2 de Janeiro de 2011 – Quando entrevistei Ruy de Carvalho (II)

O topo e novos objectivos

P: O «Rei Lear» era uma espécie de sonho, ou topo… Um objectivo…

R: Sim, toda a vida falei no «Rei Lear»… É um papel de que gosto muito! Nunca pensei em fazê-lo, porque eu nunca pedi para fazer um trabalho… Nunca pedi “Quero fazer aquela peça!”… Nunca escolhi peças. O trabalho tem-me sido distribuído, tem sido escolhido o meu corpo e a minha forma para determinados personagens. E o Lear, eu tinha uma certa…paixão. É um papel que me apaixona, como me apaixonam mais figuras do Shakespeare. Por exemplo, adorei fazer o Falstaff (que nada tem a ver com o «Rei Lear»)! O Falstaff é um gordo, um bêbado…! É diferente… Faz parte de uma comédia muito boa dele que se chama «As alegres esposas de Windsor». É uma figura que, se calhar, conhece, uma figura muito engraçada, muito contrária a todo o «Rei Lear». As comédias de Shakespeare são maravilhosas!… Já fiz muito Shakespeare. Também gosto muito de fazer Teatro português… Gosto muito de Gil Vicente, que ainda não começou a fazer-se o suficiente. Acho que é necessário fazer-se mais Gil Vicente. Nas escolas, pelos alunos… Tem que ser reavivado na memória das pessoas, porque foi (é) um grande homem, que também escreveu grandes peças (como o Shakespeare)… Só que viveu aqui, teve menos possibilidades de se “guindar” (até pelo desinteresse que as pessoas têm). Não se esqueça que os nossos grandes artistas não morrem ricos…! Especialmente os artistas criadores…

P: E agora, depois desse objectivo alcançado?

R: Cá estou, para representar… Eu comecei, há bocadinho, por dizer isso: eu gosto é de representar. Agora, só peço é que, pela minha idade (eu tenho 73 anos, quase), não sejam coisas muito grandes. É que o trabalho de “lavrar o campo” todos os dias, nesta idade, já me é um bocadinho difícil! Embora, em sentido literal, ainda haja muita gente que o faça… Homens de 80 anos (e de mais) a tomar conta (e bem) da terra!… No fundo, é um trabalho físico, como disse… Daqui a um ou dois anos já não era capaz de fazer o «Rei Lear». Fisicamente, já não tenho capacidade… Como não posso fazer nenhum papel que me exija um esforço maior, até porque a resposta muscular não é igual. Embora nós envelheçamos à medida que o nosso “canastro” vai deixando de aguentar o nosso “transporte” de vida, podemos ser jovens até morrer e sentir a juventude dentro de nós. (Aliás, eu digo isso aos idosos, às pessoas com quem tenho trabalhado no terreno). Eu ando a tentar dar força, para que tenham esperança e sejam úteis até ao fim da vida… Nós sentimo-nos jovens, mas o corpo, às vezes, não responde… Mas temos que saber isso! Somos úteis naquilo que podemos ser. Não mais! Aí, há outros que podem…

P: Concorda que o Teatro em Portugal ressuscita lentamente?

R: Sim, mas aí entra a minha esperança na juventude. Os jovens estão à procura de um caminho, à procura do espírito… O que me dá um grande gosto! A maioria do público de hoje é gente nova… Estão a ir a tudo, estão a encontrar respostas para muitos problemas, não só de índole familiar como até de vivência na sociedade. Estão a encontrar respostas no espírito, na Cultura! Porque é uma boa forma de se isolarem da solidão… Da solidão que não interessa, porque um homem com um bom livro nunca está só…! A solidão é uma coisa que se pode evitar com coisas muito fáceis… Até ao ver uma flor a crescer, ao passar por ela todos os dias! E não estou a pôr os jovens fora disso…! Estou a pô-los dentro disso… Devemos experimentar. E experimentar sobretudo o amor!… Permita-me que divague um pouco, para lhe dizer que uma das coisas de que a nossa sociedade sofre é de falta de amor… Há gente que nunca deu um beijo de amor (mãos a filhos, filhos a mães…)! Por isso é que, quando eles chegam a velhos, não há afecto… São capazes de os abandonar. Há filhos que não têm a preocupação de não abandonar um pai… Nunca levaram um beijo de amor, nunca tiveram uma festa do pai, um carinho… Até a zanga, até o ralho, até a bofetada na cara… Tudo isso, nunca existiu! Depois disso, tudo acontece! Com os idosos. Como vamos encontrar solução para que, quando os levamos a casa, a família não os rejeite? Há uma falta de amor pelo semelhante! E somos nós um povo católico…! Um povo cristão, que não devia ter essas faltas! Um povo hospitaleiro (temos essa fama)! Há uns tempos estive, num seminário dos Consultores Seniores, com um senhor dinamarquês do Conselho da Europa e perguntei-lhe como tinha corrido o Ano Internacional das Pessoas Idosas. E ele respondeu-me que não fizeram nada. Pensei que tivessem tudo resolvido, mas não. Ele próprio me disse que o que era fundamental não estava resolvido… Eles tinham resolvido o aspecto económico. E o resto? A auto-estima, a solidão, o abandono, a família? A parte do amor, da estima não existe…! Mas, e respondendo à sua pergunta, estou convencido que as gerações que se seguem vão ser gerações do espírito… Do espírito, mas também da matéria. Hoje há uma certa tendência para que o homem não se importe de ser equiparado à mulher, por exemplo. Já não há essa mentalidade machista… São sinais…

P: Agora, com o início de um novo século e com o Porto Capital Europeia da Cultura em 2001, que perspectiva tem sobre a Cultura?

