Há 40 anos, dificilmente se poderia prever a explosão que, entretanto, a Internet acabou por causar. O primeiro «e-mail», ou tentativa de, tinha como objectivo enviar a palavra «LOGIN», mas acabou por apenas transmitir «LO», porque o sistema «crahou». A tecnologia foi evoluindo, e algum tempo depois começou a utilizar-se o símbolo «@» para juntar o nome do remetente e o servidor utilizado. Em 1976, a Rainha de Inglaterra envia o seu primeiro «e-mail», e, dois anos depois, surge a primeira mensagem de «spam», que hoje representa 70% das mensagens electrónicas. Entretanto surgiram os vídeos, a pirataria, o «Google», os «blogs», o «Twitter», a Internet no telemóvel, e, recentemente, o «Google Wave», que pretende agregar todas as ferramentas de comunicação pessoal numa só. O tempo não pára…
28 de Outubro de 2009 – Moçambique, imaginário
Nunca estive em Moçambique, e, no entanto, é como se sentisse uma afinidade forte, que nenhum outro país me desperta. Com o passar do tempo, vamos construindo, no nosso imaginário, uma espécie de realidade, com os fragmentos que nos vão dando. Uma peça aqui, outra ali, como num «puzzle», as imagens vão surgindo, e as fotografias, os textos, as viagens de outros vão compondo o resto.
Hoje, Moçambique elege o Parlamento, as Assembleias de Província e o novo Presidente de República. O tempo eleitoral é uma espécie de Natal da vida política e pública. É o tempo do balanço e da projecção dos desejos, em que todos parecem estar empenhados em dar o melhor de si para se atingir o melhor dos futuros.
Tal como no meu imaginário, espero, esperamos todos, que Moçambique continue a construir, a construir-se, a reconstruir-se, feito desse apego àquela terra, àquela gente, feito dos sonhos, de paz e prosperidade, de combate à pobreza e à corrupção, porque, sabemo-lo, ali o futuro é imenso.
27 de Outubro de 2009 – Novas noções de tempo e «stress»
Em entrevista a uma publicação brasileira sobre «Marketing», o CEO da «Google» lançou um olhar geral sobre o futuro, pensando em algumas mudanças a que vamos estar sujeitos, «pelo andar da carruagem». Para além de prever a diminuição do tamanh0 dos «gadgets» de comunicação, proporcional ao aumento das potencialidades e funcionalidades dos mesmos, colocou o «dedo na ferida» ao falar da questão do tempo. «Time is what you do with it», era a frase de um anúncio publicitário de qualquer coisa, há tempos atrás. E é verdade. Só que, cada vez mais, o tempo é mais e mais curto. Não temos tempo para esperar. Não temos tempo para participar em tudo o que queremos. Não temos tempo para fazermos o que gostamos. Não temos tempo para ir onde sonhamos. Não temos tempo para descansar. Não temos tempo para estar com a família como deve ser. Não temos tempo para pensar. E, diz Eric Schmidt, a interligação crescente entre nós, o ritmo das mudanças, o «stress» vão aumentar. E isto é tão assustador quanto pensarmos que está uma nova geração a crescer a este ritmo. Sem tempo para escutar o silêncio e respirar o ar puro das montanhas, apreciar o pasto das cabras, olhar o correr dos rios, abraçar o tronco das árvores…
«A parte difícil da mensagem é que tudo acontecerá mais rapidamente – cada ciclo de produto, cada ciclo de informação, cada bolha –, devido aos efeitos de rede, uma vez que todos estarão ligados e a conversar entre si. Os que já estão cansados do ritmo das mudanças ficarão ainda mais ‘stressados’, mas uma nova geração está a crescer tendo isso como a cadência normal de sua vida».
(Eric Schmidt, CEO da «Google»)
26 de Outubro de 2009 – As palavras dos discursos de Cavaco e Sócrates
O «Jornal de Notícias» fez um interessante exercício, que vale o que vale, mas que não deixa de ser curioso. Com base nos discursos do Presidente da República e do Primeiro-Ministro (re)empossado, fez publicar uma «nuvem de palavras», que nos permite saber quais os termos mais sublinhados por cada um deles. Como já sabíamos, a referência ao diálogo foi unânime. Aliás, os «Gato Fedorento» já se tinham apercebido disso, contabilizando as utilizações recorrentes que José Sócrates fez deste vocábulo. Na contabilidade geral, «todos», «país» e «governo» foram os termos mais utilizados por ambos. Os «mapas» dos termos usados são os seguintes (imagens do JN).

