11 de Julho de 2014 – Cosmos

11 de Julho de 2014

A série imortalizada por Carl Sagan tem um novo formato, mas o conteúdo é mais ou menos o mesmo e a forma como nos interroga sobre a nossa posição no universo mantém-se. Para já, os dois primeiros capítulos são suficientemente ricos em ideias para reflectir. A começar pela perspectiva. Pela escala. Pela dimensão e importância que reconhecemos às coisas. Passando, também, pelo questionamento da nossa presença aqui. Que sucessão de acontecimentos e “acasos” teve de suceder para que chegássemos aqui. E se recuarmos até ao “Big Bang”, a questão mantém-se. Por que razão foi naquele preciso momento que as condições estritamente necessárias foram reunidas? Na realidade, mais do que respostas cabais, é interessante procurar as perguntas certas.

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mulher-livroAcabei de ver, com a força de quase não conseguir deixar de olhar, no muro do jardim, o corpo de uma mulher, curvado sobre um livro. E foi curioso, pensar que era como se o livro estivesse a puxar o corpo. Para outro lugar. Para outro mundo. Foi curioso ver que, mesmo sem dar conta, o físico estava a denunciar o que, realmente, estava a acontecer. É isto que os livros fazem. Mesmo que, à volta, esteja a acontecer o apocalipse. É esta a magia do livro. A de nos fazer curvar, até conseguirmos entrar na porta que abre. Página após página.

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ravel-labequeAcabo de receber de presente de viagem o álbum “Maurice Ravel”, da dupla de pianistas (e irmãs) Katia e Marielle Labèque. Conheci as irmãs Labèque por causa da performance original do famoso “Bolero”, de Ravel, com o trio basco “Kalakan”. Devo o presente (autografado, ainda por cima) ao meu grande amigo Avelino Vieira, que me deixou roído de inveja por não ter podido ver o concerto que juntou as irmãs Labèque aos “Kalakan”, no Théâtre des Champs-Élysées, em Paris. É curioso que, numa altura em que as plataformas comerciais da música nos permitem passar, de um segundo para o outro, do mais erudito ao mais espontâneo, continuemos a ser exigentes na forma como os concertos são organizados e orientados. Pois bem, estes músicos fazem questão de romper com os rituais que presidem aos tradicionais recitais pianísticos, por exemplo. Antes procuram interrogar-nos através do ouvido, romper com hábitos. Não discriminam a (excelente) música folclórica, antes a colocam lado a lado com a música erudita, rompendo discriminações e rasgando novos ritmos, cores e horizontes. O disco só traz Ravel. A dois pianos, que soam como um só. É como se, com toda a delicadeza, nos colocassem as paisagens sonoras do compositor na ponta dos dedos.

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gaioFico com a sensação de que somos urbanos demais. Os pombos passaram a ocupar os espaços que, outrora, eram morada de férias das andorinhas. Já não vemos pardais com tanta regularidade. Ao menos os melros, de vez em quando, dão um ar da sua graça. Mas hoje voltei a ver os gaios e as rolas. E voltou à memória um gaio falante que havia na vizinhança. Não era muito variado, o discurso. Limitava-se a chamar alto pelo Zé. E as rolas “rolando”, há tanto tempo as não ouvia em liberdade. E lembrei-me de ti, João. De como a infância passou demasiado depressa. Tão depressa, que nos impede de recordar os pormenores de cada dia. Até o gaio e a rola voltarem a aparecer. Livres. E aí, recordamos muita coisa. Quase tudo. A vida.

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bandeira-nacionalO padre José Tolentino de Mendonça começa um texto sobre a esperança evocando a forma como o grande artista do Renascimento, Miguel Ângelo, a encarava. Para o pintor, escultor, arquitecto e mestre, a esperança era o que fazia com que visse numa pedra de mármore em bruto a escultura que idealizava, como produto final. E é aqui que reside toda a diferença. Miguel Ângelo via na pedra em bruto aquilo que, com o seu trabalho e minúcia, iria ser uma grande escultura, sábia e arduamente trabalhada. O que nós temos, em Portugal e, nestes tempos futebolísticos, projectada na Selecção Nacional, não é esperança. É uma espécie de fé num qualquer deus, que resolva o problema por nós. Isso não é esperança. É acreditar que o acaso nos possa ser favorável.