R: Portugal é, sem dúvida, um país com Cultura, com gente culta. Contudo, com poucos apreciadores da Cultura feita pelos próprios portugueses. Ou seja, os nossos homens de Cultura são mais (re)conhecidos no estrangeiro do que aqui. Não tanto como eu desejaria, mas já há muitos conhecidos. Julgo que nos estão hoje a conhecer melhor, por onde tenha andado já vejo muitas referências a nós! Quando algo começa a aparecer, é porque tem um certo valor… Nós somos um povo com capacidade “científica”, chamemos-lhe assim… Aliás, nós somos um país de inventores. Só que os nossos inventores nunca inventam para Portugal, é sempre para fora… Há gente que experimenta de tudo, faz de tudo, e de quem nós não gostamos muito, ou não apreciamos, ou não damos valor a esse conhecimento. E há coisas por esse mundo fora que são inventos de portugueses. Eu tenho conhecimento disso, e, às vezes, dá-me uma imensa pena que isso aconteça… Mas hoje isso está a chegar às pessoas, talvez porque estamos a acordar para o valor que temos… Um povo que deu povos ao mundo tem muita coisa para dar…! Não só os maiores navegadores! Não só o Vasco da Gama, o Bartolomeu Dias… Foram todos os outros que foram com eles. Homens capazes de dar a sua vida por andar na aventura!… Na aventura do descobrimento, da sabedoria… Quando o Gago Coutinho fez trabalhos de cartografia nas nossas colónias em África… É um trabalho que pouca gente sabe que foi feito por portugueses. Trabalhos notáveis! O sextante… Mas esquecemos tudo isso! Foi esse povo que teve o homem do nónio, que teve poetas como Camões, Bocage, poetas extraordinários, grandes escritores que ainda hoje são famosos no mundo…! Há vários escritores portugueses, não só de agora, mas também antigos, que escreveram e escrevem primorosamente, como nós sabemos, porque os relemos agora, com mais interesse… Vamos que, realmente, somos um povo com muita capacidade, com muito talento! Só que, às vezes, desinteressado, que acha que isso não faz parte da sua vida. Eu acho que isso é parte fundamental da nossa vida – a riqueza espiritual que podemos ter, e temos…

P: Terá que haver, como no Ano Internacional das Pessoas Idosas, uma sensibilização…

R: Mas isso é fácil de se fazer! São vocês, os jovens, que têm que o fazer. Têm que começar a acordar este povo para a realidade que eles são, para não haver coisas que choquem, por falta de…educação…! É a tal educação, uma educação para as coisas…

P: A tal predisposição

R: Predisposição para aquilo que é belo, para uma forma de viver em beleza…

A Política e os políticos, uma relação complicada

P: Tínhamos falado, há pouco, dos políticos. O que pensa da Política e dos políticos?

R: Como calcula, eu tenho andado muito com políticos ultimamente (de todas as cores). Quando eles se preocupam só com o bem do seu povo, acho que eles são úteis. Quando eles fazem política partidária, não concordo com eles. Os políticos só deveriam ser partidários em tempo de eleições, e comportarem-se, depois, como portugueses. Deviam funcionar como tal, para bem dos portugueses, sem selecções… Há um povo que precisa de ser governado como deve ser. Sempre que a Política, no caso concreto da Assembleia da República, começa a cair para um lado, em que um partido condena ou absolve, “trama” o outro só porque não quer chegar a um acordo, não posso concordar… Se as ideias são boas e nós estamos a ver que são boas e úteis, penso que não deve haver cor política… (Embora eu seja democrata e favorável à diversidade de opiniões…!) Mas o que tem que haver é um esforço para que tudo se destine ao engrandecimento de um mesmo bolo (sendo que o bolo é o país).

P: Um aspecto relacionado com a Política; saiu magoado com a situação que houve no D. Maria II, há algum tempo?

R: Saí… Saí magoado! Não se admite que alguém possa mentir quando tem responsabilidade num país…! Eu, na verdade, saí magoado quando ouvi coisas que achei que não eram verdade… Era um assunto que estava a ser tratado há algum tempo, e negaram-no! Simplesmente, alegaram que não sabiam de nada… Isso magoou-me bastante, e magoou-me a forma como, depois de ser “velho”, disseram que eu era um homem privilegiado, que ganhava muito, um homem riquíssimo, cheio de dinheiro… Ora, eu não ganho bem, ganho um quarto do que ganha um actor espanhol… Tenho uma reforma, mas que não me permite ficar em casa… Tenho que trabalhar para conseguir viver um pouco melhor, não posso ficar só com a reforma… Eu bem sei que há quem tenha menos…! Mas não é muito, ao fim de 45 anos…

Pensamentos, personagem e personagens

P: Qual a frase que decorou, que tem mais presente e que significado lhe atribui?

R: Vou dar-lhe um pensamento… Vivi muito tempo dentro deste pensamento, sem saber de quem era. É do Gandhi. Gandhi disse um dia que «a arte de viver é a arte de transformar a vida numa obra de arte». Eu vivi a pensar nisso e, um dia, sem querer, descobri a frase. Agora, a partir daqui, há que ver onde se pode aplicar isso…

P: Apesar de o vermos em diversas personagens, a sua personalidade é fácil, há uma grande empatia… As pessoas quase que se apercebem de como realmente é sem que o conheçam. Qual é o segredo?

