say-nameHá dias em que parece que nenhuma das nossas palavras nos serve. Quando nos aparecem, avassaladoras, as de alguém que parece estar a dizer-nos exactamente o que queremos dizer. Foi assim hoje, com Mia Couto. «Diz o meu nome». É assim que começa o verdadeiro turbilhão de música nas palavras, de sensações que flutuam a cada frase. A pedir que digas o meu nome. Que me digas, no meu nome, como se cada sílaba te queimasse. Que me digas com suavidade, como se fosse uma confidência. Que me digas como quem vê. Como quem olha por dentro, como a Blimunda de Saramago. «Diz o meu nome». E assim, quando o disseres, eu, esquecido de mim, ouço-te, ouço-me pela primeira vez. E tu sorris. E o mundo começa.

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho’

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tenisHá determinados momentos em que nos sentimos como jogadores de ténis atacados. E os ataques vêm com tanta força e tão rapidamente, que só há tempo para reagir e acertar com a raquete na bola com a força possível. E os ataques continuam, e a reacção é a mesma. E não sobra grande tempo para pensar, só para reagir. Até chegar a uma altura em que só queremos que o «set» acabe, para repousar uns minutos, e pensar no que fazer no jogo seguinte. É isto…

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Caeiro dizia que da sua aldeia podia ver todo o mundo. E é bem verdade. Eu não tenho uma aldeia, mas se tivesse talvez fosse esta. A Paradinha. Aqui, como o mesmo Pessoa dizia, sendo outro ou ele mesmo, o rio que corre não é maior do que o Tejo, mas é maior do que o Tejo. Porque não interessa de onde ele vem, nem para onde ele vai. Aqui, ele simplesmente é. Como estas casas de xisto. Se pudesse ter «a minha aldeia», talvez fosse esta que aqui deixo. Não sou fotógrafo, a não ser quando espreito para dentro da máquina e escolho um recorte. Como estes. «Da minha aldeia».

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2Hoje, foi dia de futebol. Talvez Afonso Pinto Magalhães nunca tenha imaginado que, um dia, o FC Porto iria receber o FC Arouca no seu estádio, a contar para a competição nacional mais importante. Nem muitos de nós. As emoções acabam por baralhar-se um pouco, quando vemos o FC Arouca defrontar o Benfica ou o FC Porto. Dá a sensação de que, mesmo estando no mesmo campeonato, disputam campeonatos diferentes. Esta coisa de sermos de um clube de forma inexplicável causa, por vezes, estranheza. Uma estranheza que acaba por saber bem, quando saboreada em boas companhias e em lugares confortáveis e privilegiados. Resultado à parte, e com a certeza de uma boa réplica do FC Arouca, «foi bonita a festa, pá».

Foto: Avelino Vieira

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uninvitedA maior parte das pessoas que conhecemos preferem aparecer. Levam a mal se não são convidadas. Sentem-se desconsideradas se não se sentarem à mesa dos que aparecem. Talvez até provoquem escândalo se não se sentarem nos lugares reservados aos convidados. Depois, há essa imensa minoria que prefere não ser convidada. Que prefere não aparecer. Que se sente bem no anonimato do público. Às vezes gostamos de estar de um lado, outras de outro.  Ou algures no centro, quando podemos ajudar a decidir quem é quem. Seja como for, o melhor mesmo é poder ter o enorme privilégio de poder participar, sempre, nas reuniões dos não convidados. Não pode haver mais liberdade que essa.

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vergilio-ferreiraNas palavras dos outros, está o génio que não temos. Especialmente nas de Vergílio Ferreira. Que parece que quantas mais palavras mostra, mais genialidade manifesta. Não por dizer grandes coisas. Não por teorizar demasiado. Antes por falar de coisas simples, de forma simples, agrupando ideias simples. Ao ponto de, a cada passo, perguntarmos «como é que nunca tinha pensado nisto desta forma». É esta a vantagem que quem não espera nada tem. A de, facilmente, se surpreender. De encontrar muito mais do que aquilo que procura. Há muitas palavras de Vergílio sobre música. Mas, de todas, estas são as mais marcantes.

«Todas as formas de arte existem no presente em que as contactamos, ainda que nos remetam para outro tempo. Mas a música vem logo da distância, não existe no momento em que a ouvimos, mas num tempo que não sabemos. A música é sempre anterior a si, de tempo nenhum, de um absoluto não presentificado, de um tempo anterior ao tempo, de um tempo fora dele, da eternidade. Será por acaso que ela é uma forma de arte privilegiada pela religião? Arte dos deuses, ela é do que imaginamos maior do que nós, do que nos transcende para o absoluto que nos mora.»