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ausenciaEstou há demasiado tempo sem escrever. Estou há demasiado tempo a sentir que tenho pouco tempo, que não tenho tempo, de todo, para fazer uma coisa que quase sinto que devo. Quase como se me estivesse a tornar de pedra. E assim, decidi que não vou esperar para fazer a viagem de trás para a frente. Marco, agora, o dia. Voltarei ao que passou mais tarde. Tinha urgência em voltar. Mesmo que haja dias em que não apetece dizer nada, ou dizer muita coisa que não interessa ouvir, ou apenas falar sozinho, ou juntar todos os palavrões e insultos e mandá-los contra um muro. Estou há demasiado tempo. Agora, tento reatar a ligação invisível. Até ver…

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logo-ddA dicotomia não é nova. Eça de Queiroz, de resto, extremou bem as realidades, quando colocou, lado a lado a enorme Paris, centro do mundo, e a sua pequena Tormes, centro de um quase imaginário. Hoje, os extremos estão ainda mais vincados, com a «cidade» a querer ser cada vez mais cosmopolita, e a olhar para os das «serras» como seres quase exóticos, e as «serras» cada vez mais desertificadas, a olharem para a cidade como única saída para as dificuldades que encontram, não sendo já suficiente olharmos para a «cidade» do próprio país.

Nos dias que correm, o que mais irrita, nesta espécie de extremismo, é a forma como os «seres» que continuam a não abdicar de viver nas «serras» são olhados pelos citadinos. Tolhidos pela fronteira mental, que podemos situar, por exemplo, no caso de Lisboa, entre Alverca, Santarém e Setúbal, é como se todo o resto do país coubesse confortavelmente na definição de «Portugal Profundo», essa construção mental onde cabe tudo o que é paisagem, no sentido de já não ser muito bem aquilo que interessa.

Pois bem, se argumentos faltassem, uma notícia que surgiu recentemente é argumento suficiente para defender as «serras». Segundo um estudo promovido pela empresa «Tom Tom», ligada aos aparelhos de geo-referenciação, os lisboetas passam 74 horas (cerca de três dias) por ano presos no trânsito. E os números devem pecar por defeito, ainda assim. O mesmo estudo conclui que o que os das «serras» têm como ditado popular («quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos») não podia ser mais verdadeiro. Os que, para fugir ao trânsito, tentam alternativas, acrescentam 50% ao tempo das deslocações. Em Lisboa, o nível de congestionamento ronda os 9% nas auto-estradas e os 27% nos restantes troços. A média global de congestionamento ronda os 26%.

Arouca não tem congestionamento no trânsito. Pelo menos não com uma frequência diária. Felizmente que o temos, quando há grandes eventos. E isso acaba por ser bom. Significa que vem muita gente a terras de Santa Mafalda. E ainda bem que vêm. Porque dessa forma podem ver com os próprios olhos, sentir com os próprios sentidos, que não somos tão exóticos como possa parecer. Que esse Portugal é de facto «profundo». Tão profundo que merece que «os da cidade» saiam da caixa, tirem os óculos que lhes limitam a visão, e verifiquem que é nesta «profundidade», feita à custa das identidades locais, que o país pode passar a fazer sentido. Porque enquanto continuarmos a ser governados com os óculos dos citadinos, como números em folhas de «Excel», continuaremos a ser esses «seres exóticos» desse outro tal «Portugal Profundo».

