18 de Março de 2020 – A Cultura, bem de primeira necessidade

Monika Grütters, Ministra da Cultura alemã (Foto: Günther Ortmann/Getty Images)

A Ministra da Cultura alemã disse que não ia deixar ficar mal os agentes culturais. Cumpriu. Monika Grütters conseguiu fazer com que Angela Merkel e o seu Governo considerassem a Cultura como bem de primeira necessidade, beneficiando de medidas como uma ajuda directa de largos milhões de euros e acesso a uma linha de financiamento ilimitada, sobretudo para manutenção de empregos. A Ministra não deixou de sublinhar que, na situação em que nos encontramos actualmente, é fácil percebermos que a Cultura não é um luxo, e que não podemos prescindir dela por tempo indeterminado. ‘Ouviremos as preocupações dos agentes culturais, e trabalharemos para garantir que estes possam aceder às medidas de apoio e de liquidez. Temos de reagir às adversidades, que não são culpa nossa, mas que têm de ser compensadas’. A notícia do ABC (jornal espanhol) é de leitura obrigatória.

17 de Março de 2020 – Johann Sebastian Bach: Matthäus-Passion

Johann Sebastian Bach: Matthäus-Passion (St Matthew Passion) / Sir Simon Rattle, conductor · Berliner Philharmoniker · Rundfunkchor Berlin (Simon Halsey, chorus master) · Knaben des Staats- und Domchors Berlin (Kai-Uwe Jirka, chorus master) · Peter Sellars, ritualization / Recorded at the Berlin Philharmonie, 11 April 2010

É nestas alturas que me invade uma certa tristeza por não saber falar alemão. A gravação já tem 10 anos, e a música séculos, mas é uma obra tão monumental, que tem de ser percebida no seu todo. Bach construiu algumas catedrais, duas delas as Paixões. Hoje, deixei-me invadir e levar até ao infinito pela Paixão segundo São Mateus. Que música fabulosa. Que equilíbrio. Que tudo. Não há nada que não esteja lá. Tudo na proporção necessária, no tempo necessário, no momento oportuno. Nesta performance da Orquestra Filarmónica de Berlim, o que há de novo é a ‘ritualização’ ou encenação da obra, magnificamente pensada por Peter Sellars. Apesar da sobriedade de uma versão de concerto, a intensidade dramática está toda lá, com o narrador a viver e a sentir o que Cristo terá vivido e sentido nos momentos que antecederam a sua morte. Tudo, resulta num concerto lindíssimo, que nos faz lembrar, nestes tempos de quarentena e de Quaresma, a caminhada que temos de fazer para a redenção, para o cimo da montanha, para a passagem da morte à vida. Por tudo o que lá está, por tudo o que não está, e pela imensa grandeza desta música, o dia está ganho.

16 de Março de 2020 – Uma música que não saía da cabeça

Há várias semanas, havia uma música que não me saía da cabeça. Uma música indizível, com tanto de misterioso como de belo, com tanto de puro como de forte, com tanto de estático como de água em movimento. Vai-se a ver, e era o terceiro andamento da Sinfonia n.º 3 de Johannes Brahms. Em tempo de quarentena, o Concertgebouw (tal como muitas outras salas de concertos que têm serviços em ‘streaming’) resolveu disponibilizar gratuitamente os vídeos da sua sala de concertos virtual. E pronto. Já há coisas bonitas para desvendar e desfrutar.

15 de Março de 2020 – Yes, Minister

As (quase) ilimitadas ferramentas da tecnologia permitem-nos fazer em dois dias o que, há 20 ou 30 anos, só poderíamos fazer em meses ou anos. Em dois dias, episódio após episódio, Jim Hacker passou de deputado a Primeiro-Ministro do Reino Unido. Pelo meio, nos seus diálogos e aconselhamentos com Sir Humphrey e Bernard, foi mostrando como funciona (ainda hoje, décadas depois) a política britânica (ou será toda a política?). Começando pela ‘luta’ constante entre a dimensão política e a dimensão da máquina do Estado. Os choques e pontos de contacto. Como uns e outros, misturados, fazem com que as rodas da administração (da coisa) pública vão rodando. Agora, seguem-se mais alguns episódios de ‘Yes, Prime Minister’. Boas formas de desanuviar ou de afastar um pouco a nuvem da quarentena.

14 de Março de 2020 – Schafe können sicher weiden

Quanto mais descubro Bach, mais percebo que tenho muita música para aprender. Porque há muito mais do que a música, ali. Muito mais do que a estrutura dos sons. Há um quadro pintado. Como o bosque em que o piano de Khatia Buniatishvili nos lembra de que, afinal, as ovelhas poderão regressar ao seu pasto. Porque a terra voltará a ganhar o brilho a que nos habituou. E a nós, bastará deixarmo-nos surpreender. Pelas coisas simples, mas, por isso mesmo, tão bonitas. Essas, que dão origem a uma música assim.

