Em 1984, a série «Yes, Prime Minister» venceu um prémio no Reino Unido (o National Viewers and Listeners Award), e algo, só possível num país com um sentido muito refinado, aconteceu. A própria Primeira-Ministra Margaret Thatcher fez questão de escrever um «scketch» humorístico, com a ajuda do seu assessor de imprensa, Bernard Ingham, em que fez também questão de participar. Com o típico humor britânico, Thatcher disse estar a desenvolver uma ideia profunda: reformular as instituições, tal como as conhecemos. Especialmente a economia. «It’s all very simple. I want you to abolish economists». Tem o seu quê de actual, não?

{ 0 comentários }

el-sistemaO «The Guardian» publicou, em Novembro do ano passado, um artigo que dá que pensar. Correm rumores, e, em alguns casos, informações concretas, de que o projecto «El Sistema», que está a ser exportado da Venezuela para todo o mundo como uma forma inclusiva de fazer música (sobretudo junto dos mais desfavorecidos, dando-lhes um horizonte de vida), tem o seu quê de tirânico. Há histórias de metodologias menos inclusivas e mais capitalistas, alegados abusos de menores, má gestão, etc. As contas ficam baralhadas quando uma realidade que tínhamos como adquirida, que funcionava, que parecia ser um rio de esperança no meio de uma lixeira, parece, afinal, estar contaminada com os factores que a rodeiam. A interrogação, pelo menos, fica.

{ 0 comentários }

ciclo-cinemaEste é o cartaz do evento que me pôs ao piano outra vez. Nunca me considerei pianista, porque não o sou. Uso o piano para fazer música, o que é um pouco diferente de ser pianista. O desafio é tocar para preencher as imagens de alguns dos primeiros filmes da história do cinema (alguns deles, portugueses), com as «Mulheres da Beira» a terminar. A forma de encarar a coisa é exactamente a mesma com que os pianistas (esses sim, verdadeiros) a encaravam: tocar da forma mais improvisada possível, deixando que as imagens conduzissem a música. Vai ser assim, também, desta vez. Sem grandes preparações, mas com alguma coragem. A coragem de chegar ao piano com uma folha em branco, pronta a ser escrita uma única vez, ao sabor das imagens que forem correndo. Assim, como que num sopro.

{ 0 comentários }

jardimDos quadros sonoros que Federico Mompou pintou, nas suas «Scènes d’enfants», o olhar e o ouvido detêm-se no último. «Jeunes filles au jardin». Como se estivessem, de facto, as duas a passear pelo jardim. A falar de tudo e de nada. Dos amores e desamores. A rivalizarem com o brilho do sol e com as cores das flores. Talvez tenham trajes antigos e uma sombrinha cada uma. Ou talvez não. Talvez saibam que as vejo, ou talvez não tenham dado conta. Elas apenas estão. As duas. «Jeunes filles». «Au jardin». E eu, preso no meu sonho, não consigo roubar aquela para mim. Aquela, do sorriso mais luminoso, do olhar mais furtivo. Não consigo. Porque, no fundo, estou preso às cordas do piano. Esse, de onde ainda não consigo fazer sair os sons que a trazem até aqui.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Federico Mompou: Scènes d’enfants – V. Jeunes filles au jardin
(Arcadi Volodos, piano)

{ 0 comentários }

undertakerO homem estacou diante da porta, como se ganhasse ali raízes. Não falava. Limitou-se a estar ali. Hirto. Cinzento, como o fato que trazia. Engomado, todo ele. Não trazia consigo qualquer expressão. Era como se estar ali fosse explicação suficiente. Os ombros ligeiramente encolhidos, estendiam-se até à pasta que pendia do braço direito, esticado. Procurava, com todo o cuidado, dignificar a profissão. Era, no fundo, cobrador de impostos. Não daqueles traidores bíblicos, nem tão pouco dado a corrupções. Procurava ser impoluto. Sem mácula. Como a cor da pele que o cobria. Era enfezado, com aspecto de picuinhas. ‘A man has got to do what a man has got to do’. Falava pouco, sempre num tom anasalado e irritante, de quem apenas atenta ao pormenor. Fazia as contas de cabeça num ápice, e entregava os dinheiros ciosamente. Toda a sua vida era cinzenta, de um cinzento contagiante. Quase como uma nuvem, desejosa de se estender mais e mais, até cobrir outros, e descarregar em trovoadas de esbandalhar vidas. Ossos do ofício, tinha sido mandado a casa do rei. Afinal estava vivo, e era preciso fazê-lo sentir a obrigação de contribuir para os cofres da cúpula. Ninguém está acima da lei dos cobradores de impostos, pensava ele. Não estava para grandes conversas. Levava o recado escrito, até porque o inglês não era o seu forte, e não estava com grandes disposições para viagens no tempo. Tocou à campainha e esperou a vinda da próxima vítima. Arrastado. Volumoso. Quase como se fosse um amontoado de restos humanos. Enquanto vinha em direcção à porta, o cobrador tirou o papel liso, sem rugas nem dobras, e estendeu-lho. “Senhor Elvis. Estou farto das suas baladas melosas. Preferia vê-lo e ouvi-lo quando ainda era galã. Dentro dos seus ‘blue sweat shoes’. Agora, você é pesadão. O seu penteado ondeado perdeu a piada, diluído na cara bolachuda. Estou farto do seu sucesso. Por que raio ainda é ‘o rei’? O mundo mudou, e você manteve-se decrépito. Se os excessos o tivessem levado, poupar-nos-ia de assistirmos ao seu esvaziamento diário. Vim penhorar a sua existência. Arranje forma de pagar quanto antes”.

