A maçã é o símbolo do pecado original, a metáfora do fruto proibido. Steve Jobs foi mais longe, e escolheu-a, ainda por cima já com uma dentada, para símbolo da Macintosh. Os belíssimos (e relativamente caros) computadores da Apple são, para muitos, símbolo de «status». Podem até ser, mas que funcionam melhor, funcionam. Converti-me, muito recentemente, a esta espécie de pecado original. Agora, consigo ouvir perfeitamente as partituras que escrevo, sem ruídos nem falhas de memória. Consigo editar vídeos sem que os programas emitam mensagens de erro. Consigo trabalhar com som, sem dificuldades inexplicáveis. Tudo parece funcionar melhor, embora tenha de funcionar da única maneira que o computador permite que funcione. Há condicionantes próprias do pecado. Assim seja.
26 de Julho de 2012 – Campeões do desenrasque
Por muitas voltas que se dê, não conseguimos fugir a algo que é tão nosso como nós próprios. A imensa capacidade de trabalhar para o desenrasque. Somos um dos países mais antigos do mundo, que nós próprios descobrimos, temos todos estes séculos de «know-how», aprendemos depressa e adaptamo-nos aos ambientes mais adversos, como o prova a nossa emigração. Mas continuamos a fazer as coisas em cima dos prazos, continuamos a lembrar-nos do que precisamos em cima da hora e, com isso, aumentamos a nossa quota (já elevada) de stress. Incrivelmente, lá vamos conseguindo fazer as coisas com um mínimo de qualidade, sobrevivendo, mantendo-nos à tona. Vamos desenrascando.
25 de Julho de 2012 – É urgente fazer algo pela música sacra
Toda a música é sagrada, dirão alguns. Outros nem tanto. Mas o debate não é bem esse. Até porque há momentos, tempos, espaços para cada coisa. A música religiosa vive da boa vontade e do talento que alguns (poucos e cada vez menos) dispensam, sem qualquer contrapartida. Se há bons exemplos, também há maus. O famoso vídeo «Senhor, Senhor, Vós tendes palaaaaaaa… está muito alto» é suficiente para não fazermos mais comentários. Há quem diga que a solução passa por profissionalizar o sector, o que parece complicado, porque não só torna as coisas pouco vividas, como também as pode tornar demasiado caras. Contudo, para as pessoas se dedicarem mais à música religiosa, têm de se dedicar menos a outras coisas. De uma forma, de outra, ou das duas, algo precisa de ser feito.
24 de Julho de 2012 – Que se lixe. Tudo.
Que se lixe se há um Ministro que é licenciado sem o ser. Que se lixe o facto de estarmos com a corda na garganta das finanças de um continente de países. Que se lixe, ainda, o facto de vivermos numa casa sem pão, e, como tal, não adianta ralharmos todos ao mesmo tempo. Que nos lixemos todos nós, por ainda não termos aprendido que, escolhamos quem escolhamos, vamos estar sempre mal, porque os que escolhemos são dos piores que somos. Que se lixem as eleições, de facto. Todas as eleições. E, já agora, que se lixem os políticos e a sua imensa lata para faltarem à palavra que dão às pessoas que neles confiam.
23 de Julho de 2012 – A diferença entre viver e ganhar a vida
Diz quem sabe e tem pensado sobre o assunto que o problema essencial da Educação, sobretudo ao nível superior, reside, precisamente, no facto de nos preparar para ganhar a vida, em vez de viver. Andamos todos essencialmente preocupados com ganhar a vida, e não com viver. É pena. Porque, fruto disso, muito nos passa ao lado, e muito deixamos por fazer, ou temos de fazer, necessariamente, mal. Não vivemos, nem tão pouco ganhamos (a) vida. Agostinho da Silva insistia que não seríamos verdadeiramente homens (e mulheres) enquanto não conseguíssemos sê-lo de forma plenamente livre, sem qualquer obstáculo a que possamos crescer, sem preocupações com as formas de troca com base no sistema monetário. Dizia, inclusive, que iríamos percorrer um caminho contrário ao do sistema monetário/capitalista, regressando à troca directa e ao sermos homens “terra a terra”. Será que tinha razão?
22 de Julho de 2012 – Religião para ateus
Há quem lhes chame livros de auto-ajuda eruditos. Serão, ou talvez não. A sugestão veio pelas ondas da Rádio, e pela voz de Carlos Vaz Marques, num dos “Livros do Dia”. É uma espécie de explicação sobre como a religião não é vã, seja ela qual for. Há fundamentos sociais, artísticos, até pagãos, que a justificam. E há a comunidade em que, apesar de seres individuais, estamos inseridos a toda a hora, seja na família, no trabalho, no lazer ou apenas estando na rua. Alain de Botton, o autor, é ateu confesso, reflecte sobre como podemos aproveitar o que as religiões sabem sobre o comportamento humano, seja qual fé que professam (inclusive nenhuma). De como há um pouco desta dinâmica em tudo o que faz parte do nosso dia-a-dia. Mesmo sem darmos conta.“O cristianismo foi grande adepto da apropriação de boas ideias dos outros, subsumindo agressivamente inúmeras práticas pagãs que os ateus modernos tendem agora a evitar, com base na convicção errada de que elas são indelevelmente cristãs”.