R: Não sei… Eu gosto muito do meu semelhante. Se tivesse que me definir como homem, diria que sou um humanista. Eu considero que a parte humana é tudo. O homem é tudo. Não estou contra a máquina…! Mas acho que sem ele não há máquina. Ele é que é fundamental, ele é que tem que ser bem tratado. Para mim, a construção de uma sociedade boa passa por coisas que falam o homem funcionar alegremente, em boa disposição, em sorriso… Há momentos maus, mas também se pode sorrir em momentos maus!… Eu não sou capaz de viver sozinho… Eu tenho que viver em colectivo. E isso é uma coisa que me obriga a ir ter com as pessoas… Então, essa empatia acontece. Eu não sei se não seria um bom sacerdote…! (Não o sou provavelmente por não poder casar…) Ou médico, por exemplo… Qualquer profissão que tenha que dar qualquer coisa ao meu semelhante me satisfaz. Ser útil…! Na minha profissão posso ser útil. A montra não me fere, não me atrai… É claro que sou um produto vendável. Eu sei que o sou… Mas isso é para quem me vende, não para mim…! Eu gosto de andar na rua, no meio dos meus semelhantes, igual a eles, não quero ser diferente… De maneira nenhuma! E faço o possível. Sou assim há muitos anos, desde que comecei…! Raramente ou nunca uso galões em coisa nenhuma! Não tenho galões, sou um cidadão normalíssimo, gosto muito do meu semelhante, gosto de o servir o melhor que sei e posso. E, neste momento, já o disse, estou a ter uma certa reciprocidade, que é aquilo que eu não sabia… É o carinho com que sou recebido em muitos sítios…! É tão grande que eu, por vezes, não tenho capacidade de não chorar, de não me emocionar com a ternura e a amizade que têm por mim!…

Ser-se homem

P: O que responderia se lhe perguntasse quem lhe ensinou a ser homem?

R: [Silêncio algo emocionado] O meu pai… O meu pai… E outros colegas meus. Eu tive colegas excepcionais, como pessoas. E devo-lhes muito! Sobretudo, tentei não deslustrar o nome que o meu pai me deu, a escolha que ele fez por mim…

O talento e a modéstia

P: Acha-se talentoso, ou prefere ser modesto?

R: Talentoso, não sei… Eu tenho muitas dificuldades…! Um grande homem, um grande artista, disse um dia uma coisa muito importante… Não sei se já viu o «Limelight», do Chaplin… Ele trabalha num número de pulgas, sem êxito nenhum. E a certa altura passa a ter êxito. Um jornalista, quando ele está a tirar a maquilhagem (no fim do número das pulgas, com grande êxito), se ele já tinha atingido a perfeição. E o Chaplin respondeu: «Não vivemos o suficiente para deixar de ser amadores». Foi a resposta que ele deu! O Chaplin era um grande, grande artista…! E eu partilho da opinião dele, como humilde que sou, perante esse artista, o homem por trás de Charlot, um homem verdadeiramente extraordinário!…

O campo e a cidade; paixões, semelhanças e diferenças

P: Quais as principais diferenças que encontra entre o campo e a cidade?

R: Eu gosto muito mais disto do que da cidade!… Na cidade andamos todos de costas voltadas… Aqui, a intimidade é muito maior! Claro, existem aquelas coisas pequenas, mas há muito mais possibilidades de se ser útil dentro de um sítio com menos gente. Não é com menos capacidade! Vocês hoje vêem a mesma coisa que Lisboa vê, as notícias são as mesmas, ao mesmo tempo… Só não têm o Teatro ao vivo (não com tanta frequência)… Mas eu não sei, isto é um dos aspectos que tem que ser resolvido por outra gente…

P: Porque é que escolheu Arouca como refúgio?

E: Não sei… A primeira vez que vim aqui foi há trinta e tal anos (33, 34 anos), para ver se fazia aqui um espectáculo chamado «Maître Patlin». Eu era director do Teatro Experimental do Porto, na altura.

P: Teatro Experimental do Porto que está…

R: Pois… Está em Gaia, por culpa do Sr. Ministro (o tal mentiroso)… Eu há bocadinho não disse… Quando chamamos mentiroso a alguém temos que o provar. Eu não ouvi dizer o que quer que fosse directamente a mim. Portanto, não posso dizer isso… Mas julgo que é um bocadinho… E, pelo Teatro Experimental do Porto, vim aqui e conheci pessoas, mas não pude fazer o «Maître Patlin», porque não havia espaço. E nunca mais voltei cá. Fiz bons contactos e, uns anos mais tarde, trouxeram-me aqui outra vez, numa viagem de excursão. O fenómeno foi como quem namora uma rapariga. Arouca tem qualquer coisa que me atrai, não sei explicar o quê… Gosto muito de cá estar, sinto-me bem cá, gosto dos sítios todos, conheço-os bem, falo de Arouca sempre que me falam noutro sítio qualquer… Sem querer, falo…! Não quero ser simpático a Arouca, não é por isso. Vem-me à boca, como possivelmente vem a minha mulher. É uma paixão do mesmo tipo! Nunca tinha pensado nisso! Pensei-o agora, neste momento…! Aconteceu exactamente o mesmo que com a minha mulher…! E hoje, “sem querer”, sou cidadão de Arouca… Deram-me essa honra…

1 de Janeiro de 2011 – Quando entrevistei Ruy de Carvalho (I)

A entrada no Ano Novo serviu também para remexer nas memórias. Ontem, revi, a passear pelas ruas de Arouca, o actor Ruy de Carvalho, que tive o imenso prazer de entrevistar a 2 de Janeiro de 2000, então para um trabalho da faculdade. De imediato me vieram à memória praticamente todos os momentos daquela tarde, em que eu procurava experimentar o que era ser jornalista, e Ruy de Carvalho «despia a farda» de actor, para ser «homem como nós». Não resisti a publicar o texto, ainda que por partes. Muita coisa mudou entretanto, como a ausência da sua Rute. Mas há frases que permanecem. Coisas que continuam a fazer sentido. E uma das mais gratas memórias reavivadas. Esta entrevista foi realizada na residência do sr. Valdemar Duarte, distinto amigo, e contou com a colaboração fotográfica do meu amigo Nuno Cerca. Faz, agora, 11 anos que tudo aconteceu.

