New-York-CityÉ curioso que, antes de adormecermos, possamos ver Nova Iorque acordar coberta pelo que dizem ser o maior manto de neve de que há memória. Os Estados Unidos têm sempre esta coisa de «hollywoodesco». É tudo em grande. Compreende-se. Depois do 11 de Setembro, mais vale prevenir do que remediar. Já há imagens, para já de um nevão como outro qualquer. Não com a planura alta da Freita, mas com o recortado tridimensional dos arranha-céus. Nova Iorque vai acordar com neve. Talvez um nevão histórico. Enquanto, por cá, adormecemos com um frio habitual, à espera, quem sabe, de um dia de sol tímido. Em jeito de brincadeira, a fazer lembrar a canção de José Cid…

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diogoEscuta, meu rapaz. De todas as pessoas que te podem dizer o que é a vida, talvez eu seja a menos avisada. Na realidade os cerca de 15 anos que nos separam, rapidamente foram encurtados. Hoje, parece mais fácil tomares conta de mim do que o contrário. Quando eras deste tamanho, era quase difícil pegar em ti. Era como se fosses demasiado precioso para eu correr o risco de não pegar em ti como devia ser. Mas não faz mal. Vi-te crescer como se estes 20 anos passassem em dois dias. Hoje é daqueles dias em que toda a gente te diz que tem muito orgulho em ti. Pois, eu também. Porque, confesso-te, dá-me gozo ver-te crescer, constantemente à procura da perfeição. Seremos parecidos nisso? Não sei. E, de repente, tens 20 anos. Foi tão rápido, que não me sinto com moral para te dar grandes conselhos. Nem preciso. Até porque… Escuta, meu rapaz. De todas as pessoas que te podem dizer o que é a vida, talvez eu seja a menos avisada. Hoje, se posso dar-te um conselho, digo-te. Apenas sê.

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24 de Janeiro de 2015 – A montanha

24 de Janeiro de 2015

IMG_8572Se eu pudesse, vivia no seio de uma montanha. Talvez sendo aquela água, que caindo é já outra, parecendo ser a mesma, ou sendo a mesma. Ou sendo a pedra que a água molda. Ou ainda uma simples folha verde, protegida por árvores maiores ou por uma fenda num penhasco. Às vezes apetece estar recolhido, aconchegado pela montanha. Como se fosse um segredo a que só se chega pela descoberta. Quando se sobe até aqui, apetece tudo isto. Não a montanha. Imponente, impenetrável, sólida. Antes o que de mais frágil possa estar recolhido dentro dela.

Foto: Joana Costa

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logo-ddO primeiro pecado capital de Cristiano Ronaldo (a ordem de importância dos sete é irrelevante) é o seu excessivo foco no trabalho. Todos os treinadores que o orientaram e grande parte dos companheiros de equipa que foi tendo são unânimes ao reconhecer que é sempre o primeiro a chegar, o último a sair e o que mais intensamente trabalha os vários aspectos do treino. CR7 não esquece, contudo, o facto de que o seu trabalho individual tem por objectivo o enriquecimento do colectivo. Acresce a isto o facto de estar a fazer a sua carreira no estrangeiro, o que é particularmente português, sobretudo no aspecto do foco no melhor desempenho possível, que é, no fundo, o que faz de nós efectivamente bons e reconhecidos pelo mundo fora.
Decorrente do primeiro, o segundo pecado capital de Cristiano é, precisamente, o seu percurso, ou a sua carreira. CR7 começou como todos os outros, foi crescendo e dando nas vistas como muitos outros, mas houve um conjunto de factores que fez com que «explodisse» no Sporting, e rapidamente conquistasse a Europa e o mundo. Sorte, trabalho ou o acompanhamento correcto, ou a soma das três, fez com que a sua carreira nunca tivesse tido um revés, um passo dado em falso, críticas ferozes da opinião pública ou qualquer arrependimento. Ronaldo pode orgulhar-se de poder olhar para as fotografias antigas, tiradas ainda na Madeira, com o pai no «Andorinha» e no Nacional, junto da mãe à entrada do antigo Estádio de Alvalade, ainda com cara de menino no Manchester United e por aí fora, com a certeza de que cada passo correspondeu à subida de um degrau, de forma consistente.

O terceiro pecado capital de CR7 é o facto de projectar Portugal no mundo. Melhor ou pior, com mais ou menos emoção, na maioria dos momentos altos da sua carreira Cristiano dirigiu-se ao mundo em português, e nunca escondeu nem se afastou da «responsabilidade» de ser um símbolo do nosso país. Por muito que o acusemos de «tirar o pé do acelerador» na Selecção Nacional, basta lembrarmos os golos contra a Suécia, por exemplo, e ficamos conversados.

