Escolher um instrumento, aprender a ler partituras, encontrar um bom professor, estudar (para o resto da vida), evitar estantes articuladas, aprender a transportar o instrumento, conhecer o jargão italiano, evitar manter uma pronúncia desajustada, verificar que há instrumentos mais respeitados que outros, participar em audições, cuidar do instrumento, ir a concertos, ignorar públicos ruidosos, continuar a praticar (mesmo quando não é prático fazê-lo), superar-se, saber esperar (é uma virtude), culpar outros instrumentistas pelos nossos erros e nunca chamar «canção» a uma «peça» são alguns dos mandamentos fundamentais quando se quer ser músico clássico. Pelo menos, é o que diz este curioso vídeo.
19 de Abril de 2016 – Escrever todos os dias é um risco demasiado grande
É capaz de ser melhor desconfiar de quem tem muito a dizer sobre tudo e sobre nada. Quando se fala muito, o risco de se acertar pouco aumenta proporcionalmente. Porque aumenta, igualmente, o risco de se falar sobre o que não se sabe. Olhar as coisas pela rama ou a partir do ponto de vista que toda a gente usa, é outro risco fácil. A democracia e as maiorias trazem consigo esse perigo. É um pouco por tudo isto que escrever todos os dias é um risco grande. A menos que se assuma que se escreve todos os dias apenas pelo prazer de o fazer. Sem ter a pretensão de evangelizar ninguém ou mudar a forma de pensar ou de olhar para as coisas. Tirando esse pequeno pormenor, sim, é um risco.
18 de Abril de 2016 – Uma espécie de geringonça
Igudesman & Joo é um duo de piano e violino que procura descomplexar a música clássica, misturando-a com música pop e com uma performance bem humorada. Na sua página do Facebook, têm publicado vídeos muito interessantes com momentos musicais e performativos curiosíssimos. Aqui fica uma espécie de geringonça, daquelas que parecem funcionar. A um ritmo frenético e cheia de sons, sem parar. Provando que há geringonças que funcionam, desde que estejam bem afinadas e tenham um tocador que consiga retirar o máximo proveito das suas capacidades.
17 de Abril de 2016 – E (re)descobrir Ferreira de Castro
Diz quem sabe que quando nos queremos abalançar em leituras complexas e longas, devemos sempre começar pelo volume mais simples e mais curto. Depois, dentro do volume mais curto, o texto mais curto. Assim foi. Ferreira de Castro sempre esteve ali mesmo ao lado, em Ossela, Oliveira de Azeméis. Às vezes, quando as coisas estão demasiado perto, olhamos tanto para elas que nem as vemos. Em boa hora, por ocasião do centenário de vida literária do autor oliveirense, surgem novas edições. Começo pelo «Senhor dos Navegantes» um périplo errante, conscientemente, à descoberta de um escritor que nem sempre se considerou como tal, mesmo sendo-o até ao mais fundo de si. Depois do «Senhor dos Navegantes», a rota aleatória está mais ou menos traçada. Para (re)descobrir Ferreira de Castro.
16 de Abril de 2016 – Refugiados, uns e outros
Uma das curiosidades da globalização é a facilidade com que se criam fluxos. As pessoas viajam mais, por isso é natural que, por exemplo, as doenças mais características de determinada zona do planeta acabem por surgir em outras paragens. Os produtos (naturais ou transformados) circulam com mais facilidade, e por isso é relativamente fácil encontrarmos frutas ou vegetais vindos do outro lado do mundo. Mas hoje há dois fluxos, quase em sentidos opostos, que, no mínimo, dão que pensar. À costa mediterrânica da Europa, continuam a chegar refugiados, que ou escapam a tragédias humanas ou as protagonizam durante a fuga. Em sentido contrário, os mais ricos da Europa fazem escorrer os seus milhões, escapando aos coadores dos impostos e acumulando fortunas no Panamá. No mínimo, é curioso.
15 de Abril de 2016 – Um dia, no Brasil
Hoje, quem acordar no Brasil, estará a ver o início do processo de «impeachment» da Presidente Dilma Rousseff. Se os acontecimentos continuarem a suceder-se da forma a que temos assistido, não tardará a ser realizada uma telenovela. A mesmo tempo, o Governo propõe alterações ao salário mínimo, e os políticos e governantes ficam a conhecer o resultado de um estudo que procura traçar o perfil dos municípios brasileiros, com indicadores como as taxas de iluminação pública e lixo que são cobradas, bem como o número de funcionários municipais. Em termos de previsão do tempo, há chuva forte numa parte do país e tempo seco noutra. Sintomático, de resto, de como é (e vai sendo) o Brasil…
14 de Abril de 2016 – «Aprender a cantar é um milagre»
Depois de conhecer um pouco melhor as histórias de Natália de Andrade, ou Florence Jenkins, ou Marguerite Dumont, o título faz mais sentido. Mas a frase foi dita por Renée Fleming, que está em Espanha, para cantar no Teatro Real e para transmitir algum do seu imenso saber sobre a voz e sobre música a estudantes espanhóis. Das coisas que foi dizendo, sobressaem duas. Uma, que o mundo da música (hoje, global) é extremamente competitivo, e que, para se ser diferente, para melhor, há que conseguir chegar ao coração do público. Outra, que aprender a cantar é um milagre, porque cada voz, cada instrumento, casa ser humano é diferente. Por isso, cantar afinado, só por si, já é um milagre.
13 de Abril de 2016 – O problema das séries
As séries têm um problema parecido com o meu. Por vezes, desaparecem. Parece que deixam de existir. E, de repente, parece que deixam a história a meio, ou mesmo por contar. Mais ou menos como esta agenda, vá. E depois, no caso das séries, parece que não conseguimos viver sem elas, e desatamos logo a colocar outras no intervalo das que estávamos a seguir e, por algum motivo, pararam. Assim acontece com «House of Cards», ou «Da Vinci Demons», ou até mesmo «Scandal», quando demora mais algum tempo a ter desenvolvimentos. E, entretanto, passamos a ver «American Crime Story», ou «Lucifer», ou nada. Como nesta agenda. Se não houver nada de novo, espreita-se outra.
12 de Abril de 2016 – Uma outra forma de «ouver» Louis Vierne, pelo organista Daniel Roth
Quando a música é muito boa, não é preciso ter ouvido treinado para senti-la. Aliás, parte da magia da música reside precisamente aí, no facto de transcender largamente o que se ouve. Uma das peças que vale a pena ouvir com ouvidos de ouvir é a «Messe Solennelle», de Louis Vierne, para dois órgãos e coro. Aqui apresentada de um ponto de vista diferente, a partir do órgão de Daniel Roth. E, de resto, é melhor não dizer mais nada, e apenas «ouver».
11 de Abril de 2016 – «Beethopin»
Imaginemos a 5.ª Sinfonia de Beethoven reinventada por Chopin. E é como se uma nova peça surgisse, como se tivesse estado perdida todo este tempo, nos baús da história da música. Neste vídeo, podemos, inclusive, acompanhar a partitura. Uma partitura aparentemente simples, de piano. Não uma partitura orquestral. Essa, poderia surgir depois. Talvez com um terceiro compositor a estendê-la a todos os instrumentos da orquestra. Para já, fica o sabor saboroso desta espécie de «Beethopin», para ficarmos a pensar como poderia ser.