O descanso do guerreiro no anfiteatro natural

Bondade, dor, amor e ódio são as quatro colunas em torno das quais nasce o Teatro. No seu centro, o que lhes dá razão, ou vida – o actor. Correm-se as cortinas da janela como as de um palco, e surge em cena o anfiteatro natural. Depois de muito tempo passado, depois do espectáculo de uma trovoada seca, sobe ao palco o cair da tarde. O guerreiro, o cavador, o homem que se transfigura e não deixa de parecer e ser quem é descansa. Deixa do lado de fora da porta mais uma discussão normal de um dia de vida e veste-se de si mesmo, encarna a sua própria personagem. Tudo está a postos para que o espectáculo comece. Passo a passo, descobre-se o homem por trás de tantos homens. Arouca é o pano de fundo, sobre o qual se vão desenhando traços que abrangem o mundo. Diálogos sobre o universo, sobre universos e particularidades. Uma vida, várias vidas, várias vidas numa só… O pano permanece corrido e já a noite se apoderou da cena. O pano permanece e permanecerá corrido, porque nada apagará da memória aquela representação que foi tão bem representada que ultrapassou a própria realidade daquele momento…

O percurso de uma vida, uma família de actores

P: Seria justo começarmos pelo seu percurso de vida e profissional…

R: Bem, eu comecei a lidar com gente do Teatro muito novo. Tive família no Teatro, os meus irmãos… Vivi muito no meio, no meio do Teatro. Portanto, não foi difícil. Apenas foi difícil saber se tinha ou não jeito para representar. Tive algum… Fiquei na profissão. Não tive, portanto, dificuldade em entrar. Estudei, depois, paralelamente. Tirei outro curso, um curso não vocacionado para gente do Teatro (um curso comercial), mas que serviu de preparação. Fiz o curso do Conservatório e comecei em 1947, no Teatro Nacional como profissional e com colegas profissionais (não tinha ainda o curso, mas ao trabalhar numa companhia profissional, tornamo-nos profissionais). Foi este o meu percurso como homem de Teatro. Também não tive dificuldades na escolha da carreira, os meus pais aprovaram. O meu pai, embora fosse militar, gostava muito das artes… Foi fácil a minha entrada na vida profissional do Teatro, em que estou, há quase 53 anos…

P: Tem um filho que também é actor. Sente algum tipo de continuidade?

R: Sim, o João. Eu tive irmãos actores. Eu continuei os meus irmãos. Agora, um filho… A minha mãe só teve filhos actores… É realmente gratificante, para um pai que escolhe uma profissão, depois de continuar os irmãos…E o meu filho, gostava que fosse actor e que escolhesse a minha profissão, e escolheu! É a prova que é uma profissão tão nobre e tão digna como as outras.

Uma história de amor original

P: Gostaria que me falasse sobre a sua história de amor, bastante original…

R: Original… Eu conheço a minha mulher há 55 anos. (Talvez 56…) Conheço-a desde aquele momento… Eu estava no Conservatório e a minha mulher (que é formada em História e Filosofia) também dançava, também estava no Conservatório. E eu estava um dia a conversar com o Armando Cortez e ela entrou, por uma escada contrária, num átrio e eu disse ao Armando: «Olha, vês aquela miúda? Gostava que fosse a minha mulher e a mãe dos meus filhos…». E foi… Passado um tempo ela terminou o namoro que tinha e começámos a encontrar-nos, por acaso. Nós trabalhávamos os dois no S. Carlos. Eu, enquanto tirei o curso no Conservatório, estive no Coro de S. Carlos. Era, na altura, um coro amador. E era-me útil, porque trabalhava a voz, tinha escola de canto (que era dirigida por um grande cantor português que foi o Tomás Alcaide)… Tudo isso era um benefício para mim, porque, ao mesmo tempo, em vez de perder as noites, ganhava as noites, cantava ópera, conheci grandes cantores da época, comecei a pisar o palco com muita frequência (o que também foi muito útil para a minha profissão). E isso aproximou-me dela. O que é engraçado é que tudo isto termina (ou começa) com a nossa aproximação, no Porto. Foi numa digressão da Ópera de S. Carlos, em que ela dançava e eu cantava, que nós falámos pela primeira vez. Começa aí o nosso romance de 55 anos (são 9 anos de namoro e 46 de casados). Aí está… É uma vida! E às vezes pensa-se que os actores são pessoas com uma vida irregular… Eu vivo num bairro social, no Bairro de Sta. Cruz, em Lisboa. Um dia, um vizinho meu disse-me assim: «Afinal de contas, o senhor é uma pessoa igual às outras…!». Sou perfeitamente igual. Só tenho uma diferença: trabalho numa profissão que tem montra, somos conhecidos pelo Palco, ou pelo Cinema, ou pela Televisão. Qualquer pessoa que sirva bem, que se torna notada na sociedade passa a Ter um pouco de montra, e de jornais, e “VIP’s”… Mas é assim. Hoje consumam-se 55 anos na vida de duas pessoas. É realmente qualquer coisa! Tenho dois filhos, uma é jornalista e o outro é actor, como eu… São duas pessoas que estão na Comunicação Social. A minha vida pode ter-lhes proporcionado essa facilidade. Qualquer deles teve facilidade de contacto, são meios que proporcionam contactos… As pessoas vão ao Teatro, à Música, frequentam os sítios onde há pessoas que se interessam pesas mesmas coisas… Torna-se mais fácil.

Uma profissão de paixão – uma vida, várias vidas: perspectivas

P: Quando aborda um determinado papel ou um determinado personagem, fá-lo de uma forma mais profissional ou mais apaixonada?

