Erradamente, passamos a vida a tentar inventar a roda. Continuamos a pensar que ainda há algo por descobrir, algo por fazer, algo por inventar. Mas não. Por muito que continuemos a querer inovar, os fundamentos do que fazemos estão lá atrás, no tempo. Hoje, estão na moda os Serviços Educativos. Bem entendido, há muita coisa a fazer. Mas a inventar, há pouco. Leonard Bernstein esteve na origem dessa “invenção” que aliou a educação à música, com os “Young People’s Concerts”. É incrível como conseguimos olhar para estes programas, ainda a preto e branco e com inúmeras limitações técnicas, que hoje facilmente se contornariam, e achamos que foram feitos ontem. Bernstein era um grande músico, um grande maestro e um grande educador. Ao que poderíamos acrescentar um grande comunicador. A sua biografia lança várias interrogações, seja no domínio social, afectivo, político até. Mas sobra a música, e isso é tudo. Hoje, Bernstein faria 96 anos. Se todos os que foram tocados pela sua música e pelos seus ensinamentos se expressassem em conjunto, talvez o mundo todo se transformasse numa grande orquestra.

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Actor-Comedian Robin Williams Dies At 63A notícia da morte de Robin Williams trouxe consigo, em poucos segundos, vários pensamentos. O primeiro, desde logo, regressando àquele Verão em que a sua presença foi constante, entre matinées e serões, com «Dead Poets Society», «Good morning, Vietnam», «Awakenings» ou «Good will hunting». De como a sua versatilidade se tornou referência, e de como as suas personagens sempre carregavam uma aura de sonho e simplicidade. Outro, logo de seguida, foi o de associar Williams ao «Palhaço Pobre». O Palhaço Pobre é sempre o mais engraçado, mesmo atolado na sua desgraça. E sabe disso, e vive isso. Na «Time», Jim Norton escreve que talvez nunca consigamos perceber por que razão Robin Williams decidiu combater a dor, terminando com a vida. Williams não se via a si mesmo como todos o víamos. Talvez não se sentisse trinfador ou cheio de «glamour», mas triste e incompleto. As pessoas mais engraçadas são, na maioria das vezes, as mais escuras. É talvez desse abismo profundo que vem, precisamente, o profundo sentido de humor. A tristeza do palhaço é a maior ironia do «showbusiness», escreve Simon Jenkins no «The Guardian». Só que Williams não era um palhaço qualquer. Ria e chorava. Gesticulava e disfarçava-se. Dominava a fúria e a gargalhada. Mas só uma dicotomia o traiu. Se a sua «doença» fosse física, talvez um minucioso cirurgião conseguisse, após uma qualquer operação demorada, curá-lo. Mas a luta aqui era outra. E na luta contra si mesmo, Williams perdeu, ao continuar a ser o mais engraçado, mas o mais triste.

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leonorDesculpa, Leonor. Desculpa, antes de mais, por só te ter abraçado tão tarde. Desculpa por ter andado tanto tempo a pensar nas palavras ideais, e não as ter ainda encontrado. Desculpa estar a amontoá-las assim, quando tantos que te eram, de certeza, mais queridos, o fizeram com muito mais arte do que eu.

Desculpa também por só ter-te conhecido quando os teus olhos grandes se abriram num sorriso cúmplice pela primeira vez, a caminho da Casa da Música. Não te peço desculpa por te ter conhecido por causa da música. Aliás, essa foi uma das coisas mais saborosas que a arte me podia ter dado.

Sabes, a vida tem acelerado de uma forma avassaladora, e isso tem-me feito pensar ainda mais em ti. Na energia que transmites a partir de um ser aparentemente pequenino, mas tão grande, tão grande. Gosto muito de ti, miúda. Mesmo muito. E é por isso que guardo na memória cada palavra que me disseste, cada momento de alegria que te pude ajudar a viver e com que me presenteaste, cada gargalhada que te consegui fazer soltar. Desculpa só te ter abraçado aquelas dezenas de vezes, antes e depois do concerto que fizemos. Desculpa por não ter feito mais música contigo.

Vou lembrar sempre as últimas palavras que me disseste, e a forma serena e convicta com que as disseste. Vou procurar vivê-las, como quiseste vivê-las. Vou fazer delas a melhor lição que alguém me poderia ter dado, de forma tão simples e tão clara. Revejo-me muito em ti, envolvida até ao osso em tudo o que escolheste para dedicares o teu tempo e o teu talento. Mas deixa-me que te diga, o teu maior talento foi viveres. Não consigo ter saudades tuas, porque continuo a procurar-te todos os dias. Continuo à espera de voltar a cruzar-me contigo como da última vez, e ver os teus caracóis dourados a saltarem de ti como molas, e a dizeres-me olá com a tua voz de anjo castiço, um olá rápido, porque era urgente dar um abraço.

