deixe-morrerSenhor Ministro. Se um dia eu estiver a apodrecer por dentro. Se um dia a minha pele já não conseguir aguentar com as raízes de um qualquer tumor. Se um dia a doença for de tal forma possessiva que não reste mais nada do que uma cama qualquer. Se, porventura, um dia não tiver dinheiro para me curar. Se não conseguir pagar para viver. Se a minha saúde não puder ser transaccionada, nem que seja por um pano humedecido em água para limpar o que restar de mim. Se um dia eu precisar de um mínimo que seja de uma saúde que não é para todos. Se um dia, Senhor Ministro, peço-lhe. Deixe-me morrer.

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andorinhasHá quem encontre sinais de esperança nas notícias. Nas palavras gastas dos que fazem parte da cacofonia diária. Nas imagens que nos entram em catadupa pelos olhos adentro. Na música de elevador, omnipresente, ritmada pelas vozes cuidadas de quem fala connosco pela rádio. E de tanto olhar para tanto lado, não vemos o que há de mais simples, de mais óbvio, de mais puro. É que, para além dos pombos do progresso, dessas aves citadinas, que para uns são sinal de modernidade, para outros de um ar, a breve tempo, irrespirável, há sinais de esperança nos ninhos de andorinha que, discretamente, se voltaram a esconder naquele espaço onde termina o telhado e começa a fachada de uma casa. Olhar para cima e encontrar, de volta, um sinal da andorinha da primavera. Simples. Como a esperança, no fundo.

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2 de Fevereiro de 2015 – Pikena

2 de Fevereiro de 2015

saraPikena. Quando, um dia, me ofereceste um livro ilustrado com um poema de Fernando Pessoa, nem sabias no que te estavas a meter. Porque, entretanto, o tempo passou, e fazemos contas a isso em números redondos. Eu dez anos, tu sempre pikena. E agora, eu mais dez anos, e tu sempre pikena. Tenho dado por mim a olhar para trás e a verificar que muita coisa aconteceu cedo demais. Peguei-te ao colo cedo demais. Como tu, mesmo achando que não, cresceste num ápice. Lembra-te que não somos do nosso tamanho, mas do tamanho do que vemos. Lembra-te que nenhum rio é maior que o da tua aldeia. E lembra-te, hoje, de outra coisa que te quero deixar. Lembra-te de seres tu a agarrar em ti e a fazeres de ti o que ainda vais ser. Eu sei, porque eu sei-te, que, mesmo sendo pikena, um dia vais ser grande. Vais ser ainda maior. Até lá, ouve bem estas palavras do mesmo Pessoa que um dia me deste. Escuta com atenção. Para já, é a melhor prenda que te posso dar. Cuida-te.

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Ode de Ricardo Reis – Nanna Caymmi e Suely Costa

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DraveHá quem diga que foi Miguel de Unamuno. Há quem diga que foi Pablo Neruda. Pois bem, parece que uns e outros estão errados. O autor do famoso poema que diz que não existe caminho, que o caminho se faz caminhando, chama-se Antonio Machado. São poucas e curtas as linhas que, a fazer lembrar António Aleixo, dizem muito em pouco tempo, em pouco espaço, em poucas letras. Há o caminho. Que se faz caminhando. E que depois de caminhado, mesmo que volte a ser caminhado, já não será o mesmo caminho. Mas, ainda assim, o caminho faz-se caminhando. E há que caminhar. Com os que chegam, e vêm connosco. Com os que, entretanto, seguem por outros atalhos. Com os que vão e voltam. Com os que partem. O caminho faz-se com todos. O caminho faz-se.

 

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar

Antonio Machado (Proverbios y cantares XXIX – Campos de Castilla)

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cartaz_circulo_mais_democracia-2No próximo dia 7 de Fevereiro será dado a conhecer um novo movimento de cidadãos. Sem política que não seja a de querer contribuir para o esclarecimento, para o debate, para o conhecimento, para o questionamento sobre temas transversais, tanto ao local como ao global. Território e Desenvolvimento, Estado, Cultura e Conhecimento e Cidadania são os quatro vectores que unem académicos arouquenses ou com ligações fortes a Arouca (Manuel Sobrinho Simões, Manuel Brandão Alves, Maria de Lurdes Fernandes, Jorge Gonçalves e Fernando Regateiro à cabeça), e com vontade de debaterem como podemos ser mais eficientes e pró-activos nestes domínios. A primeira conferência, de um ciclo de cinco, terá como orador o Professor João Ferrão, reputado investigador da Geografia Humana, do Ordenamento e do Desenvolvimento do Território. Encontro marcado às 15:00, no auditório da Loja Interactiva de Turismo. Porque há várias formas de construir o futuro em Arouca. Uma delas, sem dúvida, é por via do conhecimento.