R: Eu começo pela paixão e depois tenho que ir à profissão. Porque a profissão dá-me para todos os dias. Nós temos que fazer todos os dias um trabalho e estarmos preparados para isso. Nós exigimos a nós próprios um trabalho e um cuidado físico. As nossas condições são muito limitadas. Temos que ter sempre o cuidado de estar presentes todos os dias no espectáculo, não nos podemos afastar muito… Isso vai-nos cortando as possibilidades de férias, por vezes, ou passar determinadas épocas com a família. Eu passei muitos Natais e Fins-de-Ano longe da família, longe de casa, noutros sítios, a trabalhar. Tinha que ser… Tinha os filhos a crescer e precisava… Mas ataco sempre os papéis com paixão. Eu gosto muito é de representar. É claro, há papéis que são melhor desenhados que outros, há outros mais difíceis. Há linguagens mais difíceis, há escritores que são mais complicados a escrever e com os quais não temos tanta facilidade. Decorar um texto exige leituras permanentes e contínuas. Para Teatro, sobretudo… Já o Cinema se decora em fracções…

P: Exacto, o Cinema (como a Televisão) proporciona sempre o “voltar atrás”…

R: Sim, há a hipótese de recapitular… Nós, no Teatro, temos isso, mas no ensaio. Há fases no trabalho de Teatro que temos de usar em fases de Televisão. São trabalhos que não estão ainda consistentes. Estão conseguidos em termos de interpretação, por vezes, mas não totalmente conseguidos na parte técnica. Tem que se fazer um esforço muito maior. No Teatro temos ensaios todos os dias. Isso obriga-nos a saber o texto com maior rapidez…

P: Também não há a possibilidade de uma análise constante. Quer dizer, na Televisão a pessoa faz e pode estar imediatamente a ver-se, a ver o que fez…

R: De facto. Tem que se procurar uma análise imediata. Isso também em Rádio. Nós, na Rádio, lemos três vezes e temos que gravar (e representar). A parte interpretativa do texto não leva, normalmente, muito tempo. O que nos leva mais tempo é a procura do decorar, a busca da expressividade, para que não fique uma coisa monocórdica, chata, sem valores… Nós estamos a falar desta forma, mas é a tentar chegar a este nível, conseguir que as palavras venham com esta fluência (com palavras que não minhas). Temos também que construir gramaticalmente. Estamos aqui a fazer vírgulas, pontos finais, parágrafos… Tudo isto, mas a conversar. Como calcula, o trabalho escrito não é igual ao trabalho dito, as palavras não têm o mesmo tamanho… As palavras podem ser ditas de várias formas, enquanto que na grafia estão sempre iguais. Mas têm intenções diferentes, as intenções variam… É o gozo que isto tem. Já repeti, possivelmente, palavras com sentidos completamente diferentes. Quando me faz uma pergunta, ela tem uma intenção. Quando estamos a fazer determinados papéis, como cínicos, avarentos… As palavras vêm com gozos diferentes. Quando estamos a ironizar, as palavras são as mesmas, mas com ironia. O perigo de fazer os cínicos, por exemplo, é “carregar na farinheira”, como nós costumamos dizer, que é fazer cínico demais. O grande cínico é aquele que não se percebe que o é… O Yago, do «Othello», o símbolo do cinismo e da hipocrisia. É o maior filho da puta do mundo (depois corte ali…). Mas não pode parecer. Ele é tão convincente que tudo o que ele diz parece verdade! Normalmente os grandes hipócritas são os gajos que não parecem… Aliás, não gostamos de tipos brutos, os que dizem as verdades, mas eles são, às vezes, os melhores… Por certo já encontrou gente bruta, mas muito boa, cheia de saúde na sua forma de estar em contacto com o seu semelhante.

P: Como é “fazer” um personagem, ou encontrá-lo?

R: Bem, o autor foi quem o fez… Mesmo quando é «Comédia Dell’Arte» ou improviso… Há sempre um autos para um texto ou para um desenvolvimento. Nós temos figuras marcadas. As figuras da «Comédia Dell’Arte» são figuras características, o Palhaço, o Arlequim, o Pantaleão… Mas depois há muitos arlequins, muitos pantaleões… Cada um interpreta como quer. Nós, na vida, pertencemos a grupos. Em termos físicos ou étnicos, chamemos-lhe assim… Há pessoas características de determinadas zonas. Os nórdicos são pessoas como nós, mas com outras características. Já os gregos são extremamente parecidos connosco… Nós os latinos, por exemplo, temos muita dificuldade em fazer Oscar Wilde, por causa do snobismo. Mas há um povo – o povo alemão – que faz melhor Oscar Wilde que os ingleses, segundo os técnicos de Teatro. São os alemães quem faz melhor aquelas figuras, que os faz ter um snobismo primoroso… O «Hamlet», por exemplo, não se passa na Inglaterra, mas na Dinamarca…

P: Acredita que o actor é um fingidor?