Vergílio Ferreira – Pensar

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12 de Março de 2015 – Candide

12 de Março de 2015

candide«Ler um livro e ver o filme» é o exercício que costumamos fazer. Mas ler um livro e apreciar a música, a ópera, é algo que, para além de ser totalmente diferente, é uma descoberta sem paralelo. Sobretudo quando colocamos, lado a lado, Voltaire e Bernstein. Candide é uma personagem que, a certa altura, faz lembrar Job. A quem tudo acontece ao contrário. Mas, o que espanta, é que esse «ao contrário» começa, a certa altura, a fazer sentido, ao ponto de, no final, Candide praticamente regressar ao início. Ainda que com contornos diferentes, mas o início. O exacto ponto de partida, que era, ao mesmo tempo, a chegada projectada. E a música… Ah, a música…

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Candide (Overture) – Leonard Bernstein
Los Angeles Philharmonic Orchestra (Leonard Bernstein, cond.) – gravado em Julho de 1982

 

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logo-ddLonge vão os tempos em que alguns domingos à tarde eram passados entre o aspecto térreo e agreste do Campo Afonso Pinto Magalhães, a fazer figas para festejar golos do FC Arouca, e o ouvido colado ao rádio, à espera de saber os resultados, de preferência com vitória do Benfica. No domingo passado, foi como se um tornado tivesse feito levantar estes dois quadros, distanciados no tempo por quase 30 anos, e os tivesse juntado no novo Estádio Municipal. O Benfica veio jogar com o FC Arouca, e isso era algo que, nas contas simples da escola primária, não tinha parcela possível.

O futebol, embora hoje com menos magia do que naquela altura, tem destas coisas. É-se do Benfica ou do Porto por razões que a razão desconhece, e o FC Arouca, apesar de vir baralhar as contas afectivas, não consegue tomar de assalto um coração empedernido por anos de glórias e sofrimentos inexplicáveis. Às vezes parece que não é bem verdade, que vamos acordar a qualquer hora de um sonho qualquer. Mas não, o FC Arouca já está há duas épocas na Primeira Liga, e o caso está a ficar cada vez mais sério.

A visita de um clube grande, ainda para mais o Benfica, num domingo à tarde, a fazer lembrar esses tempos de jogos ao sol, a meio da tarde, faz parar o mundo em qualquer lugar. Muitos não demoraram a dizer que parecia que a Feira das Colheitas tinha sido antecipada (se bem que uma Feira das Colheitas nunca poderia ser monocromática). E sim, houve momentos em que pareceu, apesar de haver momentos em que não pareceu tanto. Não há rosas sem espinhos, nem maçãs sem caroços. No meio de muita gente, há sempre muita gente boa, mas também alguma gente má. No que toca a gente má, felizmente a nossa (muita) gente boa conseguiu ser-lhes superior, e também por isso «foi bonita a festa».

Depois, nas bancadas, as emoções. Misturadas, como é normal nestes casos. Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra, apesar de haver sempre excepções. Não vale a pena pensar nos golos festejados ou por festejar. Nas pressões laterais de quem tem mais poder de influência ou mais experiência nestas lides. Para a história vai ficar sempre um FC Arouca/Benfica, e em que o FC Arouca, ainda por cima, marcou primeiro (ao Sporting, no jogo de estreia na Primeira Liga, já tinha acontecido o mesmo).

Estamos entre os grandes. Soubemos ser grandes. Agora, há que, no dia a dia, continuarmos a ser o que sempre fomos. O que nos caracteriza. Nobres de carácter, mas humildes de postura. Não querermos ser daqui, mas parecer que temos a raiz noutro sítio, ou em sítio nenhum. É difícil. Às vezes impossível. Mas não se marcam golos sem remates. Estes, é como se fossem de fora da área. São mais complicados. Mas quando entram, dão golos de bandeira. É este o verdadeiro desafio do FC Arouca.

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Não resisti a escrever antes de chegar ao fim. Das três horas de filme que Oliver Stone dedicou a Nixon, ainda só cheguei a dois terços, mas já foi suficiente para ter em que pensar. Para além da habitual aura de polémica que Stone gosta de deixar a pairar no ar e da estupenda interpretação de Anthony Hopkins. Que um político pode ter várias faces, e talvez nenhuma ser verdadeiramente sua. Que as circunstâncias traem, muitas vezes, quem deveria estar mais preparado. Que as consequências de algo que sucedeu no passado surgem sempre no momento em que menos espera. E que, como na vida, o que faz verdadeiramente sentido é a luta, e não tanto a vitória.

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spem-in-alium«Spem in alium» é um motete de Thomas Tallis, composto por volta de 1570, a 40 vozes. Significa que está pensado para oito coros a cinco vozes. A última página da partitura tem mais ou menos o aspecto desta imagem. Dizem que faz parte da banda sonora das «Cinquenta Sombras de Grey». Pouco me importa. Hoje, é a minha forma de oração. Sentir as palavras ganharem corpo, ao longo da música. Dizer ao silêncio e à escuridão que nunca confiei em mais ninguém senão nesse Deus, que nos dá a conhecer a ira e a misericórdia, para que possamos escolher o perdão, e espero-lo dele. Esse Deus que teima em exaltar-nos, apesar da nossa pequenez. Essa pequenez que vai crescendo, à medida que as vozes vão chegando à música, até serem todas as quarenta. Não confio em outro. Senão no silêncio. Nesse escuro vácuo de palavras.

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Spem in alium (Thomas Tallis)

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