O quarto pecado capital de Ronaldo é a sua humildade (em alguns casos, alguns dirão mesmo «parolice»). Uma «parolice» que se lhe desculpa, porque tudo o que tem e tudo o que é deve-o a si mesmo, ao seu esforço, ao seu trabalho, ao seu posicionamento estratégico perante os desafios que lhe foram surgindo. A riqueza, a quase ostentação de CR7 não é maior, nem menor, nem diferente da que outros ídolos foram apresentando, ao longo dos tempos. Figo foi acusado de ser «pesetero» quando trocou Barcelona por Madrid, por exemplo, acusação que não se conhece a Ronaldo.

Quinto pecado capital é o facto de desvalorizar o confronto constante com Messi. Os seus gestos, a luta que protagoniza em campo e até mesmo a forma como se veste distinguem-se, para o bem e/ou para o mal, do argentino. O vídeo recente de um Messi desinteressado do jogo, não abona a seu favor.

Outro pecado capital é o facto de não esquecer a família em nenhuma circunstância. Com todas as críticas que possamos apontar-lhe, e pela história de vida que teve, num momento da vida social em que a família é tão desprezada, o seu exemplo deve ser tido em conta.

O espaço está a ficar curto para apontar todos os pecados de Cristiano Ronaldo, mas não podemos esquecer, para terminar, a sua capacidade de comunicação. Estudada ou espontânea, a sua «marca» é reconhecida e «vende». Prova disso é o seu reconhecimento universal. São sete pecados, que facilmente se perdoam. Até porque todos nós temos um bocadinho de inveja (ou melhor, cobiça). Quem não se sentiria no topo do mundo se estivesse no lugar de CR7?

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brad-mehldauO senhor Mehldau entrou calmamente e, do alto do seu porte, começou a dar largas à música. Não havia mais ninguém, só o senhor Mehldau e o piano. Como se fossem uma única pessoa. E o senhor Mehldau parecia tocar com duas mãos, quando tocava apenas com uma. Foi viajando, viajando, pelas sonoridades que iam surgindo. Às vezes parecia um Chopin dos tempos modernos, outras vezes era ele próprio. Outras, ainda, uma reencarnação dos pianistas dos filmes mudos, aqueles que tocavam músicas muito rápidas, e geralmente castiças. O senhor Mehldau encheu a sala de um som quente, forte, intenso, mágico. Tratou, rapidamente, de dar um concerto sublime. Terminou com «And I love her» e «Blackbird», dos Beatles. E foi um bom final. Depois voltou a tocar aquele emaranhado bom de sons, com que começou. Como se voltasse ao princípio. O senhor Mehldau é um senhor. Gostava de ser, assim mais ou menos, como ele.

Foto: Ana Catarina Costa

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ano-novoPorque é que, a cada ano novo, temos de querer, obrigatoriamente, uma vida nova? Apetece-me a vida velha. Sem as camadas de complicação que vão assentando, umas em cima das outras. Sem o tempo cada vez mais curto. Sem as preocupações laterais de todos os dias. Apetece-me a vida velha, sincera, simples, sonhadora, aberta a todas as possibilidades, feita de todos os impossíveis. Apetece-me a vida velha de voltar aqui. Dos livros. Da música, muita. Da surpresa com o mais simples que possa aparecer. A vida velha, boa, feita de coisas boas. Não quero essa vida nova, de mais camadas de complicação, de menos tempo, de mais preocupações quotidianas. Ano Novo, sim. Mas vida velha, por favor…

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Erradamente, passamos a vida a tentar inventar a roda. Continuamos a pensar que ainda há algo por descobrir, algo por fazer, algo por inventar. Mas não. Por muito que continuemos a querer inovar, os fundamentos do que fazemos estão lá atrás, no tempo. Hoje, estão na moda os Serviços Educativos. Bem entendido, há muita coisa a fazer. Mas a inventar, há pouco. Leonard Bernstein esteve na origem dessa “invenção” que aliou a educação à música, com os “Young People’s Concerts”. É incrível como conseguimos olhar para estes programas, ainda a preto e branco e com inúmeras limitações técnicas, que hoje facilmente se contornariam, e achamos que foram feitos ontem. Bernstein era um grande músico, um grande maestro e um grande educador. Ao que poderíamos acrescentar um grande comunicador. A sua biografia lança várias interrogações, seja no domínio social, afectivo, político até. Mas sobra a música, e isso é tudo. Hoje, Bernstein faria 96 anos. Se todos os que foram tocados pela sua música e pelos seus ensinamentos se expressassem em conjunto, talvez o mundo todo se transformasse numa grande orquestra.

