Cavaco Silva terá sido a personalidade política que, no seu tempo de Primeiro-Ministro, melhor encarnou a personagem do tecnocrata. O «divórcio» entre a técnica/tecnologia e a política acontece ou «desacontece» ao sabor das conjunturas e dos ciclos políticos, das tendências de voto, das vontades das massas. Terá começado nessa altura o eterno debate sobre se um bom técnico é um bom político, e se a sua técnica (e, agora na moda, a tecnologia) pode/deve/consegue estar ao serviço de uma boa política. O debate coloca-se, agora cada vez mais, a nível local. Se uma terra precisa de obra, então é lícito que as massas votem num engenheiro. Se uma terra precisa de reequilibrar as suas contas, é lícito que prefiram um economista. Não será cem porcento assim, mas, como nas sondagens e nas eternas conversas/debates de café, sabemos que estes argumentos são esgrimidos.
Nesta altura, o que acontece é outro fenómeno, paralelo a este. Mais do que a eventual tecnocracia, estamos a viver um fenómeno interessante de incremento da participação da dita «sociedade civil» no processo político/eleitoral, chegando, em muitos casos (e Arouca foi exemplo disso, há quatro anos, com a eleição de dois vereadores do movimento independente de cidadãos), a obter assinalável representatividade. A nível nacional, o exemplo de Manuel Alegre é, neste aspecto, paradigmático. É, assim, justo que se ajuste a questão: à semelhança do que se coloca acerca de um bom técnico poder ser um bom político, sobre se um bom político pode ser um bom autarca.
Ser-se autarca, hoje, é mais do que ser-se político. Muito mais. Mesmo que se tente contrariar, cada vez mais a tendência é para que o que é considerado um bom autarca regresse um pouco ao modelo dos primeiros autarcas do pós-25 de Abril (e alguns mesmo do período anterior, como em Arouca tivemos exemplos). Não são poucas as histórias que ouvimos de como, no período imediatamente após as primeiras eleições livres, os autarcas estavam no terreno, a receber ofertas de material e mão-de-obra das populações, e a com elas trabalharem na construção de equipamentos e infra-estruturas. Houve Presidentes e Vereadores que, mais do que envergarem fatos ou viajarem de automóvel, fizeram da pá, da enxada, da picareta, da «colher» do cimento, da sua força de braços em obra a sua principal «arma» política. Hoje, as populações não estão altamente interessadas em debates ideológicos ou políticos sobre temas intelectuais, ou sobre tricas internas, ou sobre questões políticas. Estão, sim, interessadas em encontrar em quem possam confiar o seu futuro.
Por esta altura, e nas próximas horas, e nos próximos dias, as «campanhas» saem à rua. Enquanto cidadão, aquilo que me parece que o povo a que pertenço quer é um período em que impere a seriedade e a elevação, porque se há algo que todos temos em comum é o facto de termos um orgulho muito próprio de sermos arouquenses, e o nosso futuro é muito maior, muito mais importante do que qualquer luta política por si só. Somos herdeiros de um passado nobre, soubemos construir esta Arouca que, com os defeitos que possa ter, duvido que não nos orgulhe. Chegará, portanto, a hora de escolhermos autarcas e não políticos. Sob pena de, depois, não termos aquilo de que, efectivamente, precisamos.
A vantagem (ou, às vezes, desvantagem) de se viver em Arouca é o facto de estarmos permanentemente «abraçados» pela montanha. Como o abraço materno, de quando em vez sentimos necessidade de nos libertarmos e de vermos e sentirmos um pouco de mundo. O fim do dia de hoje foi assim. Feito de um interessante regresso a Espinho, para uma noite de músicas improváveis. Da viagem, para além do passeio pela rua, da ida fugaz ao Casino e do jantar entre companheiros de Arouca, fica a recordação de um grande concerto, em que a Orquestra Clássica de Espinho e o seu maestro, Pedro Neves, conseguiram colocar, lado a lado, dois génios bastante diferentes: Beethoven e Joly Braga-Santos. A pianista georgiana Elisso Virsaladze ajudou (e muito) a este brilho, com a sua interpretação do Concerto para Piano e Orquestra de Ludwig Van Beethoven, após uma interpretação intensa da abertura «Egmont», do mesmo compositor. A segunda parte trouxe a Sinfonia n.º 3 de Joly Braga-Santos, com a intensidade sonora e melodias belíssimas que reconhecemos serem características do compositor português que mais se destacou no âmbito da Sinfonia e que tantas vezes é esquecido. Depois de tudo isto, e da breve apresentação (em filme) do que esteve em cartaz, ficou alguma nostalgia pelo facto de não ter podido acompanhar o Festival Internacional de Música de Espinho como este merecia. Ah, e parabéns à «malta» de Arouca, que continua a dignificar a sua terra e a Banda Musical onde vão praticando a sua música, estando, cada vez mais, em alguns palcos importantes, sendo este (de Espinho) um dos mais frequentados.
Mesmo sem saber muito bem o que quer significar, sinto que chegámos à chamada «Silly Season». É Verão. Não apetece fazer nada, e, de facto, vão acontecendo coisas loucas («silly»). Vem aí a campanha eleitoral contínua, que nos vai fazer misturar a Feira das Colheitas com candidatos a Deputados, Primeiros-Ministros a prometer outros mundos, Presidentes de Junta, da Câmara, enfim, uma vasta panóplia de soluções, quase todas formatadas e prontas a usar, como num Pronto-a-Vestir. Fantástico. De repente, tenho saudades de Odorico Paraguassú…
As palavras de Francisco Louçã, ontem ficaram, uma a uma, a martelar-me no ouvido, mesmo depois de mentidos e desmentidos, de trocas de acusações, verdades e mentiras. O tom com que se referiu ao pretenso convite de José Sócrates para que a «bloquista» Joana Amaral Dias integrasse as listas do PS a troco, em último recurso, de favorecimentos pessoais, é grave. Tão grave quanto a declaração em si. Com palavras aparentemente ponderadas, que, ouvidas, soam a um texto previamente escrito, Louçã dispara-as como balas, com um alvo definido. O vídeo está no «








Macedo de Cavaleiros está apostada em tornar-se numa verdadeira galeria de arte ao ar livre. A iniciativa chama-se «Arte ao Vento» e resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal e a sua congénere de Gata, em Espanha, e procura dinamizar o espaço público, seguindo a tradição mediterrânica de colocar colchas nas varandas em dias festivos. Como se não bastasse o arrojo desta ideia, a «cereja no topo do bolo» da iniciativa é uma Gala de Ópera, que leva a Macedo de Cavaleiros a Orquestra do Norte e alguns dos mais sonantes nomes do canto lírico nacional. Macedo de Cavaleiros é um município que tem o dobro da área territorial de Arouca (tem, no total, 38 freguesias) e pouco mais de 17 500 habitantes, perto da fronteira (nordeste) com Espanha. Seja qual for o sucesso da iniciativa, assume-se como uma lição para municípios do interior que queiram dizer aos eleitores que investem em cultura. E os eleitores, votem ou não votem, agradecem, porque, pelo menos, vão para casa mais ricos.