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logo-ddNão. O «encalhamento», aqui, não tem absolutamente nada a ver com a data, com a «febre» amorosa que povoa o 14 de Fevereiro, com o ridículo das cartas de amor a resvalar para algo «kitsh», ou coisa parecida. Tem, antes, a ver com o colocarmo-nos uma posição de fronteira, essa, que não é a de estarmos nem de um lado, nem do outro do problema, e olharmos para ele com 360 graus de visão.
Assim, se olharmos para o lado no tempo, vemos uma geração quase (à) rasca. Desmotivada. Desinteressada. Quase amorfa. Passiva. Quase vazia. Inerte, talvez por ter tudo demasiado à mão. Tão à mão, que deixa de ter interesse ou ser necessário. Depois, aqui, na fronteira, estamos nós. A esbracejar por uma oportunidade. A amontoar cartas de apresentação e cópias do Curriculum Vitae que se traduzirão no mais profundo silêncio. Com um canudo absolutamente inútil na mão. Condicionados na competição à escala europeia e até mundial, porque nem todos somos António Damásios ou Manueis Sobrinhos Simões. A lutar por estarmos aptos para fazermos várias coisas, não necessariamente todas bem feitas, mas que garantam, pelo menos, a emissão de uns quantos recibos verdes, que permitam ao Estado cobrar-nos, pelo facto de trabalharmos, mais do que ganhamos. E, depois, mais ali ao lado, temos o futuro. Esse futuro completamente incerto. Nebuloso. Sem reforma. Sem Estado. Sem subsídio de desemprego ou outro qualquer. É mais ou menos nesta fronteira em que estamos. Encalhados. Como o país, de resto. Entre a visão cosmopolita e arrojada dos que se aventuraram a desbravar mares nunca antes navegados e terras nunca antes calcorreadas, e uma mão cheia de nada senão uns restos de areia, fugindo por entre os dedos, como o tempo contado numa ampulheta.
À medida que caminhamos por esta linha ténue de fronteira, não é o futuro, nem o mundo, nem tão pouco o nosso próprio projecto de vida que conseguimos agarrar. Só essa areia do caminho, que se vai contabilizando em segundos, minutos, horas, dias e anos. Não vivemos, sobrevivemos. Esforçamo-nos por estar à tona de uma espécie de redução do inferno imaginado (vivido?) por Dante.
É como se tivéssemos acabado de chegar ao mar das tormentas e tivéssemos, cada um de nós, de decidir que rumo tomar. Seguir em frente, e enfrentar o Adamastor (mesmo não sabendo muito bem como), ou voltar para terra firme. Mas com a certeza de termos de optar por uma ou outra opção. Instintiva ou ponderadamente. Porque, em caso de indecisão prolongada, talvez não haja encalhamento que nos salve nesta linha de fronteira. E naufragar, nos dias que correm, significa deixar de existir.

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instrumentosSurgiu hoje uma notícia que, a ser verdadeira, todos os músicos com certeza saudarão. Lê-se que o Parlamento Europeu terá aprovado uma directiva que considera os instrumentos musicais como bagagem de mão, nos voos entre países da União Europeia. Quando vemos alguém que leva um estojo de violino, deduzimos ser um violinista. Quando vemos alguém que leva um estojo de guitarra, deduzimos ser um guitarrista. Quando vemos alguém que leva um piano, deduzimos ser um carregador de pianos. Portanto, os pianistas talvez não beneficiem tão directamente desta boa notícia. Quanto aos restantes instrumentistas, já não precisam de viajar com o coração nas mãos, sem saberem como vão ser tratados os seus instrumentos no porão, muitas vezes instrumentos caríssimos. Boas notícias, portanto.

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ccsjmMagnífico. Não tanto para fazer uma espécie de colagem ao título do concerto («Magnificat»), mas porque o foi de facto. Quem passou pelo Coro de Câmara de São João da Madeira não consegue evitar a saudade. Mas o que também não pode negar é o crescimento, a cada vez maior limpidez com que o coro faz música. No domingo passado, houve mais uma prova disso mesmo, na Igreja Matriz de São João da Madeira. «Magnificat», de Vivaldi, com o acompanhamento extremamente competente da Orquestra de Câmara Ulphilanis (vénia a Rui Soares, pela forma séria e competente como encara tudo o que faz), era a peça central do concerto. Mas, antes disso, houve verdadeira filigrana musical, com tudo o que há de bom, e composto não há muitos anos, para coro «a capella». «Salve Regina» de Poulenc, «O Magnum Mysterium» de Morten Louridsen, «Lux Aurumque« de Eric Whitacre e duas peças de Eurico Carrapatoso. A excelência tem, com certeza, o trabalho de cada um. Mas o rosto destas sonoridades é Joana Castro, de cujo gesto gracioso sai a boa música que esta gente boa produz.

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