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Actor-Comedian Robin Williams Dies At 63A notícia da morte de Robin Williams trouxe consigo, em poucos segundos, vários pensamentos. O primeiro, desde logo, regressando àquele Verão em que a sua presença foi constante, entre matinées e serões, com «Dead Poets Society», «Good morning, Vietnam», «Awakenings» ou «Good will hunting». De como a sua versatilidade se tornou referência, e de como as suas personagens sempre carregavam uma aura de sonho e simplicidade. Outro, logo de seguida, foi o de associar Williams ao «Palhaço Pobre». O Palhaço Pobre é sempre o mais engraçado, mesmo atolado na sua desgraça. E sabe disso, e vive isso. Na «Time», Jim Norton escreve que talvez nunca consigamos perceber por que razão Robin Williams decidiu combater a dor, terminando com a vida. Williams não se via a si mesmo como todos o víamos. Talvez não se sentisse trinfador ou cheio de «glamour», mas triste e incompleto. As pessoas mais engraçadas são, na maioria das vezes, as mais escuras. É talvez desse abismo profundo que vem, precisamente, o profundo sentido de humor. A tristeza do palhaço é a maior ironia do «showbusiness», escreve Simon Jenkins no «The Guardian». Só que Williams não era um palhaço qualquer. Ria e chorava. Gesticulava e disfarçava-se. Dominava a fúria e a gargalhada. Mas só uma dicotomia o traiu. Se a sua «doença» fosse física, talvez um minucioso cirurgião conseguisse, após uma qualquer operação demorada, curá-lo. Mas a luta aqui era outra. E na luta contra si mesmo, Williams perdeu, ao continuar a ser o mais engraçado, mas o mais triste.

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leonorDesculpa, Leonor. Desculpa, antes de mais, por só te ter abraçado tão tarde. Desculpa por ter andado tanto tempo a pensar nas palavras ideais, e não as ter ainda encontrado. Desculpa estar a amontoá-las assim, quando tantos que te eram, de certeza, mais queridos, o fizeram com muito mais arte do que eu.

Desculpa também por só ter-te conhecido quando os teus olhos grandes se abriram num sorriso cúmplice pela primeira vez, a caminho da Casa da Música. Não te peço desculpa por te ter conhecido por causa da música. Aliás, essa foi uma das coisas mais saborosas que a arte me podia ter dado.

Sabes, a vida tem acelerado de uma forma avassaladora, e isso tem-me feito pensar ainda mais em ti. Na energia que transmites a partir de um ser aparentemente pequenino, mas tão grande, tão grande. Gosto muito de ti, miúda. Mesmo muito. E é por isso que guardo na memória cada palavra que me disseste, cada momento de alegria que te pude ajudar a viver e com que me presenteaste, cada gargalhada que te consegui fazer soltar. Desculpa só te ter abraçado aquelas dezenas de vezes, antes e depois do concerto que fizemos. Desculpa por não ter feito mais música contigo.

Vou lembrar sempre as últimas palavras que me disseste, e a forma serena e convicta com que as disseste. Vou procurar vivê-las, como quiseste vivê-las. Vou fazer delas a melhor lição que alguém me poderia ter dado, de forma tão simples e tão clara. Revejo-me muito em ti, envolvida até ao osso em tudo o que escolheste para dedicares o teu tempo e o teu talento. Mas deixa-me que te diga, o teu maior talento foi viveres. Não consigo ter saudades tuas, porque continuo a procurar-te todos os dias. Continuo à espera de voltar a cruzar-me contigo como da última vez, e ver os teus caracóis dourados a saltarem de ti como molas, e a dizeres-me olá com a tua voz de anjo castiço, um olá rápido, porque era urgente dar um abraço.

Era mais ou menos isto que te queria dizer, de forma dispersa, desorganizada, desleixada, distraída até. Também, não são as palavras que vão fazer grande diferença, muito menos as minhas. Prometo-te que vou guardar as que a tua mamã nos deu, depois de teres brilhado na sala grande da Casa, e eu a ver-te sorrir, com o saxofone bem apertadinho no teu abraço. Prometo-te que vou continuar a procurar as duas cartas especiais do baralho de jogar que perdeste ao vento, enquanto nos distraíamos um pouco. Prometo que vou continuar à tua procura, à espera de te reencontrar, como da última vez, formosa e segura, e ver-te chegar com os caracóis aos saltinhos, rasgares um sorriso, dizeres olá e dares-me um abraço. Depois, vou ficar para sempre sentado nos degraus da praça a ver-te brincar, até vires ter comigo e voltares a dizer-me que a vida tem de ser vivida com intensidade. Para que eu não esqueça. Nunca.

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11 de Julho de 2014 – Cosmos

11 de Julho de 2014

A série imortalizada por Carl Sagan tem um novo formato, mas o conteúdo é mais ou menos o mesmo e a forma como nos interroga sobre a nossa posição no universo mantém-se. Para já, os dois primeiros capítulos são suficientemente ricos em ideias para reflectir. A começar pela perspectiva. Pela escala. Pela dimensão e importância que reconhecemos às coisas. Passando, também, pelo questionamento da nossa presença aqui. Que sucessão de acontecimentos e “acasos” teve de suceder para que chegássemos aqui. E se recuarmos até ao “Big Bang”, a questão mantém-se. Por que razão foi naquele preciso momento que as condições estritamente necessárias foram reunidas? Na realidade, mais do que respostas cabais, é interessante procurar as perguntas certas.

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