Vinha de casa quase decidido a desistir de tudo, para recomeçar algo que não sabia o que era. Nem como. Nem onde. Decidido a acreditar que não tenho vocação para alinhar palavras. Porque me soam sempre ao mesmo. Esgotadas. Sem sentido. Sem ninguém interessado em vê-las alinhadas e reconhecer-lhes algo mais do que letras. Vinha de casa a pensar num outro futuro, que não estava a ver. A pensar que talvez precisasse dos óculos de alguém para o ver. Vinha de casa certo de que “this is it”, e nada mais. E sou parado, de forma inesperada, para me dizerem, de viva voz, com palavras simples, mas as certas, cadenciadas, as melhores que jamais poderia encontrar, para me dizerem (digo outra vez) que me lêem. Que acreditam no que escrevo. Que às vezes até lêem de trás para a frente. E, de repente, talvez tenha deixado de fazer sentido desistir. E, de repente, eu acreditei. Acreditei.

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BE041150Há precisamente 104 anos, morria Gustav Mahler. Não se sabe bem porquê, há uma fixação pelas últimas palavras, ainda mais quando se trata dos grandes génios. Talvez à procura de uma qualquer epifania, ou de um ponto final colocado com toda a precisão do mundo, ou de uma cadência perfeita que, de tão perfeita, chega a ser de outro mundo. Vergílio Ferreira dedica um dos seus pensamentos às últimas palavras de alguns grandes nomes, e, segundo a literatura, há frases marcantes, sejam elas as últimas palavras de quem as diz ou não. De todo o modo, Mahler morreu há precisamente 104 anos, e dizem que as suas últimas palavras foram «Mozart, Mozart!». Com toda a genialidade que estava concentrada naquele pequeno homem de um metro e cinquenta, não quero sequer imaginar o porquê de Mahler se lembrar dele no último sopro de vida. Prefiro pensar que foi em tudo. E talvez, no seu lugar e com o poder incomensurável da música que produziu, também escolhesse «Mozart» como última palavra. Dita vezes sem conta, até expirar.

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benficaNinguém está bem com o bem que tem. O ditado é velho, e não há mais nada a haver. O Benfica foi campeão. Bi-campeão. Estou satisfeito. Ganhar significa ser melhor que alguém. Às vezes, do que todos. E eu gosto muito do Benfica. Mesmo muito. Aos seis anos, aprendi rapidamente o nome dos jogadores. Sabia mais ou menos as tácticas. Previa resultados. Discutia com os amigos. Sofria nas finais europeias. Gosto mesmo muito do Benfica. E, além disso, a última vez que o Benfica foi bi-campeão, eu tinha três anos, e, como ainda não tinha seis, não sabia (ainda) quem era Eriksson, que só mais tarde passei a admirar. Foi por causa do Benfica que vi jogar em vários estádios do país Mozer, Ricardo Gomes, Valdo, Thern, Schwatrz, Magnusson, Chalana, Veloso, Bento e muitos outros que, depois, víamos nas respectivas selecções, nos Europeus e Mundiais, nas férias de Verão. Eu gosto mesmo muito do Benfica, mas preferia ter sido campeão de outra forma. Preferia, entre outras coisas, mas para começar, ter um treinador mais parecido com Eriksson. Preferia que os que gostam tanto ou mais do Benfica do que eu não andassem em zaragatas com a Polícia. Preferia que os que vão mais vezes ao estádio do que eu não destruíssem as bancadas. Preferia que o Benfica fosse esse grande Benfica, que é, mas que rapidamente fica mais pequeno. É este o grande “mas”.

