19 de Setembro de 2019 – O grande educador

Tentar ensinar a arte é dos desafios mais interessantes que há. O que implica, antes de mais, que tenhamos a capacidade de um deslumbramento constante, de preferência com as coisas mais pequenas que nos possam acontecer. A curiosidade é o motor da aprendizagem, na mesma medida que ensinar e aprender são verbos que se conjugam em simultâneo, e só resultam se forem colocados juntos, em cada acção. Agostinho da Silva tem esse condão de nos deslumbrar com cada pequena coisa, que na realidade se transforma em grande coisa, quando dita por si. Nas suas ‘Considerações’, como em vários escritos e entrevistas, sempre dedicou muita reflexão às questões da Educação e da Escola. E não teve grandes mesuras ao comparar a escola e a oficina, porque é preciso que se ensine e se aprenda a fazer. Mas também a escola e a arte. Porque nem uma nem outra o são apenas em si, ou apenas por serem. Mas pontos essenciais do universo, ou do mundo. Do nosso mundo. Esse que teimamos em dizer que queremos melhor, mas que talvez seja hora de irmos fazendo mais por isso.

O grande educador não pensa na escola pela escola, como o grande artista não aceita a arte pela arte; é incapaz de se encerrar na relativa estreiteza de uma vida de ensino; a escola, de tudo o que lhe oferecia o universo, é apenas o ponto a que dedicou maior interesse; mas é-lhe impossível furtar-se a mais larga actividade. De outro modo: trabalha com ideias gerais; não dirá que esta escola é o seu mundo, mas que esta escola é parte indispensável do seu mundo. 

‘Considerações’ – Agostinho da Silva

18 de Setembro de 2019 – Repetitivo

Às vezes, somos repetitivos. Mas, c’um raio, quando o motivo é bom, porque não sê-lo? Sem perceber muito bem porquê, volto a encontrar esta pecinha de Elgar, chamada ‘Salut d’amour’. Tem a simplicidade das coisas bonitas, a desenvoltura das coisas bem escritas e o sabor temperado na medida certa para nos surpreender. Diz muita coisa com poucas palavras. Talvez até possa ser repetitiva. Mas não faz mal. É muito bonita, e eu vou continuar a ouvi-la.

17 de Setembro de 2019 – Estranha forma de morrer

Há cerca de 10 dias, uma religiosa foi assassinada em São João da Madeira. A notícia foi dada, mas parece não ter tido o eco que muitos esperariam. Sinal de que talvez este (como qualquer outro) tipo de crime está a banalizar-se, ao ponto de deixar de ter eco, de gerar debate, de causar indignação, de provocar consequências. Talvez se a Irmã Antónia fosse negra, trans-sexual ou pertencesse a alguma minoria com poder de ‘lobby’ suficiente, lhe prestassem a atenção que merecia. Mas não. A Irmã Antónia pagou o preço da radicalidade em que sempre viveu. Ao escolher ser religiosa, escolheu desligar-se do mundo, pelo menos aos olhos dos que separam Deus do homem, como quem separa o trigo do joio, escolhendo para si o que julgam ser a melhor parte. Mas, na prova dos nove, o que fica é esse esquecimento, esse alheamento, esse silêncio cortante de quem só levanta a voz quando já há vagas de fundo na maré dos dias. Todos somos culpados. E são coisas como esta que nos definem, enquanto sociedade. A mesma sociedade que, depois, não vota, não se define quando chamada a responder a referendos e passa a vida a debater questões, esgotando argumentos sem nunca chegar a uma conclusão que nos faça crescer.

16 de Setembro de 2019 – Uma semana para Duarte Lobo

A semana que agora começa é rica em música. Promete ser rica em trabalho, mas deverá culminar com um concerto cuja música nos leva para outras dimensões. O meu amigo Luís Toscano, responsável pelo ensemble ‘Cupertinos’, escolheu um programa dedicado a Duarte Lobo, compositor português que viveu entre 1565 e 1646. Uma música maravilhosa, feita por gente maravilhosa, a quem vou ter o prazer de juntar-me. O concerto será na Basílica do Bom Jesus, em Braga, na sexta-feira, dia 20, às 21:30.

‘Audivi vocem de caelo’ – Duarte Lobo (Les Voix Animées)

15 de Setembro de 2019 – Questões de identidade

O Município de Arouca apresentou uma nova marca. Algo que quer assumir como uma nova identidade gráfica, que se adapta às várias vertentes que pretende comunicar, aos vários locais emblemáticos do que se convencionou chamar de território, às necessidades de uma informação mais rápida e moldável. Pude acompanhar o arranque deste projecto, muito bem pensado e fundamentado pelo meu amigo Rafael Gilde. Tive pena de não conseguir vê-lo desenvolver-se e chegar a este ponto, por dentro. Mas o importante é que a tal identidade está aí, e será o que se fizer com ela daqui para a frente. Uma mudança nunca é bem acolhida, nos primeiros tempos. Haverá críticas, umas mais justas do que outras. Mas esta nova identidade será, a partir de agora, o que os arouquenses quiserem que seja. Daqui a algum tempo, quando estiver assimilada, vai ser a nossa assinatura. Aí, vamos perceber que é mesmo isso, e que cumpre na perfeição o propósito.