Era mais ou menos isto que te queria dizer, de forma dispersa, desorganizada, desleixada, distraída até. Também, não são as palavras que vão fazer grande diferença, muito menos as minhas. Prometo-te que vou guardar as que a tua mamã nos deu, depois de teres brilhado na sala grande da Casa, e eu a ver-te sorrir, com o saxofone bem apertadinho no teu abraço. Prometo-te que vou continuar a procurar as duas cartas especiais do baralho de jogar que perdeste ao vento, enquanto nos distraíamos um pouco. Prometo que vou continuar à tua procura, à espera de te reencontrar, como da última vez, formosa e segura, e ver-te chegar com os caracóis aos saltinhos, rasgares um sorriso, dizeres olá e dares-me um abraço. Depois, vou ficar para sempre sentado nos degraus da praça a ver-te brincar, até vires ter comigo e voltares a dizer-me que a vida tem de ser vivida com intensidade. Para que eu não esqueça. Nunca.

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11 de Julho de 2014 – Cosmos

11 de Julho de 2014

A série imortalizada por Carl Sagan tem um novo formato, mas o conteúdo é mais ou menos o mesmo e a forma como nos interroga sobre a nossa posição no universo mantém-se. Para já, os dois primeiros capítulos são suficientemente ricos em ideias para reflectir. A começar pela perspectiva. Pela escala. Pela dimensão e importância que reconhecemos às coisas. Passando, também, pelo questionamento da nossa presença aqui. Que sucessão de acontecimentos e “acasos” teve de suceder para que chegássemos aqui. E se recuarmos até ao “Big Bang”, a questão mantém-se. Por que razão foi naquele preciso momento que as condições estritamente necessárias foram reunidas? Na realidade, mais do que respostas cabais, é interessante procurar as perguntas certas.

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mulher-livroAcabei de ver, com a força de quase não conseguir deixar de olhar, no muro do jardim, o corpo de uma mulher, curvado sobre um livro. E foi curioso, pensar que era como se o livro estivesse a puxar o corpo. Para outro lugar. Para outro mundo. Foi curioso ver que, mesmo sem dar conta, o físico estava a denunciar o que, realmente, estava a acontecer. É isto que os livros fazem. Mesmo que, à volta, esteja a acontecer o apocalipse. É esta a magia do livro. A de nos fazer curvar, até conseguirmos entrar na porta que abre. Página após página.

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ravel-labequeAcabo de receber de presente de viagem o álbum “Maurice Ravel”, da dupla de pianistas (e irmãs) Katia e Marielle Labèque. Conheci as irmãs Labèque por causa da performance original do famoso “Bolero”, de Ravel, com o trio basco “Kalakan”. Devo o presente (autografado, ainda por cima) ao meu grande amigo Avelino Vieira, que me deixou roído de inveja por não ter podido ver o concerto que juntou as irmãs Labèque aos “Kalakan”, no Théâtre des Champs-Élysées, em Paris. É curioso que, numa altura em que as plataformas comerciais da música nos permitem passar, de um segundo para o outro, do mais erudito ao mais espontâneo, continuemos a ser exigentes na forma como os concertos são organizados e orientados. Pois bem, estes músicos fazem questão de romper com os rituais que presidem aos tradicionais recitais pianísticos, por exemplo. Antes procuram interrogar-nos através do ouvido, romper com hábitos. Não discriminam a (excelente) música folclórica, antes a colocam lado a lado com a música erudita, rompendo discriminações e rasgando novos ritmos, cores e horizontes. O disco só traz Ravel. A dois pianos, que soam como um só. É como se, com toda a delicadeza, nos colocassem as paisagens sonoras do compositor na ponta dos dedos.

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gaioFico com a sensação de que somos urbanos demais. Os pombos passaram a ocupar os espaços que, outrora, eram morada de férias das andorinhas. Já não vemos pardais com tanta regularidade. Ao menos os melros, de vez em quando, dão um ar da sua graça. Mas hoje voltei a ver os gaios e as rolas. E voltou à memória um gaio falante que havia na vizinhança. Não era muito variado, o discurso. Limitava-se a chamar alto pelo Zé. E as rolas “rolando”, há tanto tempo as não ouvia em liberdade. E lembrei-me de ti, João. De como a infância passou demasiado depressa. Tão depressa, que nos impede de recordar os pormenores de cada dia. Até o gaio e a rola voltarem a aparecer. Livres. E aí, recordamos muita coisa. Quase tudo. A vida.

