
Chegou hoje ao fim uma verdadeira viagem no tempo, em que o caminho foi feito de uma profunda aprendizagem, a todos os níveis. O Vocal Ensemble apresentou, nos «Dias da Música» do Centro Cultural de Belém, «A voz das Sibilas», um concerto onde o compositor Orlando di Lasso demonstra que um compositor pode sempre (assim o queira) surpreender o intérprete. As Sibilas seriam umas entidades semi-divinas, vaticinadoras, tidas como sábias e capazes de formular profecias. Há textos belíssimos, pinturas fabulosas, todo um mundo místico absolutamente encantador, que merece ser descoberto. Descobrimo-lo através da música. Chegando à música, depois do percurso feito pela literatura antiga. Foi uma experiência única, que culminou num concerto muito interessante, e que dava vontade de repetir.
Sabe bem pisar palcos importantes, na exacta medida que nos responsabilizam e nos tornam melhores no que fazemos. Às vezes, somos peixes fora de água. Outras vezes, parece que todo o resto do mundo deixa de existir, e só existe a música, aquela música que se está a fazer, naquele momento, e que é aquela, e não outra. Saboreio este tempo. Penso no futuro. Penso que talvez não volte a pisar palcos importantes. Ou que irei a outros. Penso na música. Penso em como Lisboa é incomensuravelmente grande. Incomensuravelmente maior do que o resto do país. Incomensuravelmente o centro do país. As coisas acontecem aqui. As oportunidades acontecem aqui. Absorvo tudo, com tempo. Estou aqui. Até domingo.
Os «capitães de Abril» vão estar ausentes das comemorações do dia da liberdade, e Vasco Lourenço, principal rosto da Associação 25 de Abril, continua a alimentar o ruído habitual na engrenagem de comunicação. Laivos esquerdistas são habituais, por esta altura. Manifestações. O vermelho a pautar as imagens televisivas, na defesa da classe trabalhadora, que se ergue a 1 de Maio. Vasco Lourenço não só quis marcar a diferença com o golpe da cadeira vazia, como articulou o discurso com argumentos de interessante efeito retórico. Para este militar de Abril, os eleitos já não representam os eleitores. Porque o povo não pediu para ser «vendido» à «troika». Pois bem, se fizermos o exercício ao contrário, também não podemos considerar que Vasco Lourenço e a Associação 25 de Abril representem o povo português e a sua «luta». Que acções tem promovido? Que debates tem promovido? Em que combates se tem envolvido? Que documentação ou posição sobre assuntos relevantes tem produzido? Quem procurar na página oficial da associação, encontra apenas referência ao habitual torneio de bridge. E talvez isso seja motivo suficiente para o povo português deixar a cadeira vazia na festa da Associação 25 de Abril.
Mergulhei, hoje, na «Inveja» de Zuenir Ventura. Além de pecado capital, é um «mal secreto». Os (bons) escritores brasileiros têm esta coisa de simplificar, de uma forma absolutamente espectacular, o que parece ser complicado, e que nós portugueses temos tanta habilidade em tornar ainda mais complexo. As palavras vêm com açúcar, apetece serem saboreadas. As histórias vêm com outro tempero. O pensamento vem com outra fluidez. «Ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é querer que o outro não tenha». É o melhor ponto de partida para descobrir o «mal secreto» da inveja. Com soberba, avareza, luxúria, ira, gula e preguiça.
E, de repente, um dos mais proeminentes cientistas nacionais estava ali, diante de mim. Do alto dos seus 84 anos (não haverá engano?), falava à plateia sobre como «deu a volta» às voltas da sua própria vida. Daniel Serrão apresentava o livro em que fala, acima de tudo, da sua vida, da sua postura sobre a vida. Decidiu chamar-lhe «Aqui diante de mim». E ali estava ele, diante de mim, pronto a ser fotografado. Não quis estar sentado. Não quis microfone. Quis estar activo, como é, como na caminhada diária de vários quilómetros que faz. No final, trouxe um exemplar, devidamente autografado. Para que fique ali, diante de mim.