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Através de uma partilha do meu estimado amigo Leandro Alves, encontrei (e vi avidamente) um documentário de 1993 sobre a controvérsia profissão de maestro. Lorin Maazel, Zubin Mehta, Georg Solti, Esa-Pekka Salonen, Franz Welser-Most, Mariss Jansons, Klaus Tenstedt, Christoph von Dohnanyi e Leonard Slatkin são alguns dos entrevistados, e há excertos onde podemos ver em acção Arturo Toscanini, Herbert von Karajan e Leonard Bernstein. A controvérsia em torno da forma como a profissão é exercida, e gerida em termos de carreira, é, na maioria dos casos, alimentada pelos próprios maestros, ao ponto de Lorin Maazel dizer que é a profissão mais charlatã do mundo. Será?

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logo-ddHá algum tempo, em conversa com um amigo jornalista que tem feito algumas visitas a Arouca, maioritariamente para nos brindar com as verdadeiras obras de arte que são os seus relatos de futebol, dizia-me que do que mais gostava em Arouca era do caminho. Primeiro, pensei que não tinha percebido bem. Depois, pensei que se tratava de algum tipo de ironia. Mas, à terceira, vendo a sinceridade estampada na sua argumentação, percebi que tinha dito exactamente o que queria dizer.

Quando se vem a Arouca à descoberta, de espírito aberto, com vontade de se ser surpreendido pelo mais pequeno pormenor (e podem ser muitos, bem o sabemos), é possível que assim seja, que até o caminho possa ser encantador. Alexandre Herculano já o dizia, e até Saramago, vindo de Oliveira de Azeméis, em dia de chuva torrencial, não quis deixar os pormenores do percurso fora da descrição. Mas quando precisamos de chegar depressa a algum local, numa emergência ou para tratarmos de algum assunto num qualquer organismo do Estado, verificamos que talvez não estejamos assim tão perto como possa parecer, e o encanto deixa de fazer tanto sentido.

Este é o dilema em que andamos. Há uma base lógica de enquadramento que é a de continuarmos a ter apenas um troço, que nos dá a ilusão de podermos chegar mais rapidamente ao destino. A partir daqui, e porque nos foram, sucessivamente, mentindo, o que temos é uma dúvida, baseada numa quase certeza de que não vamos ter mais nada. Se tivermos mais qualquer coisa, será bom. Podem os que nos visitam chegar mais rapidamente cá, e podemos nós mais rapidamente sair e voltar. Se não tivermos mais nada, resta-nos continuar a vender a ideia que vivemos num pequeno refúgio, e que a dificuldade de acesso faz parte dessa magia.

A questão que nos devemos colocar é: o que vamos fazer em qualquer dos casos? Podemos aguardar a deferência do Estado em corrigir um erro crasso e fazer justiça. Podemos tentar embarcar numa espécie de gritaria que, rapidamente, se descontrola. Ou podemos, também, não fazer nada. Mas convém pensarmos. Estarmos preparados. Se realmente gostamos da nossa terra, o que podemos (e devemos) fazer é alargar a escala do pensamento, e incluir o futuro na equação. Com estrada ou sem ela, ou apenas com uma parte dela, Arouca vai continuar a existir. Vai continuar a ter um passado para honrar, um presente para viver e um futuro para projectar. Não contar com todos os cenários possíveis, pode resultar num imobilismo mórbido. Numa estagnação. Num rumo difuso, ou mesmo na ausência de um rumo, à espera de um qualquer «Encoberto».

«Ser ou não ser, essa é a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer?». Em «Hamlet», de Shakespeare, é assim que diz. Vale a pena pensar nisso.

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don-quixote-picassoDiz quem sabe que D. Quixote de La Mancha se armou a si mesmo cavaleiro, depois de ter investido todo o tempo que tinha na leitura de romances de cavalaria. Quixote resolveu partir para viver o seu sonho, mesmo que, em cada batalha, tivesse de lutar, antes de mais, com a realidade. Foi, o mais das vezes, ridículo. Mas manteve-se fiel àquilo em que acreditava ser a verdade. E foi por isso que lutou. Num lugar de La Mancha, de cujo nome poucos se lembram, vivia um fidalgo, daqueles de escudo e lança, à moda antiga, cavalo velho e fraco (um tal de Rocinante), e que de tanto ler e tão pouco dormir, veio a perder o juízo. Dizem. Jordi Savall, rosto da música antiga, cuja busca se parece à de Quixote, só que sempre com mais e melhores descobertas, dedicou um livro com dois discos à música que conta estas histórias, de romances de cavalaria. E é assim que partimos por aí, lutando contra os famosos moinhos de vento. Com Quixote, Lancelot, Artur e todos os que, com mais ou menos loucura, acreditaram nos sonhos.

