3 de Janeiro de 2020 – You only cross my mind in winter

Há canções que nos entram no ouvido de tal forma que se nos entranham no coração. Como uma canção de Inverno, esse Inverno onde volto de vez em quando, lembrando que foi no Inverno que voltei a casa, é no Inverno que volto a casa. O mesmo Inverno que me habituou ao cheiro da pedra húmida da neve e da geada. Do fumo das chaminés, que nos leva às lareiras. Dos cachecóis e dos gorros. De gente na rua só quando tem de ser, para que os encontros sejam ainda mais ‘sorridos’. Mas também o Inverno onde procuro as tuas pegadas, não para as encontrar, mas porque elas ficaram ali marcadas. O Inverno em que foste, em que chegaste, em que o frio se entranha na carne, mas não chega ao coração. Porque, no coração, está a música. Vem. Ouve.

Sting/J.S. Bach – ‘You only cross my mind in winter’

But something makes me turn, I don’t know, 
To see another’s footsteps there in the snow, 
I smile to myself and then I wonder why it is 
You only cross my mind in winter

Sting

1 de Janeiro de 2020 – Morgen

Hoje é o dia em que, ontem, teremos dito, mesmo que em silêncio, que amanhã o sol voltará a brilhar. Amanhã, no caminho que percorrermos, voltaremos a encontrar-nos e, em nós, a encontrar a felicidade. Talvez numa praia de areal largo, que iremos percorrer, até às ondas azuis do mar. Esse mar que nos inundará o olhar. Esse olhar único, olhos nos olhos. Num silêncio de felicidade.

‘Morgen’ – Richard Strauss (Joyce DiDonato)

30 de Dezembro de 2019 – The loudest voice

Ver Russell Crowe vestir a personagem de Roger Ailes, criador da Fox News, é algo que, sem se ver, pode parecer improvável. Mas, depois de vermos, não conseguimos deixar de continuar a ver, quase como uma compulsão, imposta pela permeabilidade e tenacidade que Crowe consegue trazer de Ailes para nós. Numa altura em que destrinçar o que são notícias e o que é ruído se vai tornando cada vez mais difícil; numa altura em que Trump e outros que tais comandam países (o mesmo Trump que se fez muito à custa da Fox); numa altura em que sensacionalismo, oportunismo e histeria generalizada são o dia-a-dia; parece fazer sentido, mais do que nunca, o que Roger Ailes dizia com frequência: ‘o público não quer ser informado, quer acreditar que está a ser informado’. Depois, há o historial de abusos de poder, de abusos sexuais, de manipulação, do que são as notícias e do que é a forma como as encara quem as faz, quem as veicula e quem as recebe. No meio disto tudo, há uma voz que se ouve mais alto. A de Ailes.

29 de Dezembro de 2019 – Pinocchio

O ano está quase a começar, e com ele vem um desafio grande. O de dar corpo sonoro a uma obra já muitas vezes revisitada, o famoso ‘Pinóquio’, de Carlo Collodi. Este corpo a que queremos dar vida, é diferente. É uma música interessantíssima, composta por Pierangelo Valtinoni, que tem tido a enorme paciência de responder a mensagens de correio electrónico com uma amabilidade desconcertante. Espera-nos um trabalho árduo, mas ele torna-se alegre, quando o propósito é fazermos coisas bonitas. Aqui fica um bocadinho dessa música lindíssima, o excerto em que Pinóquio se apercebe da sua desgraça e se lembra de quem lhe deu vida, mas em que, ao mesmo tempo, não desiste dos sonhos, como que pressentindo que algo bom irá acontecer, e as coisas irão consertar-se. Esta é, mais ou menos, a parte em que estamos agora. ‘All’opera, all’opera’.

‘Pinocchio’ (exc.) – Pierangelo Valtinoni

28 de Dezembro de 2019 – A primeira tentação de Cristo

Vamos muito mal quando não somos capazes de rir-nos de nós próprios. Talvez seja, precisamente, aqui que começa o (bom) sentido de humor. O Brasil resolveu ater-se a uma árvore, em vez de rir da e com a floresta. O colectivo humorístico ‘Porta dos Fundos’ produziu e realizou, para a Netflix, um especial de Natal, com o título ‘A primeira tentação de Cristo’. E quem vê o pequeno filme, sem o pré-conceito que as muitas reportagens televisivas sobre o assunto nos venderam, pouca importância dá ao facto de a personagem de Jesus Cristo ser ou não ser, ou não ter a certeza de ser ou não, gay. Ou de Deus, Maria e José terem uma relação ‘aberta’. A caricatura, o humor, vive (vivem) do exagero. E podemos atingir esse exagero com mais ou menos refinamento, mas cada um pode (e deve) ser capaz de olhar criticamente para as coisas, e formular o seu juízo. Tal como rirmos de nós próprios é (deve ser) um acto profundamente individual.