14 de Setembro de 2019 – Francisco quer (pôr-nos a) falar sobre Educação

Há cinco anos, o Papa escreveu a encíclica Laudato Si’, onde lança um debate cada vez mais na ordem do dia. O consumismo, a importância de cuidarmos da casa comum, um olhar atento sobre o futuro. Há cinco anos. Para assinalar a data, Francisco quer debater a Educação a uma escala global, como meio fundamental para a mudança necessária. A 14 de Maio de 2020, o Papa quer que todos os caminhos vão dar a Roma, para se reconstruir um pacto educativo global. Queiramos ou não, estamos a viver mudanças que alteram profundamente conceitos fundamentais que herdámos da cultura e da antropologia, novas linguagens que rompem com a continuidade da história. E tudo isto acontece a uma velocidade furiosa. Diz o senhor do vídeo que temos de ter coragem de pôr a pessoa no centro de tudo; a coragem de usarmos as nossas melhores energias; a coragem de formarmos pessoas que se coloquem ao serviço da comunidade. O desafio é complicado, mas, com Francisco, parece tudo valer a pena.

Um encontro para reavivar o compromisso em prol e com as gerações jovens, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão.

Nunca, como agora, houve necessidade de unir esforços numa ampla aliança educativa para formar pessoas maduras, capazes de superar fragmentações e contrastes e reconstruir o tecido das relações, em ordem a uma humanidade mais fraterna.

Papa Francisco

13 de Setembro de 2019 – Ir ao Pedrógão

Lembro-me da Susana desde muito pequeno, e a imagem que tenho dela é de alguém sempre a sorrir. A Susana tem um rosto que sorri, mesmo quando ela não quer, ou não consegue. Nessa altura, estava longe de prever que a Susana ia transformar-se numa cozinheira daquelas… Desde que, com o marido António, deram vida do restaurante do Pedrógão, só de pensar neles e naquela aldeia, é inevitável salivarmos. Hoje voltei ao Pedrógão, com dois amigos que começam a acreditar que a Susana faz as melhores trutas de escabeche do mundo. Eu, que já tinha alguma certeza disso, começo a achar que sempre acreditei que sim. E não é só. A Susana faz um javali estufado, daqueles de molhar o pão no molho, uma sopa-seca divinal e um leite-creme a que não se resiste. Bem, o António também ajuda. Abre-nos a porta como se fôssemos de casa, e só o facto de vir trazer-nos umas fatias de presunto, uma broa caseira ainda quente e uma garrafa de vinho, já faz dele um dos nossos. É por causa destas duas pessoas, que insistem em manter viva a sua aldeia, que, sempre que se vai ao Pedrógão, apetece voltar.

12 de Setembro de 2019 – 11 de Setembro de 2001

Como uma pedra lançada à água, o que aconteceu a 11 de Setembro de 2001 acabou por gerar ondas de consequências, que ainda hoje (para sempre?) vivemos. A internet ainda não tinha a força e a omnipresença que tem hoje, mas a televisão já nos permitia irmos acompanhando em directo o que ia acontecendo, e aos pontos de interrogação íamos acrescentando os de exclamação, para, por fim, deixarmos gritar o silêncio das bocas abertas de espanto perante o que estava a acontecer ali mesmo, diante dos nossos olhos, com repercussões que vinham desde aquelas torres a colapsar até às pontas dos nossos dedos. Nos dias seguintes, foram muitas as publicações, nomeadamente revistas e jornais, que fizeram sair edições especiais, com notícias o mais actualizadas possível. Alguns diários fizeram edições de manhã e de tarde, e todos estávamos conscientes de que aquelas páginas iam ser fundamentais para se escrever, um dia, a história do que estava a acontecer. Hoje, avançámos 18 anos. Como alguém escreveu algures, quem nasceu nessa altura, poderá, em Outubro, votar pela primeira vez. Essa geração, se assim lhe podemos chamar, não viveu estes acontecimentos em directo. Essa geração, se assim lhe podemos chamar, na sua larga maioria, não leu, desde que nasceu, um único jornal. Essa geração será responsável por, e sentirá os efeitos de, mais um anel de consequências do que aconteceu a 11 de Setembro de 2001.

11 de Setembro de 2019 – Porn food

De vez em quando, sem contar, conseguimos ser uma espécie de turistas na nossa própria terra. E, também sem contar, conseguimos surpreender-nos com verdadeiras pornografias gastronómicas. Desta vez, o responsável pela desgraça foi o meu amigo Nuno Costa, que nos apresentou um ‘costeletão’ especial, em que os sabores da serra se cruzam com os do mar, numa simbiose que podemos considerar perfeita. A pornografia consiste numa costeleta (um quilograma de carne), unida a uma camada de camarões deliciosos por um queijo derretido, com ervas aromáticas. Só a junção destas palavras, já faz salivar o suficiente para recomendar que provem. Porque tudo o que se diga, ficará aquém do sabor.