O concerto de Jaques Morelenbaum, Bill Frisell e Vinícius Cantuária marcou o arranque da programação dedicada ao Brasil, na Casa da Música. A sala cheia acolheu calorosamente os músicos, que arrancaram com timidez. O «Cello Samba Trio», composto por Morelenbaum (violoncelo), Ricardo Silveira (guitarra) e Robertinho Silva (percussão) prosseguiu numa toada que sugeria uma «reinvenção clássica» do imenso potencial da música brasileira. Samba, Jazz e improvisação mostraram que, de facto, o Brasil, mais do que favela, assalto e violência, também é música.
Vinícius Cantuária, discreto, com a sua guitarra servindo de base harmónica, surpreendeu com a sua voz melodiosa, aveludando temas como «Esse seu olhar» ou «Só danço Samba». Robertinho Silva demonstrou que com coisas simples se pode quase «inventar» uma secção de percussão. Ricardo Silveira é um excelente guitarrista. O nylon das suas cordas fez lembrar, em alguns momentos, a dupla Pat Metheny/Charlie Haden, com passagens sublimes. Não será a toa que Frisell o orientou nos Estados Unidos, contando no seu currículo com colaborações com grandes músicos. Bill Frisell, o «revolucionário» da guitarra eléctrica, não se alongou em «performances», mas foi surgindo, sempre que a música o sugeria ou reclamava a sua presença. O seu som é inconfundível, e a forma como aborda os temas faz-nos saber, de olh
os fechados, que é ele quem está por trás daquela guitarra. Morelenbaum dispensa apresentações e elogios. A presença de um instrumento como o violoncelo numa formação deste tipo não seria, à primeira vista, «normal». Mas «Jaquinho» provou que há lugar, porque o músico o preenche.
Este concerto mostrou-me um Brasil cosmopolita, alegre, moderno, capaz de reinventar as suas raizes depois de bem fertilizadas e estudadas. Mostrou-me um Brasil que não tem vergonha de si, que se supera, que contagia toda a gente com o seu sorriso fácil, o seu português açucarado e a sua voz suave. Um Brasil que a Casa da Música vai, por certo, dar a conhecer melhor, demonstrando que, se calhar, temos bastantes coisas para aprender.

Em viagem para Arouca, surge nas ondas da rádio a voz familiar do meu querido amigo Rui Tukayana, conduzindo o seu «Mundo Digital», na TSF. Como ouvinte inveterado da TSF, e mais ou menos assíduo do «Mundo Digital» do Tuka, fiquei imediatamente preso às primeiras palavras. Uma associação nacional resolveu descomplicar um dos «frutos» do «Simplex»: o «BASE», um portal governamental onde se publicam todos os ajustes directos das 12 mil instituições da administração pública portuguesa.
O título é tão grande quanto o tamanho da minha indignação. Ontem, quando chegava de uma manhã pelas escolas, a M. anunciava-me que iam despedir cerca de 30 pessoas no «Jornal de Notícias». Na altura, estava longe de perceber o verdadeiro alcance do que me estava a surgir na janela do monitor. A «Controlinveste», propriedade de Joaquim Oliveira e detentora de títulos como o «Jornal de Notícias», o «Diário de Notícias», o «24 Horas» e «O Jogo», para além da «TSF – Rádio Notícias», e da «Sport TV», foi bastante mais longe que isso. Estamos a falar de um total de 122 trabalhadores, dos quais mais de 50 são jornalistas. O motivo é o que estamos fartos de ouvir: a crise.

Uma jornalista do «The Independent» colocou ontem a hipótese de o compositor Felix Mendelssohn ter morrido de amor. A notícia é curiosa pelo facto de, recentemente, terem surgido notícias de que seria possível, talvez em breve, juntarmos os componentes químicos certos para chegarmos ao «Elixir do Amor». Certamente que Donizetti ficaria satisfeito com a notícia, mas isso será outra história. O que parece que é facto, é que Mendelssohn pode mesmo ter morrido de amor.
Daniel Barenboim é um famoso pianista e maestro, conhecido por vários motivos, nomeadamente por ser um enorme músico. Mas não só. Barenboim nasceu na Argentina, é judeu, e foi a primeira pessoa que teve direito a passaporte israelita e palestiniano. Como tudo o que vem daquela região, trata-se de um «cocktail explosivo».
A este projecto, Barenboim deu o nome de «Eastern-Western Divan Orchestra». Confesso que não pesquisei a fundo o porquê do nome ou os eventuais segundos sentidos. Fiquei-me apenas por uma conclusão muito pessoal. De facto, o conflito israelo-árabe é algo que ultrapassa largamente a minha capacidade de compreensão. Há sempre qualquer coisa que não está bem, e que acaba por motivar mais bombas, mais gente morta, mais instabilidade internacional. Enfim, complicações, coisas parecidas com «neurotiquices» com força suficiente para nos levarem ao divã do psiquiatra.
