poucas explicações, muitas especulações e nenhuma certeza. Ninguém consegue, ao certo, contar a história da sua vida, nem mesmo recuperando as suas próprias palavras, que não se sabe se são mesmo suas, se são verdadeiras, ou se são apenas a corporização de um sonho, tornado realidade à força. Todavia, há discos gravados, há participações em programas televisivos, há escritos, há um rasto da passagem de Natália por esta vida. Um rasto com a forma de um tremendo ponto de interrogação. Mas não faz mal. Natália seguiu o sonho. Decidiu torná-lo realidade, a todo o custo. Não olhou as barreiras, antes o horizonte, o destino a que queria chegar. Não se preocupou se o percurso era real ou sonhado, se o destino era a glória ou a fama, ou a anedota ou a crítica. Deixou marca. Essa marca, em forma de ponto de interrogação. Sobre como, tendo sido realmente possível, foi isto possível.

o nosso amor é verde

“Canção Verde” – Victor Macedo Pinto (1917 · 1964)

O nosso amor é verde.
Nós somos verdes.
Verdes,
como são os campos
e as árvores
quando regressa a Primavera.
Verde é tudo quanto é belo.
Tu és verde, meu amor, verde.
Verde!
O nosso amor é verde,
mas não digas a ninguém.

27 de Maio de 2015 – Rainha da Noite

A ópera “A Flauta Mágica”, de Mozart, é uma verdadeira obra de magia. Plena de simbolismo, ela é riquíssima em significados, e, quando interpretada à luz da filosofia maçónica, abre reflexões intermináveis. Uma das árias mais significativas desta ópera é a da Rainha da Noite, que muitos dizem tratar-se de uma espécie de reencarnação da sogra de Mozart, o que torna a interpretação dos significados da ópera um pouco redutora. Seja como for, é uma das árias tecnicamente mais exigentes para qualquer soprano ligeiro. É quase como algo que “ou se tem, ou não se tem”, e quando não se tem, é melhor não tentar cantar, sequer. Quando não se tem, pode tentar assobiar-se, porque mal cantada, a ária pura e simplesmente não existe.

26 de Maio de 2015 – A pedalar em direcção ao desconhecido

volta-btt-1Uma distância de 8.84 quilómetros, em 53 minutos e 32 segundos, numa média de 9.91 quilómetros por hora, tendo a velocidade máxima sido de 29.31 quilómetros por hora, numa altitude mínima de 317 metros e máxima de 392 metros. Estas são apenas algumas informações da volta de bicicleta (a primeira, desde há longos anos) de ontem. É uma espécie de pedalada em direcção ao desconhecido, depois de uma queda aparatosa (já lá vão uns quase 25 anos) ter posto a velha BMX a ganhar pó. Agora, com outras artilharias, e em BTT, começou a subida. Devagar. Devagarinho.

25 de Maio de 2015 – Eu, eus

Fernando Pessoa é, talvez depois de Camões, o poeta português que mais profundamente falou de Portugal. Mas, sendo muitos, graças aos seus heterónimos, falou também profundamente de nós, da nossa essência, de como também nós somos um, mas muitos. Num desses «outros eus», Alberto Caeiro, escreveu que somos do tamanho do que vemos, e não do tamanho da nossa altura. Assim é. Somos do tamanho dos nossos sonhos, das nossas viagens, dos eus que vamos acrescentando ao nosso eu primeiro. E a esse eu primeiro, acrescentamos o verde dos campos e o azul do mar. A neve do norte, as montanhas do centro e o sol do sul. As músicas e os modos de falar de cada sítio por onde passamos. E daqui, do cimo da montanha de nós mesmos, vemos tudo isto. Que, afinal, somos, de facto, do tamanho do que vemos, e não do tamanho da nossa altura.

24 de Maio de 2015 – Deixa-me ter saudades tuas…

tulipa-laranjaDeixa-me, por um momento, ter saudades tuas. Deixa-me procurar-te no silêncio, no vazio que, a espaços, não sei porquê, aparece no intervalo de alguma coisa acontecer. Deixa-me imaginar que te abraço, não como se te protegesse, mas como se estivesse a tentar fazer com que coubesses no meu coração. Deixa-me ter um momento, daqueles não demasiado longos, para te dizer o que às vezes penso. Dizer-te que nem sempre o silêncio é isso mesmo, mas que ele pode ser feito de palavras à espera de serem ditas. Deixa-me ter saudades tuas, de te dar a mão de forma tímida, embora parecesse segura. Deixa-me voltar a embarcar numa espiral de loucura, de pensar que tudo é possível, como se o mundo fosse pela primeira vez. Deixa-me, só, ter saudades tuas. Ainda que por um momento. Mesmo que, depois, tudo volte ao mesmo. Ao meu silêncio, à minha distância, ao meu casulo. Porque, aí, voltarei a ter saudades tuas, mas tu talvez não saibas.

23 de Maio de 2015 – My song

Fiz uma canção. Normalmente, é uma forma de fazer música mais imediata. Tentamos pôr em poucos minutos toda a intensidade de um sentimento. Contamos uma história rápida. Dizemos, como se fosse um poema, tudo o que queremos dizer, esperando que, depois, ponham nos espaços tudo o que deixámos por dizer. É como se fosse uma grande sinfonia em apenas três minutos. Como se o mundo todo existisse ali. Como se toda a delicadeza e singeleza do mundo se revelassem, à medida que as notas se vão sucedendo. Fiz uma canção. Lembrei-me que Keith Jarrett também fez várias. A uma delas, chamou “My Song”. À minha, dei o nome que daria ao mundo, se pudesse. E disse-a, como um segredo. Aqui, deixo a de Keith Jarrett, apenas para dizer: “fiz uma canção”.

My Song

22 de Maio de 2015 – As pessoas felizes do facebook

Se há sítio onde toda a gente parece feliz, é no facebook. As coisas más do facebook são tão más, tão más, que, de tão más, nem parecem verdadeiras. E, por isso, passam a não existir. Por isso, todos somos felizes no facebook. Viajamos, fazemos coisas extraordinárias, partilhamos coisas fabulosas. Tudo corre bem. Sem querer, somos filtrados, porque ninguém vai querer saber do nosso mal, nem nós. Não é mau que assim seja, desde que tenhamos consciência disto. De que aqueles sorrisos são momentâneos. Que as viagens chegam ao fim. Que a felicidade, como o dinheiro, nunca é demais. Mas, também, dane-se, pelo menos num sítio somos felizes.