R: Acredito. Como um poeta. Temos que fingir, não há dúvida nenhuma, senão morríamos… Mesmo assim, temos um desgaste físico grande, porque há determinadas dores… Suponha que uma pessoa de quem gosta muito morre, um pai, uma mãe, um filho… São bocadinhos de nós… Agora, temos que o fazer em cena. Muitas vezes, morre-nos um filho. São dores… Como com o Lear, por exemplo. O que as filhas fazem ao pai é uma coisa “do arco da velha”… Mas ele, no fundo, desprezou-as, porque elas disseram a verdade… Essas dores são, como calcula, tremendas! Senti-las…! Eu senti-as todos os dias! Só que eu sabia, como fingidor, que não era dor. Mas, fisicamente, eu senti-as, porque eu tinha um desgaste físico muito grande. «A Tempestade», por exemplo, que fiz aqui no Porto, no Teatro Nacional São João, antes das obras. O teatro era todo aproveitado… Eu entrava e ia para a plateia, sentava-me ao pé das pessoas, do público… Era um espectáculo muito bonito! Mas era uma interpretação, uma forma… Os textos podem ser interpretados de várias formas e a gosto do encenador, desde que ele não faça traições totais ao texto. De qualquer forma, isso deixa-nos marcas físicas. Eu dizia, por brincadeira, que o dia, para mim, é como lavrar um campo de sol a sol… Um trabalho físico, como um cavador, como se eu fizesse esse trabalho…

P: Será o actor uma espécie de “monstro”, que conta histórias para se esconder atrás delas?

R: Não digo que seja um monstro… Mas esconde-se atrás das histórias. Claro, esconde-se… Eu estou a observar aquilo que estou a fazer. Se não fizer essa observação, sai descontrolado… Eu tenho que estar absolutamente controlado ao fazer o trabalho…

P: Eu adoptei o “monstro”, porque é uma frase do Pedro Paixão…

R: Não, mas é isso! O monstro, às vezes, não é depreciativo. O monstro pode fazer-se ao fazer poesia…

P: Monstro, talvez no âmbito da construção, de incansável, de muito desgaste, e, no entanto, energia de sobra…

R: Sim, agora veja o controlo e o fazer, as duas coisas juntas, o controlar o que se está a fazer… É um esforço físico, talvez gradual, depois da estreia (não que não seja estreia todos os dias). Isso obriga-nos a um controlo. Se já nos habituamos a uma gargalhada em determinada altura e há um dia que não há? Temos que estar completamente controlados para não esperar por aquela gargalhada. O nosso controlo é absoluto. O beijar as colegas, por exemplo… Nós não podemos estar em activo, senão não representávamos. Estamos controlados. Ali, no Teatro, temos o público, e os colegas em cena. Na Televisão, na Rádio, no Cinema, temos os técnicos todos à nossa volta… Nunca pode haver um descontrolo físico em coisa alguma.

P: Abordando a questão do público, como é este misto de monólogo/diálogo com o público?

R: No Teatro é um diálogo. Nós sentimos a reciprocidade e gostamos de a sentir. Aliás, uma das coisas que às vezes complica a nossa vida profissional, no que diz respeito ao Cinema e à Televisão, é o não termos a imediata resposta… Temos que a ir descobrindo, temos que ir descobrindo as coisas que realmente nos dão o contacto humano. Na Televisão temos as câmaras e quem as controla, temos o pessoal que está ali, as meninas da limpeza do estúdio… Tudo isso está presente. Às vezes há uma multidão no exterior, a ver-nos filmar… Isto é a reciprocidade, a troca de emoções entre o público e nós, o que é muito agradável! É por isso que eu gosto do Teatro… Não que não goste muito de representar em Televisão ou no Cinema! Gosto muito, eu gosto muito é de representar! Mas a forma de que gosto mais é o Teatro, porque é onde tenho resposta imediata. Onde uma lágrima minha tem a ver com as lágrimas do público, com as emoções que eles estão a sentir sinceramente e eu, às vezes, não estou a sentir… Eu estou a caminhar para que eles chorem… Não é forçá-los a chorar nem obrigá-los a chorar ou a rir, mas a tentar que as emoções “toquem” nas pessoas… É um esforço de encontrar emoções “do lado de lá”… Quando sentimos que há distracções… Há coisas tremendas… Carteiras de senhora a fechar, papéis de rebuçados, telemóveis… (Hoje pede-se para não tocarem telemóveis… chegou a ser infernal!). Vou contar-lhe uma coisa engraçada que aconteceu comigo… Eu estava a fazer o «Rómulo, o grande», de Dürenmatt, no Teatro Nacional. E estava, nesse dia, um grupo de cegos na primeira fila (cegos que são belíssimos ouvintes). Os cegos nunca estão quietos com a cabeça… Como não vêem, a cabeça não pára… Mas isso não nos perturba, porque sabemos que eles são cegos e identificamo-los imediatamente, porque estão normalmente nas primeiras filas. E estava um rapaz, sentado também na primeira fila, que brincava com aquele “cubo mágico”. Ele estava entretido e eu, a certa altura, penso: «Ele está numa situação que eu não percebo… O que é que ele está a fazer? Ou nós não temos interesse nenhum (mas aí, o resto do público não estava de acordo)…». Então, parei a determinada altura. Os meus colegas tinham saído e eu fiquei sozinho, tinha um monólogo muito bonito, a propósito da sociedade da época, e parei para lhe perguntar: «Porque é que está a fazer o “cubo”? Não está bem disposto? Se não quer estar a ver isto, vá lá para trás… É que assim incomoda-me profundamente! Se não gosta, vá-se embora, faça o que quiser, mas isso não! Está completamente longe de nós, não faça isso…!». É que há um desligar… É como se a corrente estivesse interrompida, percebe? Entre mim e o público, ele, sozinho, conseguia separar-nos…

P: Um ruído no circuito de comunicação…

R: Exactamente! Havia ali uma brecha no circuito de comunicação… Eu estava completamente distraído com ele… E ele disse-me sabe o quê?… «É que eu não vim ver o espectáculo… Vim acompanhar os cegos…». Então, eu disse-lhe de novo que fosse lá para trás… «Não, não! Agora vou ver…», disse ele. Ele foi ver o espectáculo numa situação de levar pessoas e não de ir assistir.

