30 de Abril de 2016 – O meu soneto de Neruda

pablo-nerudaDe repente, um soneto de amor de Pablo Neruda entranha-se na pele, e toma conta de cada poro. A poesia quer-se com a música da língua em que é escrita, mas, às vezes, precisamos de traduzi-la. Precisamos de moldá-la ao que queremos dizer, porque, no fundo, o que queremos dizer é (quase) tudo o que ali está. Assim, roubei uma palavra, e coloquei duas. E tornei o soneto de Neruda (quase) meu. E as palavras alinharam-se, com o sabor que lhes era devido. E soube bem.

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio ou seta de cravos que propagam fogo: amo-te como se amam algumas coisas obscuras, secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floresce, e leva dentro de si, escondida, a luz daquelas flores, e graças ao teu amor, vive no meu corpo o apertado aroma que ascendeu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, nem de onde. Amo-te directamente, sem problemas [e com] orgulho: amo-te assim, porque não sei amar de outra maneira; senão assim, deste modo em que não sou, não és; tão perto que a tua mão sobre o meu peito é minha; tão perto que se fecham os teus olhos com o meu sonho.

29 de Abril de 2016 – Ser tudo, para ser nada

ensinarHá dias em que queremos ser tudo, como as crianças que fazem birra quando vêem algo que desejam e que tem de lhes ser dado quase antes mesmo de o quererem. Eu gostava de ter a facilidade de compor uma sinfonia, ou várias. De poder fazer tudo o que quisesse à frente de uma orquestra. Mas gostava também de ser um fabuloso jogador de futebol, e de basquetebol também, e hóquei, já agora. Gostava de correr mais depressa que o Usain Bolt. Nadar melhor que o Phelps. Conduzir mais depressa que o Ayrton Senna conduziria, com mais perícia que qualquer piloto de rali. Mas queria também saber de mecânica e de ciência mais do que qualquer super-engenheiro ou mesmo que o Stephen Hawking. De ser mais culto que qualquer comentador. De perceber mais de política que o Presidente da República. Eu gostava de ser tudo. Talvez para chegar à conclusão que é melhor não ser nada, e limitar-me a fazer um trabalho rotineiro e fácil, para fechar a porta quando fosse para casa. E, não sendo nada, poder, aí, ser tudo.

28 de Abril de 2016 – Quando, lá atrás, já parecia fazer sentido

cancroEm 2011, algures por aqui, o pensamento pairava sobre o tumor de que a «pólis» sofria, no tempo de Platão, como nessa altura, como sofre hoje. Passado este tempo, o tumor parece continuar lá. Talvez ainda maior, ou então do mesmo tamanho, mas com aparência diferente. Por ser mutável, não tem cura. Por muito que o FMI e a Europa tentem aplicar-lhe doses de quimioterapia. Dá-nos a ideia de que a cidade é grande, quando apenas está inchada. Pela doença, como pela cura. Pelo zelo, como pela injustiça. Pelo facilitismo, como pela burocracia. «C’um raio», por tudo, e pelo seu contrário.

«Diz-se que fizeram grande a cidade, mas não se vê que ela está apenas inchada, que esta grandeza que lhe criaram é uma espécie de tumor (…) encheram a cidade de portos, estaleiros, muralhas, impostos e outras bagatelas do género».

(in «Górgias»)

27 de Abril de 2016 – Escrever mais?

logo-ddÉ sábado de manhã, e procuro o jornal. Ao lado, uma senhora desenha, calmamente, com perfeição, algumas letras alinhadas, numa folha de papel com linhas. Na aparentemente imensa folha A4 falta apenas um pequeno espaço, para o qual procurava a palavra certa. Tinha acabado de encontrá-la. Estava feliz. «Adoro escrever, só tenho pena que a saúde não me deixe escrever mais». E de forma injusta, cruel até, penso «que bom seria se fosse a saúde a impedir-me de escrever mais».

Impede-me de escrever mais o não querer falar do que não sei. O não emitir opiniões infundadas. O deixar espaço e tempo para quem efectivamente «sabe do artigo». Não a saúde. Porque, quando nos aventuramos a escrever para estes espaços, é como se, metaforicamente, disparássemos uma bala. E uma bala, depois de disparada, não pode voltar para dentro da arma. E o tiro dificilmente pode ser corrigido.

É difícil, portanto, fazer isto como deve ser. Porque não basta ter um ponto de vista. Ponto de vista, todos temos, desde que olhemos para as coisas. É preciso olhar os contextos, para o passado, para o presente e para o futuro. É preciso olhar para os impactos do que dizemos. E, depois, juntar as palavras certas. Claras. Límpidas. Porque não temos grandes oportunidades de clarificar o que ficar por dizer.

Penso rapidamente em tudo isto enquanto espero pelo jornal, esse onde poderei ler quem vê as coisas de uma perspectiva maior. Ou mais profunda. Por momentos, hesito entre aquela folha A4 manuscrita e a crónica do padre Tolentino de Mendonça na revista do Expresso. Mas não me atrevo a pedir àquela escritora compulsiva que me deixe lê-la tal como é. Penso, antes, que é fim-de-semana. Que posso, como um dos «Fernandos Pessoas», estar pensando em nada. E, por momentos, sentir que vale a pena. Vale a pena não pensar em nada. Ou, pensando, deixar tudo escrito à mão, numa folha A4 escondida, mesmo com espaços por preencher.

26 de Abril de 2016 – Deixa-me, apenas, estar

jardimNão ouso pedir-te senão uma coisa. Não que sorrias. Não que te digas feliz, quando algo te atormenta. Não que te foques em mim, quando outros precisam da tua atenção. Não ouso tão pouco querer ter-te, quando o que te preocupa é quase mais importante que a vida. Quase ouso não pedir-te nada. Mas fica apenas uma coisa. Para que serene. Para poder dizer-te, no tempo certo, que vai ficar tudo bem. Para que possa ter a certeza de estar onde preciso de estar, quando for preciso estar. Não ouso pedir-te senão uma coisa. Deixa-me, apenas, estar.