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dentro-orquestra«Mittendrin» (no meio) é a expressão que está a ser utilizada para definir um ciclo de concertos no mínimo original. Iván Fischer, maestro húngaro da orquestra da Konzerthaus de Berlim, é o rosto desta experiência que mais não faz do que trazer o público para dentro da orquestra. Deixa de haver dois níveis de comunicação, deixa de haver duas entidades, passa a estar tudo no mesmo patamar, e o público está lado a lado com os músicos. Abre-se espaço para que músicos e público conversem, se conheçam, se relacionem. Para que o público possa olhar a partitura e o maestro do mesmo ponto de vista que os músicos. Para que a experiência sonora (e estética) seja completamente diferente. Para que seja uma experiência vivida por dentro. Mais próxima dos pormenores. Que mais facilmente, de parte a parte, termina com um sorriso.

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«Temos de comunicar a raiz da nossa fé. E a raiz da nossa fé é, sem dúvida, a palavra, a Bíblia. Até porque a Bíblia tem em si um extraordinário potencial cultural e não apenas religioso». Foi mais ou menos por aqui que começou a excelente conferência proferida pelo cardeal Gianfranco Ravasi, hoje, na Universidade Católica, em Lisboa. O desafio era acutilante: «Parábolas mediáticas e parábolas evangélicas – Comunicar a fé no tempo da internet» foi o título escolhido, chamando, desde logo, a atenção pelo facto de serem raras as oportunidades de ouvirmos gente da Igreja Católica preocupada com as questões da comunicação. «Num mundo que tende cada vez mais a ser virtual, temos de recuperar o encontro, o diálogo, a comunicação», disse Ravasi, que, meio a brincar, meio a sério, classificou Jesus como o utilizador por excelência do «twitter» do seu tempo, como quando disse «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», com a essencialidade e a clareza de um «tweet».

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28 de Janeiro de 2015 – Voar

28 de Janeiro de 2015

dumont-flies-pyramidsA frase é atribuída a Leonardo da Vinci, mas vale pelo que diz. Quando tivermos experimentado a sensação de voar, andaremos na terra com os olhos voltados para o céu, onde estivemos e para onde desejaremos voltar. É um bocado paradoxal que um tipo que tem vertigens tenha, ao mesmo tempo, vontade de voar, se possível da forma mais radical que encontre. A última mania chama-se «wingsuit flying», e não podia ter um ar mais «Davinciano». Estes verdadeiros «birdmen» (homens-pássaro) fazem voos absolutamente fantásticos, com um fato planador insuflável, com o qual chegam a atingir os 200 quilómetros por hora, até terminarem com a abertura do pára-quedas que levam às costas. Se um dia puder voltar ao céu com um fato destes, talvez continue a olhar para cima ainda com mais vontade de voltar. Mesmo com vertigens.

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Entrar num campo de concentração nazi é das experiências mais cortantes que se pode ter. Sachsenhausen, em Oranienburg, não muito longe de Berlim. O que começa por se entranhar, quase de forma agressiva, é o silêncio. Tudo, ali, é silêncio, mesmo ainda antes de chegarmos ao portão. «O trabalho liberta». Irónico. À entrada, como à saída. Quando milhares de judeus passaram estas grades, para serem literalmente dizimados, como quando libertaram os que sobreviveram e trouxeram o peso da experiência agarrado à pele. O trabalho liberta. A resistência. A justiça. Como a cicatriz, que renova a pele, mas não apaga o que a causou. Uma cicatriz com 70 anos. Para nos mostrar como foi e como não pode voltar a ser. No interior do hospital, junto aos fornos crematórios, a ouvir a explicação detalhada do que ali acontecia, passo a passo. No espaço ao ar livre, de onde se vê tudo, num triângulo de horizonte que parece imenso. O silêncio, sempre o silêncio. Que corta a pele como a bala metida na cabeça daquele que ia a caminho da câmara de gás. Que corta a carne como a coronhada naquele que, sem dizer nada, não obedecia ao que não sabia. A ferida, ainda aberta, ganha forma de tatuagem. Na forma de três palavras simples, aparentemente vazias. «O trabalho liberta». «Arbeit macht frei».

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New-York-CityÉ curioso que, antes de adormecermos, possamos ver Nova Iorque acordar coberta pelo que dizem ser o maior manto de neve de que há memória. Os Estados Unidos têm sempre esta coisa de «hollywoodesco». É tudo em grande. Compreende-se. Depois do 11 de Setembro, mais vale prevenir do que remediar. Já há imagens, para já de um nevão como outro qualquer. Não com a planura alta da Freita, mas com o recortado tridimensional dos arranha-céus. Nova Iorque vai acordar com neve. Talvez um nevão histórico. Enquanto, por cá, adormecemos com um frio habitual, à espera, quem sabe, de um dia de sol tímido. Em jeito de brincadeira, a fazer lembrar a canção de José Cid…

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