P: Há necessidade de uma certa educação…

R: Claramente! É uma questão de educação. Não que ele fosse mal-educado. Depois até foi dos que aplaudiu mais! Mas ia “noutra”… As pessoas têm que ir para as coisas com gosto, com prazer… É claro que isto é um bocadinho de exagero, mas uma pessoa não pode ir chateada para o Teatro… Nem com a “pança cheia”! (O arroto… É incómodo!). Precisamos de estar leves, para que as coisas entrem com mais facilidade.

P: Tem que haver uma predisposição para determinadas coisas…

R: Prepararmo-nos para isso… E, em Portugal, há uma coisa muito grave: «Vamos lá ver esta merda…». Partimos de uma premissa errada. «Vamos ver uma coisa que me agrada, de que gosto, que depois posso não estar de acordo com…». Isso é que é! Usar o nosso poder crítico…

P: Experimentar…

R: Exactamente, é a nossa experiência que depois entra, o poder crítico, o conhecimento, aquilo que estudámos, a matéria que nos interessa ou não, dizer se estamos ou não de acordo com esta ou aquela ideia, se a discussão é interessante… Se estamos só para nos divertirmos, então vamos bem dispostos para nos divertirmos. Uma coisa alegre… Mas isso escolhemos, como com a leitura. Também escolhemos a leitura… Apetece-me um policial, ou apetece-me uma revista, ou algo mais possante, mais forte, com mais conteúdo, mais teórico, comparativo connosco, com uma forma de estar na vida… É esse interesse que a vida tem que não me deixa parar! Eu digo que nunca estou quieto, vivo intensamente a vida… Uma das razões pelas quais eu gosto desta casa é porque esta vista me sugere um anfiteatro natural… Uma coisa linda! Eu já vi aqui uma trovoada seca que houve há alguns anos e foi um deslumbramento! Aqui, desta casa…

P: Acredita que a vida é um palco?

R: É, não há dúvida que é… Com bastidores e tudo! Nós, na nossa casa, estamos de uma forma, na rua estamos de outra. Para o trabalho, temos de ir arranjados… Há os da chamada “classe média” que têm que andar de fato-macaco… Cada um veste-se de acordo com a sua profissão. Aliás foi uma das coisas que veio com o 25 de Abril… Desapareceram as fardas… Os grandes trabalhadores vinham todos fardados para a rua. Depois, ninguém queria ter farda, porque eram carneiros, eram não sei o quê… Não! Era a poupança do fato, o reconhecimento de uma profissão, do trabalho que fazem. A farda de trabalho não é uma coisa deslustrante. Imagine que eu tinha que ir varrer ruas. Não podia ir com este fato. Tinha a minha farda de trabalho (poupava o meu fato) era respeitado por isso. Depois, chegamos a casa, mudamos de fato e vestimo-nos como “cidadãos livres”. Andamos sempre muito “fardados”. Eu também me fardo todos os dias, quando represento…

P: Representar é procurar a vida ou um ideal de vida?

R: É um ideal de vida. Claro que sim… São ideais de vida, bons ou maus. (Ideais não serão todos… O mal não é um ideal, mas é uma comparativa do ideal, para que se saiba o que é ideal, o que é melhor…). Mas… Eu gosto dessa pergunta! Mas tenho que andar aqui à procura… Estou um bocadinho baralhado… [Silêncio] Tem a ver com o passarmos para uma vida paralela, mas que não tem a ver com esta. Perde-se a beleza totalmente… A beleza da arte posta ao serviço da vida não fica tão pura, não fica tão bem… O que tem que se dar é mais valorizado, tanto no mau como no bom, para que as pessoas que estão na vida (os da vida) vejam naquilo correcções. Os artistas podem estar mais tempo nessa vida paralela. Os pintores, os escultores podem estar 24 horas. Mas aqueles que têm de transmitir sentimentos escritos por outros (ou deles próprios) não podem estar tanto tempo… Eles também têm a sua vida “normal”, a vida de qualquer cidadão… Mas têm uma saída para outras vidas. Até um qualquer funcionário tem… Um médico, um advogado, um funcionário dos correios, têm um ar, uma forma. Como ser polícia… Há posturas de representação, de “figura”. Como jornalista, muitas vezes terá que ir contra a sua forma, e ser um pouco como “aqueles que perseguem as pessoas”. Mesmo sem querer, tem que ser… Precisa de uma entrevista, precisa de um trabalho… E não desiste! Eu tenho uma filha jornalista, como disse… Estou, portanto, à vontade para lhe falar sobre isso. Tem que encontrar uma forma, encontrar a sua imagem de jornalista (imagem escrita ou falada). A minha filha é jornalista de Rádio, por exemplo… Mas, como sabe, a escrita de Rádio é completamente diferente da escrita dos jornais… São imagens.

P: Qual o personagem mais parecido consigo?

R: [Silêncio] Talvez aqueles que não têm muitos problemas… Sou um homem que não tem muitos problemas. Considero-me um cidadão normalíssimo, tenho o cuidado com a vida, com o desenvolver da minha família, da minha vida… Há personagens mais fáceis de fazer… (Mais fáceis… Nenhum é fácil! Não somos nós, não é?…). Mas o Leonardo, por exemplo, que eu estou a fazer agora na Televisão… É um personagem que não me é difícil, embora ele seja dado como louco… Mas não se trata de um doente mental. É antes uma pessoa com problemas de stress, de ordem nervosa, frustração… Não é um doido! De qualquer maneira, não tenho muita dificuldade… Tenho tido alguns “bicos d’obra”… Especialmente quando são muito contrários à minha forma de estar… Até física…

30 de Dezembro de 2010 – Na Assembleia Municipal, a pensar na Academia de Música de Arouca