(Alain de Botton)
21 de Julho de 2012 – Tempo da Música, Música do Tempo
Eduardo Lourenço foi acumulando vários manuscritos sobre música, sobre o que a música lhe foi despertando. Quem está por dentro dos meandros da estrutura que dá corpo aos sons, talvez nem sempre consiga aperceber-se do todo, porque está dentro, e não consegue, simultaneamente, ter a experiência de quem está de fora. Eduardo Lourenço tem, além deste, outro condão. O de, sendo «leigo» musical, não ser, de todo, absolutamente, leigo com as palavras, com o pensamento e com a forma como o pensamento se traduz em palavras. «Tempo da Música, Música do Tempo» lê-se à velocidade de um diário. Intimista. Feito de impressões. E de música, que pode, facilmente, ser reproduzida na nossa mente, à medida que se seguem as palavras. É, em última análise, diz o autor, manifestação de Deus. Eu acredito que sim.
«O que eu sou como ser mortal (o que todos somos), está contido na melancolia absoluta do allegretto da Sétima Sinfonia. Mas o que desejaria ser, o que não tenho coragem de ser, só se revela nesta Suite em Si Menor, de Bach. Diante desta torrente luminosa devia depor a minha velha pele, esta pele de que só a música me despe num instante, deixando-me nu e redimido, mas que no instante seguinte afogo em trevas. Delas só um Deus me poderia libertar. Digo Deus sabendo bem que esse absoluto que me atrevo a invocar é ainda o supremo álibi. É de mim, das ardentes seduções do meu profundo ser, que não quero ou de que não sou capaz de abdicar. Queria ir por um caminho de rosas para aquele sítio onde sei que me foi fixado encontro. E ninguém lá chega nunca sem antes morrer para si mesmo.»
(Eduardo Lourenço)
17 a 20 de Julho de 2012 – Praeparatio Abulensis
http://www.youtube.com/watch?v=QiQIg2-pqYo&feature=player_embedded
Abulensis é o título de um festival internacional de música antiga, que vai decorrer na cidade espanhola de Ávila, de 21 a 27 de Agosto, assinalando, assim, os 400 anos da morte de Tomás Luís de Victoria, uma referência para quem aprecia a verdadeira polifonia. O nosso “Vocal Ensemble” foi convidado para fazer o concerto de abertura, a 22 de Agosto, num cenário fabuloso, com um programa rico em obras absolutamente fantásticas, em que, por via da música, mostramos a herança que Victoria deixou em Portugal. Aliás, é quase ridículo que tenham de ser, em grande parte, os estrangeiros a gravarem a nossa melhor música (precisamente a música antiga), considerando-a a referência internacional da época. Porque Portugal foi quase todo o mundo. E isso está, estará, porque ficou para sempre, nesta música, que agora nos preparamos para levar a “nuestros hermanos”. Por estes dias, a preparação segue no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, em Aveiro.
16 de Julho de 2012 – (Des)interregno
Há dias assim. Que nos derrotam. Que nos fazem vencer. Que passam. Que custam a passar. Em que conseguimos fazer tudo o que queremos. Em que não conseguimos fazer nada do que estava planeado. E, depois, há dias em que verificamos que de todas as coisas que julgávamos mais importantes, a mais importante é, de facto, estarmos vivos e de saúde. Com isto, o tempo foi passando, e nem sempre chegou para passar aqui. Aconteceu e “desaconteceu” muita coisa, mas isso agora não importa. O tempo passou. Um mês. Foi um interregno. Agora “desinterregnado”. Estamos de volta. Até amanhã.
16 de Junho de 2012 – A terminar a música para o Festival «Art&Cult»
Está em fase de retoques finais o processo de composição de alguns arranjos para o Festival «Art&Cult», que vai decorrer no final de Julho, na Figueira da Foz. As coisas da música fizeram com que o meu amigo José Lourenço servisse de ponte com o maestro Cristiano Silva (entretanto, também meu amigo), e a coisa foi-se construindo. A temática do festival será a música dos anos 70, 80 e 90, com arranjos meus para temas dos «Kiss», Jim Diamond, Mark Knopfler e Brian May. E uma oferta especial, o arranjo que sempre quis fazer, para orquestra sinfónica, e que, agora, pude concretizar: o final de «Jesus Christ Superstar». O concerto de gala do Festival será no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, no próximo dia 28 de Julho, às 21:30. Faltam só uns retoques finais. À medida que cresce a curiosidade de ver surgir da orquestra a música que, ainda há pouco, estava apenas dentro da minha cabeça.
[audio:http://aminhaagenda.aroucaonline.com/wp-content/uploads/2012/06/JCS.mp3]John 19:41 (Jesus Christ Superstar) | A.L. Webber (Arr. Ivo Brandão)