De repente, um soneto de amor de Pablo Neruda entranha-se na pele, e toma conta de cada poro. A poesia quer-se com a música da língua em que é escrita, mas, às vezes, precisamos de traduzi-la. Precisamos de moldá-la ao que queremos dizer, porque, no fundo, o que queremos dizer é (quase) tudo o que ali está. Assim, roubei uma palavra, e coloquei duas. E tornei o soneto de Neruda (quase) meu. E as palavras alinharam-se, com o sabor que lhes era devido. E soube bem.
Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio ou seta de cravos que propagam fogo: amo-te como se amam algumas coisas obscuras, secretamente, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floresce, e leva dentro de si, escondida, a luz daquelas flores, e graças ao teu amor, vive no meu corpo o apertado aroma que ascendeu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, nem de onde. Amo-te directamente, sem problemas [e com] orgulho: amo-te assim, porque não sei amar de outra maneira; senão assim, deste modo em que não sou, não és; tão perto que a tua mão sobre o meu peito é minha; tão perto que se fecham os teus olhos com o meu sonho.
Há dias em que queremos ser tudo, como as crianças que fazem birra quando vêem algo que desejam e que tem de lhes ser dado quase antes mesmo de o quererem. Eu gostava de ter a facilidade de compor uma sinfonia, ou várias. De poder fazer tudo o que quisesse à frente de uma orquestra. Mas gostava também de ser um fabuloso jogador de futebol, e de basquetebol também, e hóquei, já agora. Gostava de correr mais depressa que o Usain Bolt. Nadar melhor que o Phelps. Conduzir mais depressa que o Ayrton Senna conduziria, com mais perícia que qualquer piloto de rali. Mas queria também saber de mecânica e de ciência mais do que qualquer super-engenheiro ou mesmo que o Stephen Hawking. De ser mais culto que qualquer comentador. De perceber mais de política que o Presidente da República. Eu gostava de ser tudo. Talvez para chegar à conclusão que é melhor não ser nada, e limitar-me a fazer um trabalho rotineiro e fácil, para fechar a porta quando fosse para casa. E, não sendo nada, poder, aí, ser tudo.
Em 2011, algures por aqui, o pensamento pairava sobre o tumor de que a «pólis» sofria, no tempo de Platão, como nessa altura, como sofre hoje. Passado este tempo, o tumor parece continuar lá. Talvez ainda maior, ou então do mesmo tamanho, mas com aparência diferente. Por ser mutável, não tem cura. Por muito que o FMI e a Europa tentem aplicar-lhe doses de quimioterapia. Dá-nos a ideia de que a cidade é grande, quando apenas está inchada. Pela doença, como pela cura. Pelo zelo, como pela injustiça. Pelo facilitismo, como pela burocracia. «C’um raio», por tudo, e pelo seu contrário.
É sábado de manhã, e procuro o jornal. Ao lado, uma senhora desenha, calmamente, com perfeição, algumas letras alinhadas, numa folha de papel com linhas. Na aparentemente imensa folha A4 falta apenas um pequeno espaço, para o qual procurava a palavra certa. Tinha acabado de encontrá-la. Estava feliz. «Adoro escrever, só tenho pena que a saúde não me deixe escrever mais». E de forma injusta, cruel até, penso «que bom seria se fosse a saúde a impedir-me de escrever mais».
Não ouso pedir-te senão uma coisa. Não que sorrias. Não que te digas feliz, quando algo te atormenta. Não que te foques em mim, quando outros precisam da tua atenção. Não ouso tão pouco querer ter-te, quando o que te preocupa é quase mais importante que a vida. Quase ouso não pedir-te nada. Mas fica apenas uma coisa. Para que serene. Para poder dizer-te, no tempo certo, que vai ficar tudo bem. Para que possa ter a certeza de estar onde preciso de estar, quando for preciso estar. Não ouso pedir-te senão uma coisa. Deixa-me, apenas, estar.
Houve tempos em que se dizia que ler jornais é saber mais. Continua a ser verdade, mas tem de ser com os óculos certos. De facto, ler jornais é saber mais, assim como ver notícias na televisão, ouvir a rádio, ler na internet. Mas a proporção com que as notícias se espalham na página, nas ondas hertzianas ou nos monitores é, cada vez mais parece, inversa à sua grandeza. Na aparente pequenez de uma vila do interior, como nós, parece que nada acontece, pelo menos aos olhos dos que nos vêem a partir dos grandes centros. Mas não faz mal. Cá continuaremos, na nossa pequenez, a ter ideias brilhantes, a pôr em prática projectos que parecem impossíveis de concretizar, a jogar à bola com a Europa. Mesmo sem estrada. Mesmo sem eco, na maioria das vezes. A nossa preocupação com isso talvez tenha de ser, também, inversamente proporcional. E cá seguiremos.
Alberto Caeiro dizia que «Ao entardecer, debruçado pela janela,/ E sabendo de soslaio que há campos em frente,/ Leio até me arderem os olhos/ O livro de Cesário Verde». Não podendo competir com o génio, fico-me por ouvir até me arderem os ouvidos a versão de Jacky Terrasson e Cécile McLorin Salvant da canção de John Lennon «Oh my love». Ele há coisas assim. Que nos entram pelos sentidos logo ardendo. E ficam. Ficam até se consumirem e se consumarem. Da canção singela, ficam as palavras e o que dizem, e o que a música lhes acrescenta. E nada mais, senão tudo.
Dei-me conta, há pouco, que ultrapassei os 1600 textos escritos neste espaço. Mas mais do que enaltecer tanta escrita, dá-me vontade de fazer uma lista de prioridades para a leitura. Como se fosse mais necessário aprender que ensinar, saber do que dizer, receber do que dar. Por 1600 textos, 16 títulos à espera de serem lidos. D. Quixote, Sinais de Fogo, Volfrâmio, Memórias da II Guerra Mundial, Textos de Sá Carneiro, Confissões de Santo Agostinho, Conta Corrente de Vergílio Ferreira, História da Idade Média de Umberto Eco, Autobiografia de Nelson Mandela, Cosmos de Carl Sagan, São Paulo de Teixeira de Pascoaes, El Fútbol a sol y sombra de Eduardo Galeano, Aquilo em que creio de Hans Küng, Deus existe e Lutero do Pe. Carreira das Neves e Eu sou uma Antologia, de Fernando Pessoa. Só para começar…
Quando nem tudo vai bem, a nossa tendência é procurar ajuda. De preferência, tão especializada quanto possível. Uma espécie de armazém ou contentor estanque, onde possamos despejar tudo o que nos perturba. Só que esquecemo-nos que, do outro lado, está alguém como nós, que não tem por obrigação ficar com essa carga tóxica assim, sem mais nem menos. E vai ter de encontrar forma de ver-se livre dessa carga. Irvin D. Yalom conta, em «Criaturas de um Dia» o relacionamento que teve, enquanto psicoterapeuta, com alguns dos seus pacientes. O livro assume traços curiosos, porque acaba por dar-nos a conhecer o que passa pela cabeça de quem habitualmente está do outro lado. Vale a pena passar por estas histórias.