27 de Dezembro de 2019 – Concerto de Natal

Foto: Avelino Vieira

Aproximando-se o final de cada ano, mais do que sabermos, já sentimos que é obrigatório juntarmo-nos, para que este concerto seja uma realidade. É uma espécie de prolongamento do espírito familiar do Natal. Apesar das limitações, apesar das dificuldades, apesar de tudo, juntamo-nos, e fazemos, juntos, isto. Tentando, a cada ano, que algo de diferente aconteça. Mostrando, ainda que só um bocadinho, que trabalhamos, todo o ano, para fazer coisas assim. Conseguindo, sempre, o carinho do público, sempre presente, sempre apreciador, sempre aplaudindo. A música tem destas coisas, e Arouca é uma terra de músicos. Esta é, de certa forma, uma pequena prenda de Natal que damos a Arouca e aos arouquenses. Pode, nem sempre, corresponder às expectativas. Mas é, sempre, todos os anos, uma prenda com muito valor.

26 de Dezembro de 2019 – Years and Years

Tentar prever um futuro não muito longínquo pode ter a mesma dose de facilidade como de dificuldade. Tentar, é seguir um caminho, e ver, cosendo todas as partes, no que dá. ‘Years and Years’ é um pouco isso. Os Lyons, de Manchester, vivem uma vida absolutamente normal, até que, numa noite do ano 2019, um míssil nuclear explode, alegadamente, algures no oriente, transformando-se num acontecimento com repercussões globais. A economia desmorona-se, a política entra em desvario, a sociedade desorienta-se. Tudo isto, ao longo de 15 anos, retratados em seis episódios, com as vidas a fazerem e desfazerem coisas, sob o olhar sempre imperial da avó Muriel, quase centenária. Vale a pena ver.

25 de Dezembro de 2019 – Presente (no) Natal

É interessante que se associe a palavra ‘presente’ ao Natal. A troca de presentes foi tomando conta de um ritual que sempre esteve muito para além disso. O Natal é a altura do ano em que todos queremos estar presentes. E esse, é o maior presente que se pode dar e receber. Termos a certeza de que, durante aquele tempo, não estaremos dependentes do passar do tempo, das tarefas a realizar, das metas a atingir. Termos a certeza de que basta estarmos. Darmos tempo e espaço para que as coisas aconteçam, para que os sorrisos se rasguem, para que as saudades, em alguns casos, se dissipem. O Natal existe porque alguém se fez presente, e continua a fazer-se presente, em nós e no que fazemos. É por isso que não haverá presentes de Natal. Haverá, sim, um presente no Natal.

24 de Dezembro de 2019 – A terminar afinações

O órgão é um instrumento maravilhoso, que, para ser afinado, precisa da paciência, minúcia e precisão de um relojoeiro ou de um cirurgião. Nos últimos cinco dias tive o privilégio de acompanhar de perto os trabalhos realizados em dois fantásticos instrumentos: o órgão de tubos do Mosteiro de Arouca e o órgão ‘Grenzing’ da Igreja Matriz de Chave. Foram dias de enorme aprendizagem, com a oportunidade de conhecer ainda melhor as entranhas destes instrumentos, o que os faz soar como soam, o que fazer para permitir que mantenham as suas vozes o mais límpidas possível. Terminámos na noite de Natal. Terá sido, eventualmente, uma espécie de prenda.

11 de Dezembro de 2019 – A morte melancólica do Rapaz Ostra

É impossível ficar-se indiferente ao mundo único e paralelo para o qual Tim Burton nos faz viajar, sempre que cria alguma coisa. Basta pensarmos nos filmes que realizou. Desta vez, a viagem é através da literatura e da ilustração. Ao longo das páginas do pequeno livro, as viagens são alucinantes, e com companhias tão extravagantes quanto quase reais. A certa altura, pensamos que também nós já pensámos, já vimos, já sonhámos com aquelas personagens, com estaturas e figuras não muito diferentes, com histórias e vidas muito parecidas. ‘A morte melancólica do Rapaz Ostra’ é só um pretexto para desfiarmos o novelo das histórias. Em versos simples, como quando éramos crianças e até os cadernos de duas linhas podiam ser divertidos. Quando os limites da imaginação eram os únicos que contavam, Quando podíamos contar (e viver) todas as histórias que quiséssemos.