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Primera Parte – Primeras Andanzas, Capítulo II:
Romance Viejo De Lanzarote, “Nunca Fuera Caballero?” (Anónimo)
Jordi Savall, Montserrat Figueras, Hesperion XXI, La Capella Reial de Catalunya

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27 de Março de 2015 – Requiem

27 de Março de 2015

faureHoje apeteceu-me voltar a ouvir, com olhos de ver a partir de outro ponto de audição, o Requiem de Fauré. Não haverá coisa mais inexplicável do que a morte, apesar de ser uma das mais óbvias de todas. Tudo filtrado, parece que, afinal, a vida é fácil, não é simples. É fácil, porque não é mais do que uma manifestação da natureza, um processo perfeitamente normal no contexto dos processos de todo o universo, à devida escala. Não é simples, por tudo o que lhe pomos dentro. E dentro do Agnus Dei do Requiem de Fauré está, hoje, tudo o que quero pensar sobre isso. Que é mais ou menos isto, e já não é pouco. O resto, vem com a música.

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Requiem – G. Fauré (V. Agnus Dei)

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nadiaNão consigo ter, hoje, senão um enorme silêncio. O silêncio que me impuseste. Feito de todas as músicas, possíveis e impossíveis, que fizemos e que não fizemos. O silêncio que prende as vozes, sela as bocas. O silêncio que nos deixa inertes. Que nos questiona como foi possível. Como foi possível que tivesses vivido. Hoje não consigo ter senão saudades. De não ser preciso escrever, ditar, anotar. De ser preciso apenas fazer música. De tudo acontecer como, quando e onde tivesse de acontecer. Sem porquês que não os de fazer acontecer. De forma cristalina. Forte. Segura. Hoje não consigo senão ter um enorme ponto de interrogação à minha frente. Um ponto de interrogação que divide o mundo em antes e depois de ti. Curvado até à exaustão. A interrogar tudo. E a colocar o último ponto na pergunta: o que é que eu faço?

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Há coisas que não se conseguem dizer, porque não cabem numa palavra, nem numa frase, nem num texto, nem num livro. Há coisas que não se conseguem dizer, porque são demasiado grandes para conseguirmos decifrar o que são. Há coisas que não se conseguem dizer, porque são tão bonitas, tão bonitas, que dizê-las nunca é suficiente, e seria preciso dizer muito para explicar apenas um bocadinho. Há coisas que parece que só se consegue dizer com recurso a imagens, a sons, a algo mais largo do que algumas letras alinhadas. Há coisas que se dizem através do «Salut d’amour» de Edward Elgar. Há coisa que ficam, assim, ditas.

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say-nameHá dias em que parece que nenhuma das nossas palavras nos serve. Quando nos aparecem, avassaladoras, as de alguém que parece estar a dizer-nos exactamente o que queremos dizer. Foi assim hoje, com Mia Couto. «Diz o meu nome». É assim que começa o verdadeiro turbilhão de música nas palavras, de sensações que flutuam a cada frase. A pedir que digas o meu nome. Que me digas, no meu nome, como se cada sílaba te queimasse. Que me digas com suavidade, como se fosse uma confidência. Que me digas como quem vê. Como quem olha por dentro, como a Blimunda de Saramago. «Diz o meu nome». E assim, quando o disseres, eu, esquecido de mim, ouço-te, ouço-me pela primeira vez. E tu sorris. E o mundo começa.

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho’

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