Discurso de Cavaco Silva

Discurso de José Sócrates
25 de Outubro de 2009 – O «golpe publicitário» de Saramago
Propositada ou não, a «descarga» de Saramago contra a Igreja Católica teve, como se previa, a principal consequência de colocar toda a gente a falar do autor e do livro em causa. É certo que, quando manifestamos uma ideia, a manifestamos do ponto de vista em que olhamos para «a coisa», e fundamentamos, e selamos isso com a nossa visão. Mas fazer disso uma visão universal, ou pretendê-lo, é, talvez, exagerado. Como defensor da liberdade que, julgamos, será, deveria, pelo menos, dar o benefício da dúvida aos que se dizem crentes, dando espaço às suas perspectivas, e não os reduzir a uma espécie de «bando de alienados». Sabemos bem que a Bíblia não é um manual de instruções a ser lido à letra. Se o fosse, estaríamos, muito provavelmente, a aproximar-nos de um fundamentalismo semelhante ao islâmico, que, esse sim, se baseia em leituras literais do Alcorão. No mundo cristão sabemos bem que nem tudo é assim. A conclusão que muitos comentadores acabaram por retirar foi a de que isto não seria mais do que uma provocação, um «golpe publicitário». A ser assim, resultou. A partir de hoje, também há um exemplar na estante de casa.
24 de Outubro de 2009 – «Sansão e Dalila», em Portimão
«Sansão e Dalila» é uma ópera romântica por natureza. Não tanto pela altura em que foi escrita, mas mais pela temática, e, sobretudo, pela forma como a música se coloca ao serviço da palavra e da temática do amor, da traição, da superação. Praticamente toda a ópera contém melodias lindíssimas, que nos inundam, no bom sentido, o ouvido e nos despertam os restantes sentidos. As duas semanas de trabalho com a Orquestra do Norte por terras algarvias não poderiam ter terminado de melhor forma. Durante este tempo fui, verdadeiramente, um privilegiado, por ter podido contribuir, modestamente, para que se pudesse fazer esta música.
Escrita em três actos por Camille Saint-Säens, com libreto de Ferdinand Lemaire, estreou em 1877. Inspirada no tema bíblico, a grande obra operática do compositor francês passa-se em Gaza, na era pré-cristã, e relata o sofrimento do povo hebreu, sob o jugo dos filisteus. Liderados por Sansão, conseguem a liberdade, que é, afinal, de curta duração. Dalila, antiga amante de Sansão, descobre o poder da sua força, e acaba por capturá-lo, para gáudio do povo filisteu. Sozinho e humilhado perante os cúmplices de Dalila, Sansão pede perdão ao seu Deus, e uma última réstia de força. Atendido nas suas preces, acaba por destruir todos quantos foliavam no templo às custas da sua dorr. É a história de um homem com uma força física única, que foi fraco demais perante a força esmagadora do amor.
19 a 23 de Outubro de 2009 – Segunda semana de trabalho
Começamos hoje a segunda semana de trabalho por terras algarvias, com o trabalho sobre a ópera «Sansão e Dalila», de Camille Saint-Säens. Pelo que já pudemos «ouver», é uma obra lindíssima, com excertos memoráveis. Se tudo correr como previsto, será um trabalho para ficarmos com boas memórias. Está de parabéns a Orquestra do Norte, pela dinâmica, e a Câmara Municipal de Portimão, pela iniciativa, que, aliás, pode conhecer melhor aqui. Pelo meio, teremos ainda tempo para, no dia 20, fazermos algum trabalho pedagógico com as escolas locais, com a adaptação da ópera «O Barbeiro de Sevilha», de Rossini, para os mais pequenos, num espectáculo chamado «O Super-Barbeiro». Sabe bem trabalhar assim, em prol da divulgação da boa música.
17 e 18 de Outubro de 2009 – Talvez o primeiro fim-de-semana «a sério»…
Este é, talvez, o primeiro fim-de-semana «a sério» que tenho, nos últimos tempos. Com a praia ao lado, sorte que já não tinha há anos, estes dois dias estão reservados para não fazer rigorosamente nada. Ou melhor, fazer só o que «vier à rede». Algumas leituras, jornais, avançar no fabuloso livro de Daniel Baremboim, «Está tudo ligado», sobre o poder, a «orgânica funcional» e alguma filosofia, se assim podemos dizer, da música. Mas, de uma forma geral, o fim-de-semana é dedicado a fazer só o que surgir nos apetites. Bom fim-de-semana…
16 de Outubro de 2009 – «Otello» em Portimão

O dia de hoje é dedicado a interpretação de «Otello», uma das obras-primas da ópera «verdiana». O seu estilo é bem reconhecível, com recurso aos metais intensos e a belos coros, bem como algumas passagens dialogadas com um ritmo muito próprio. Ao som da Orquestra do Norte, o público de Portimão volta a ouvir ópera, num festival que nos tem demonstrado uma dinâmica muito interessante. É bom estar por aqui, a fazer esta música. Fica um «cheirinho», com a ária do «Ave Maria», da personagem Desdémona.
«Otello» foi escrita por Giuseppe Verdi em 1887, com libreto de Arrigo Boito. Baseada na obra homónima do dramaturgo inglês William Shakespeare, tem como cenário a ilha de Chipre, nos finais do século XV. Uma das últimas óperas de Verdi conta a história de Otello, general mouro ao serviço da República de Veneza. Iago, seu segundo tenente, odiava-o, e não perdoava o facto de não o ter promovido a um cargo que acreditava ser seu por direito. Tamanha era a inveja, que urdiu um plano desmedido para destruir Otello. Através de uma série de intrigas, Iago levou o mouro a acreditar que Desdémona, sua mulher, o traía com o seu melhor amigo. Louco de dor e ciúmes, Otello mata-a, morrendo depois a seus pés, suspirando por um beijo seu.
Verdi, Otello Act IV- 18 Ave Maria, piena di grazia (Desdemona)
10 a 15 de Outubro de 2009 – Primeira semana de trabalho
A Câmara Municipal de Portimão, com a colaboração da Orquestra do Norte, está a promover um Festival de Ópera, que não só aquece (ainda mais) as noites algarvias, mas também, e sobretudo, leva à cena alguns dos títulos mais importantes desta arte. «Otello», de Verdi, e «Sansão e Dalila», de Saint-Säens, são as duas obras em que tenho o privilégio de participar, estando a primera delas em preparação. A récita tem lugar no próximo dia 16 de Outubro, no Auditório Municipal de Portimão, sob a direcção do maestro mexicano Felix Carrasco. Por estes dias, é por aqui que vou andar.