{ 0 comentários }

25 de Fevereiro de 2015 – Uma cena

25 de Fevereiro de 2015

massena-soloLê-se no «Público» de hoje uma crítica demolidora ao mais recente disco de Rui Massena. Ainda que aos holofotes televisivos muita da controvérsia em torno da sua carreira vá passando despercebida, pelo menos aquela criticazinha típica do meio (musical, como de qualquer outro), do género «destruir o que o outro faz para valorizar um bocadinho o que eu faço», o que é certo é que Rui Massena fez. Melhor, pior, é discutível, como qualquer situação que envolva opiniões. Notabilizou-se na Orquestra Clássica da Madeira. Compôs ou fez arranjos para orquestra com vista a ter concertos que «descomplicassem» a música erudita. Esteve na Capital Europeia da Cultura em Guimarães. E agora, teve a coragem de lançar um disco a solo. Independentemente da razão ou do coração, dá para pensar se não será mais um dos casos em que se é «preso por ter cão e preso por não ter». E aproveitar um trabalho discográfico para alargar a crítica (velada) a outros aspectos (com razão? sem razão?), não parece lá muito correcto.

{ 1 comentário }

mixordia-miranda-rapJá escrevi, mas escrevo outra vez. Há dias (muitos, quase todos) que gostava de ser como o Ricardo Araújo Pereira. Ter piada. Escrever bem. Melhor. Ter piada de forma inteligente. Escrever bem de forma inteligente. Acabei há algum tempo de ler mais uma série de mixórdias de temáticas, desta vez com um sobrenome que me é caro. E fico com a sensação de estar a adensar-se esta espécie de cobiça a roçar a inveja. É incrível como RAP é capaz de ir buscar uma ideia onde menos se espera, como recupera termos e frases idiomáticas que nem damos conta que usamos, como está atento à realidade a partir de um ponto de vista carregado de (bom) humor. E eu vou lendo, na esperança de ir aprendendo alguma coisa.

{ 0 comentários }

estudosTenho um estudo que prova que os estudos que provam alguma coisa podem, na realidade, não provar rigorosamente nada, ou então provar precisamente o contrário do que pretendem provar. Proliferam os estudos, na internet, que dizem que os irmãos mais velhos são os mais bonitos, mas há outros que dizem que, afinal, são os mais novos. Há também alguns que dizem que os homens com barba são mais inteligentes, mas os que se barbeiam também devem ter dias em que são. E há outros que até alinham a inteligência e capacidade de trabalho com os signos e todo o mapa astral que queiramos desenhar. Assim como assim, o ideal é mesmo ficarmos com a certeza de que há, de facto, estudos que provam que os estudos não provam nada.

{ 0 comentários }

simon-rattleLê-se no «The Guardian» de hoje que Sir Simon Rattle, actual maestro da Berliner Philharmoniker, já com a saída anunciada, tem uma condição megalómana para mudar-se para a London Symphony Orchestra. Uma nova sala de concertos. As boas salas são, de facto, importantes. Mas convém, igualmente, pensar-se no que vai ficar lá dentro e, sobretudo, de que maneira se vão abrir as portas. A música não pode ser exclusiva, extravagante, elitista. Deve, antes, ser inclusiva, simples e bela, próxima de todos e de cada um. Mesmo sabendo de cor as partituras, os maestros podem facilmente enganar-se, ou serem traídos pelo instinto. Porque, na realidade, não produzem um som. Convém, portanto, que confiem cegamente nos que têm à sua frente. E isso, conquista-se, constrói-se. E pode permanecer de forma mais forte que qualquer edifício.

{ 0 comentários }

21 de Fevereiro de 2015 – Silêncio

21 de Fevereiro de 2015

silencioTalvez não haja nada mais definitivo que o silêncio. O silêncio do refúgio. O silêncio de não se dizer o que não se deve. O silêncio de procura da sabedoria, de encontrar a forma certa de agir. Talvez não haja, por vezes, nada mais cortante. Nada mais incómodo. Mas ele é necessário. Imperativo. Impõe-se como a manta que nos cobre do frio, ou o mapa que nos guia pelo incerto. Talvez não haja nada mais necessário que o silêncio. Esse, onde tudo acontece, tudo ganha vida, tudo se dá. Mas que precisa de existir. Talvez não haja nada mais que o silêncio.

{ 0 comentários }