[Fotos em actualização]
«Vá lá, vá lá, podia ser pior» é o «motu» de um grupo de tertúlia cultural das Caldas de São Jorge, Santa Maria da Feira. Hoje, participámos musicalmente numa acção deste grupo, dando a conhecer, através de um novo monumento e de uma interessantíssima conferência, a vida de São Jorge. D. Carlos Azevedo, membro do Pontifício Conselho de Cultura, o professor Caio Boschi, da Universidade Católica de Minas Gerais (Brasil) e o professor Eugénio dos Santos, conhecido professor jubilado da Universidade do Porto, deram a conhecer a vida (real e romanceada) de um santo que deu nome a um lugar. Nós demos a música. Muita. E boa. «Vá lá, vá lá, podia ser pior».
Enquanto desfrutávamos de um agradabilíssimo jantar de amigos, íamos passando os olhos pelo Barcelona/Real Madrid, e falando sobre Ronaldo, quando o homem resolve disparar como uma flecha para a baliza adversária, rematar para golo, e aconselhar calma aos milhões de espectadores do desafio. É curioso pensarmos, agora, nas implicações de algo que aconteceu numa fracção de segundos. Ronaldo como que nos fez ver, e de que maneira, que, afinal, ele está ali. E tem (sempre) uma palavra a dizer. Ele é, provavelmente, o único grande «galáctico» da equipa do Real Madrid, que não tem, nem de perto nem de longe, o «estrelato» do Barcelona. Portanto, calma. Ronaldo e o Real Madrid ainda têm uma palavra a dizer sobre o campeonato espanhol. Porque, de repente, podem correr como uma flecha em direcção à baliza, e marcarem o golo decisivo.
Com muito gosto, pude colaborar com o meu amigo José Eduardo Silvestre, captando alguns instantâneos de obras suas. Foi bom ver que, entretanto, as fotografias ganharam alguma vida, e serviram para dar a conhecer os objectos que retratam. Quando se espreita por uma lente, escolhe-se um enquadramento, afirma-se uma posição perante o que se vê. É sempre uma posição criticável, muito mais quando se percebe apenas o mínimo indispensável. De todo o modo, as imagens andam por aí. E sabe bem.
Umberto Eco preferia chamar-lhe «escritos ocasionais», mas um homem da semiótica e da semiologia não conseguiria deixar que um título fosse tão leve. Trata-se, de facto, de uma série de escritos ocasionais, em que o autor foi respondendo aos convites para conferências ou pequenos ensaios temáticos sobre assuntos de que, à partida, não estava à espera. O primeiro, chama-se mesmo «Construir o Inimigo», e agarra-nos logo na primeira linha. Na primeira frase. Na primeira palavra. Eco conta-nos a história dos inimigos desde que se consegue reflectir sobre isso. Cita-nos fontes históricas. «Olha-nos» o inimigo, observa o conceito, de todos os ângulos possíveis e imaginários. E depois, parece que nos conta a história. Depois, há textos sobre o Absoluto, o Fogo, o porquê de chorarmos a sorte de Anna Karenina, as astronomias imaginárias, os tesouros das catedrais, as Ilhas Perdidas, Victor Hugo e seus excessos, o mecanismo do reconhecimento no folhetim, a ventura ou desventura de Joyce na época fascista, e um pequeno grande «etc.».
Acabo de descobrir um livro que me fez recordar um antigo suplemento do «Diário de Notícias» que, enquanto durou, era absolutamente obrigatório, pela sua elevada qualidade: o «DNa». Todos os sábados, no «DNa», Edson Athayde publicava uma crónica, publicações regulares essas que deram origem ao livro «Os 3Ões». Basicamente, são deliciosas histórias sobre os homens de trinta anos, segundo o tio Olavo. Às vezes mais «machistas», se quisermos adoptar esse ponto de vista, outras mais realistas, umas vezes fantasista, outras nem por isso. São pequenas sagas de quem ultrapassou a fasquia do 3 na casa das dezenas. A leitura é simples, mas é frequente fazermos grandes e surpreendentes descobertas naquilo que é simples. Como por exemplo este regresso bom aos tempos do «DNa». Só para começar. O resto, virá ao longo das páginas.