Decorria (de forma relativamente normal) a Assembleia Municipal, quando o presidente da Academia de Música de Arouca tomou a palavra, para pedir colaboração da Câmara no avanço da instituição. Segundo o dirigente, a Academia tem, neste momento, cerca de 200 alunos (metade do que poderia ter se tivesse a oferta curricular completa). E só não tem mais alunos porque as instalações se revelaram exíguas para acolher os graus de habilitações literárias/musicais correspondentes ao secundário. Mas das intervenções, o que fica é uma profunda desilusão. Ninguém percebeu, das palavras do presidente da Academia, que se trata de uma escola, que confere habilitações literárias, e não um «armazém de filhos», onde estes se divertem a aprender umas notas de música. Estamos a falar da possibilidade de uma formação complementar riquíssima, e com valia curricular. No Porto, o Conservatório está, neste momento, integrado numa escola secundária, e são notáveis as experiências que têm sido feitas com turmas em que se articula o ensino «regular» com o da música. Em Arouca pensa-se nas coisas isoladamente. E, em casos como este, perdem-se oportunidades. Como a de, talvez, por que não, integrar a Academia de Música na Secundária em obras, indo mais além do que o curso profissional que actualmente têm em comum.

29 de Dezembro de 2010 – E o dia terminou em amena cavaqueira

A jornada noticiosa decorreu com alguma graça. Primeiro, o Governo, que gritava «aqui d’El Rei» quando o PSD falava em alterar a constituição, preconizando um Serviço Nacional de Saúde «tendencialmente gratuito», avança agora com taxas moderadoras para toda a gente que tenha rendimentos acima do salário mínimo nacional (pensionistas e desempregados incluídos). É curioso que, agora, ninguém brade a partir do Largo do Rato, nem rasgue as suas vestes em protesto contra tal injustiça. Por outro lado, «viva José Manuel Coelho». O excêntrico deputado madeirense é oficialmente candidato a Presidente da República. Depois de se passear de relógio ao pescoço e de desenrolar uma bandeira nazi em pleno parlamento madeirense, inicia agora nova luta, «a bem da nação». E o dia termina com uma amena cavaqueira entre Cavaco e Alegre, com mais cavaqueira do que alegria.

28 de Dezembro de 2010 – 1360 milhões de euros gastos na semana de Natal, via multibanco

Há um ano os números também deram que falar. Em 2009, durante o período natalício, em média, cada português gastou 470 euros (cerca de um salário mínimo). Só no dia 23 de Dezembro de 2009, em média, cada português gastou 48 euros, sendo que a média total de gasto por minuto rondou os 264 mil euros, ou, ainda mais impressionante, 4300 euros por segundo. Este ano os números também dão que pensar. Oito milhões de levantamentos nas caixas multibanco, no valor total de 578 milhões. Isto só entre os dias 20 e 26 de Dezembro. Na semana de Natal, fizeram-se 17 milhões de pagamentos automáticos, no valor de 782 milhões de euros. Neste período, em média, cada português levantou 74 euros por dia e fez pagamentos (também por dia) no valor de 45 euros. No total, estamos a falar de um movimento de 1360 milhões de euros, em «dinheiro de plástico». E estamos em crise.

27 de Dezembro de 2010 – Morreu o maestro Manuel Ivo Cruz

Às vezes, por brincadeira, trocavam-me o nome. Chegámos mesmo a ter a honra da sua presença em alguns concertos, em Arouca. Hoje, aos 75 anos, uma das referências da direcção de orquestra em Portugal desaparece. Foi, curiosamente, o primeiro maestro que vi à frente de uma orquestra sinfónica, e, do ponto de vista de muitos músicos de referência, foi um dos principais responsáveis pela divulgação da ópera no Porto. Aliás, Manuel Ivo Cruz chegou mesmo a ser director do Teatro São Carlos, bem como do Círculo Portuense de Ópera e da Ópera de Câmara do Real Teatro de Queluz. Trata-se, portanto, de uma figura de enorme relevo no panorama cultural nacional, que deixa a sua marca no domínio musical, especialmente no Porto, onde, agora, a Casa da Música se assume como referência, em boa parte devido ao trabalho desenvolvido por Manuel Ivo Cruz à frente da Orquestra Clássica do Porto.

26 de Dezembro de 2010 – Concerto de Natal

Hoje foi dia de Concerto de Natal. Grupo Coral de Urrô, Orfeão de Arouca e Banda Musical juntaram-se, para proporcionarem aos arouquenses um concerto que já vem sendo tradição no nosso calendário cultural. No total, estamos a falar da mobilização de cerca de 140 pessoas, que vão fazendo cultura nas suas associações sem esperar nada em troca que não os aplausos. Termina, desta forma, um ano de intenso trabalho destas três associações, que dignificam o nome de Arouca por onde passam.

23 de Dezembro de 2010 – Uma «mentirita» no sapatinho

Os cubanos chamam, carinhosamente, «Mentirita» à bebida «Cuba Libre». Ou seja, não deixam de chamar «Cuba Libre» à mistura do rum com a «Coca-Cola», mas sabem que, no fundo, etimologicamente, estão a dizer uma «mentirita». Então, nos dias que correm fugazmente para o Natal, podemos considerar que a prenda que o Governo colocou hoje no sapatinho dos arouquenses é uma «mentirita». O ministro António Mendonça, apressadamente, entre os compromissos que teria antes de «rumar ao Natal», terá confirmado que vai (voltar a) criar uma comissão (que ele próprio dissolveu há pouco tempo) para avaliar a possibilidade de integrar a via estruturante no «bolo» da A32, com o presidente da Câmara de Arouca como «observador». Se isto não é uma mão cheia de nada, é cheia de muito pouco. É como se o Pai Natal tivesse empurrado o trenó ligeiramente para a frente com a barriga. Para só encontrar as cartas com os pedidos mais tarde.