25 de Abril de 2016 – Música e Revolução

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Começa hoje uma caminhada, uma espécie de marcha, que tem como objectivo aliar Música e Revolução. Assim, com M e R grandes, mesmo que com uma ao serviço da outra. A 29 de Abril e a 1 de Maio volto a ter o prazer de reencontrar amigos para fazer grande música. Desta vez, as obras escolhidas para a participação do Coro Casa da Música são as sinfonias números 2 («Outubro») e 3 («O 1.º de Maio»), com textos profundamente «revolucionários», ou não tivessem sido estas obras encomendadas por Estaline. O concerto de 29 de Abril começa às 21:00, e o de 1 de Maio às 18:00. As primeiras partes contam com obras mais contemporâneas, pelo Remix Ensemble. O trabalho de preparação, esse começa hoje.

«Mas as palavras de aflição, as palavras que contam as nossas mágoas, romperam o silêncio em voz mais alta do que a das armas. Ó Lenine! Forjaste a força de vontade do sofrimento, forjaste a força de vontade das mãos calejadas. Apercebemo-nos, Lenine, que o nosso destino tem o nome de “Luta”».

Excerto do texto de Alexander Bezymensky, final da Sinfonia n.º 2 de Chostakovitch «Outubro»

 

«No nosso Primeiro de Maio, na dor do silvar das balas, agarrámos o revólver e a baioneta e tomámos o palácio do Czar. (…) Levantando o sol das bandeiras, a marcha ecoa forte nos nossos ouvidos. Cada Primeiro de Maio é um passo para o socialismo».

Excerto do texto de Semyon Isaakovich Kirsanov, final da Sinfonia n.º 3 de Chostakovitch «O 1.º de Maio»

 

24 de Abril de 2016 – Proporcionalidades

folha-brancoHouve tempos em que se dizia que ler jornais é saber mais. Continua a ser verdade, mas tem de ser com os óculos certos. De facto, ler jornais é saber mais, assim como ver notícias na televisão, ouvir a rádio, ler na internet. Mas a proporção com que as notícias se espalham na página, nas ondas hertzianas ou nos monitores é, cada vez mais parece, inversa à sua grandeza. Na aparente pequenez de uma vila do interior, como nós, parece que nada acontece, pelo menos aos olhos dos que nos vêem a partir dos grandes centros. Mas não faz mal. Cá continuaremos, na nossa pequenez, a ter ideias brilhantes, a pôr em prática projectos que parecem impossíveis de concretizar, a jogar à bola com a Europa. Mesmo sem estrada. Mesmo sem eco, na maioria das vezes. A nossa preocupação com isso talvez tenha de ser, também, inversamente proporcional. E cá seguiremos.

23 de Abril de 2016 – Ouço até me arderem os ouvidos

estudarAlberto Caeiro dizia que «Ao entardecer, debruçado pela janela,/ E sabendo de soslaio que há campos em frente,/ Leio até me arderem os olhos/ O livro de Cesário Verde». Não podendo competir com o génio, fico-me por ouvir até me arderem os ouvidos a versão de Jacky Terrasson e Cécile McLorin Salvant da canção de John Lennon «Oh my love». Ele há coisas assim. Que nos entram pelos sentidos logo ardendo. E ficam. Ficam até se consumirem e se consumarem. Da canção singela, ficam as palavras e o que dizem, e o que a música lhes acrescenta. E nada mais, senão tudo.

Oh my love – Jacky Terrasson & Cécile McLorin Salvant

Oh my love – Jacky Terrasson & Cécile McLorin Salvant

22 de Abril de 2016 – Entre escrever e querer ler

livrosDei-me conta, há pouco, que ultrapassei os 1600 textos escritos neste espaço. Mas mais do que enaltecer tanta escrita, dá-me vontade de fazer uma lista de prioridades para a leitura. Como se fosse mais necessário aprender que ensinar, saber do que dizer, receber do que dar. Por 1600 textos, 16 títulos à espera de serem lidos. D. Quixote, Sinais de Fogo, Volfrâmio, Memórias da II Guerra Mundial, Textos de Sá Carneiro, Confissões de Santo Agostinho, Conta Corrente de Vergílio Ferreira, História da Idade Média de Umberto Eco, Autobiografia de Nelson Mandela, Cosmos de Carl Sagan, São Paulo de Teixeira de Pascoaes, El Fútbol a sol y sombra de Eduardo Galeano, Aquilo em que creio de Hans Küng, Deus existe e Lutero do Pe. Carreira das Neves e Eu sou uma Antologia, de Fernando Pessoa. Só para começar…

21 de Abril de 2016 – Criaturas de um dia

Criaturas_de_um_DiaQuando nem tudo vai bem, a nossa tendência é procurar ajuda. De preferência, tão especializada quanto possível. Uma espécie de armazém ou contentor estanque, onde possamos despejar tudo o que nos perturba. Só que esquecemo-nos que, do outro lado, está alguém como nós, que não tem por obrigação ficar com essa carga tóxica assim, sem mais nem menos. E vai ter de encontrar forma de ver-se livre dessa carga. Irvin D. Yalom conta, em «Criaturas de um Dia» o relacionamento que teve, enquanto psicoterapeuta, com alguns dos seus pacientes. O livro assume traços curiosos, porque acaba por dar-nos a conhecer o que passa pela cabeça de quem habitualmente está do outro lado. Vale a pena passar por estas histórias.