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bandeira-nacionalO padre José Tolentino de Mendonça começa um texto sobre a esperança evocando a forma como o grande artista do Renascimento, Miguel Ângelo, a encarava. Para o pintor, escultor, arquitecto e mestre, a esperança era o que fazia com que visse numa pedra de mármore em bruto a escultura que idealizava, como produto final. E é aqui que reside toda a diferença. Miguel Ângelo via na pedra em bruto aquilo que, com o seu trabalho e minúcia, iria ser uma grande escultura, sábia e arduamente trabalhada. O que nós temos, em Portugal e, nestes tempos futebolísticos, projectada na Selecção Nacional, não é esperança. É uma espécie de fé num qualquer deus, que resolva o problema por nós. Isso não é esperança. É acreditar que o acaso nos possa ser favorável.

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ausenciaEstou há demasiado tempo sem escrever. Estou há demasiado tempo a sentir que tenho pouco tempo, que não tenho tempo, de todo, para fazer uma coisa que quase sinto que devo. Quase como se me estivesse a tornar de pedra. E assim, decidi que não vou esperar para fazer a viagem de trás para a frente. Marco, agora, o dia. Voltarei ao que passou mais tarde. Tinha urgência em voltar. Mesmo que haja dias em que não apetece dizer nada, ou dizer muita coisa que não interessa ouvir, ou apenas falar sozinho, ou juntar todos os palavrões e insultos e mandá-los contra um muro. Estou há demasiado tempo. Agora, tento reatar a ligação invisível. Até ver…

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logo-ddA dicotomia não é nova. Eça de Queiroz, de resto, extremou bem as realidades, quando colocou, lado a lado a enorme Paris, centro do mundo, e a sua pequena Tormes, centro de um quase imaginário. Hoje, os extremos estão ainda mais vincados, com a «cidade» a querer ser cada vez mais cosmopolita, e a olhar para os das «serras» como seres quase exóticos, e as «serras» cada vez mais desertificadas, a olharem para a cidade como única saída para as dificuldades que encontram, não sendo já suficiente olharmos para a «cidade» do próprio país.

Nos dias que correm, o que mais irrita, nesta espécie de extremismo, é a forma como os «seres» que continuam a não abdicar de viver nas «serras» são olhados pelos citadinos. Tolhidos pela fronteira mental, que podemos situar, por exemplo, no caso de Lisboa, entre Alverca, Santarém e Setúbal, é como se todo o resto do país coubesse confortavelmente na definição de «Portugal Profundo», essa construção mental onde cabe tudo o que é paisagem, no sentido de já não ser muito bem aquilo que interessa.

Pois bem, se argumentos faltassem, uma notícia que surgiu recentemente é argumento suficiente para defender as «serras». Segundo um estudo promovido pela empresa «Tom Tom», ligada aos aparelhos de geo-referenciação, os lisboetas passam 74 horas (cerca de três dias) por ano presos no trânsito. E os números devem pecar por defeito, ainda assim. O mesmo estudo conclui que o que os das «serras» têm como ditado popular («quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos») não podia ser mais verdadeiro. Os que, para fugir ao trânsito, tentam alternativas, acrescentam 50% ao tempo das deslocações. Em Lisboa, o nível de congestionamento ronda os 9% nas auto-estradas e os 27% nos restantes troços. A média global de congestionamento ronda os 26%.

Arouca não tem congestionamento no trânsito. Pelo menos não com uma frequência diária. Felizmente que o temos, quando há grandes eventos. E isso acaba por ser bom. Significa que vem muita gente a terras de Santa Mafalda. E ainda bem que vêm. Porque dessa forma podem ver com os próprios olhos, sentir com os próprios sentidos, que não somos tão exóticos como possa parecer. Que esse Portugal é de facto «profundo». Tão profundo que merece que «os da cidade» saiam da caixa, tirem os óculos que lhes limitam a visão, e verifiquem que é nesta «profundidade», feita à custa das identidades locais, que o país pode passar a fazer sentido. Porque enquanto continuarmos a ser governados com os óculos dos citadinos, como números em folhas de «Excel», continuaremos a ser esses «seres exóticos» desse outro tal «Portugal Profundo».

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