13 de Março de 2020 – Contágio

Em 2011, Steven Soderbergh realizou um filme que parece ter-se tornado uma (quase) realidade, passado este tempo. Um vírus estranho começa a espalhar-se pela China, e, como em praticamente todas as doenças modernas, a globalização faz o resto. A vertiginosa deslocação de pessoas, o contacto despreocupado e casual que vão mantendo, a vida normal de todos os dias, tudo isso se encarrega de fazer com que o vírus, uma combinação genética que parece feita de acasos, se transforme em bomba, em gatilho do caos. Claro que a ficção costuma sempre ser radical, e facilmente encontra o extremo da coisa. Mas, neste caso, olhar para o extremo, sentir um bocadinho a vertigem do abismo, não é necessariamente mau. Para que tenhamos noção do que pode acontecer.

12 de Março de 2020 – ‘I will not let them down!’

Foto: Günther Ortmann/Getty Images

Monika Grütters é Ministra da Cultura da Alemanha, e disse, talvez em alemão, mas pouco importa, a frase que está ali em cima. Num rasgo de coragem, olhou para as periferias dos interesses de todos os dias, e insurgiu-se. Enquanto toda a gente vai estando preocupado com as consequências do vírus para a Economia e para a Política, Monika Grütters chamou a atenção para a situação dos criativos e da gente da Cultura, que ficam confinados a um isolamento mortífero, ao mesmo tempo que lembrou que a Cultura não é um privilégio dos ricos ou dos privilegiados, mas um bem comum, que precisa urgentemente de medidas e acções, em concentração com as gentes do dinheiro. Faz falta (mais) gente desta.

I am aware that this situation places a great burden on the cultural and creative industries and can cause considerable distress, especially for smaller institutions and independent artists. (…) I won’t let them down! We have their concerns in mind and will work to ensure that the special needs of the cultural sector and creative people are taken into account when it comes to support measures and liquidity assistance.

Monika Grütters, Ministra da Cultura da Alemanha

11 de Março de 2020 – 4540 Jovem

Nasceu, em Arouca, uma nova associação juvenil. Chama-se 4540 Jovem, e, diziam-me, pretendem focar a sua acção em dois vectores fundamentais: Ambiente e Cultura. Para a sessão de apresentação, vá-se lá saber porquê, resolveram convidar-me para dizer algumas coisas sobre Cultura, o que fez em que tivesse de pensar um pouco sobre o ponto de situação local e colocasse em perspectiva alguns pensamentos mais ou menos transversais sobre estes assuntos.

Em Arouca, a vida cultural acontece em três tipos de espaços. Desde logo, no espaço público, e não é preciso pensarmos muito para encontrarmos eventos decisivamente marcantes, como a Feira das Colheitas ou a Recriação Histórica, por exemplo, que nos mostram como a Cultura em espaço público reforça os laços sociais, contribui para a afirmação de uma identidade local e leva a uma maior apropriação e vivência desse mesmo espaço público. Em segundo lugar, em espaços adaptados. Espaços que, não tendo sido construídos com a finalidade de acolherem eventos, ou de serem espaços de acolhimento de exposições, ou até mesmo museus, se assumem como belíssimas soluções de recurso, apesar de desafiarem, constantemente, a criatividade e a capacidade logística para a produção de eventos. Aqui, o Mosteiro de Arouca é, sem dúvida, o melhor exemplo de como estes espaços adaptados são, por definição, lugares de património, mas sobretudo de identificação e de memória colectiva. Em terceiro lugar, em espaços próprios, e, neste caso, Arouca apenas pode contar com a Loja Interactiva de Turismo e pouco mais, ainda assim com bastantes limitações. Fará sentido reabrir a reflexão sobre a necessidade de um espaço próprio para a prática cultural regular, com as condições adequadas e uma programação sistemática? Em suma, fará sentido voltar a debater a construção de um auditório municipal? Talvez faça, mas terá, obrigatoriamente, de ser uma discussão que vá para além do edifício. Construir será, porventura, o mais fácil. Mas de nada valerá termos um edifício sem uma estrutura de programação, de gestão de espaços, de proximidade ao movimento associativo.

Fará, também, sentido reflectir-se seriamente sobre a municipalização da cultura. Muito tem sido falado sobre o assunto, frequentemente com a tónica colocada do lado das autarquias, quase como se passassem a ter de ser programadores culturais, comissões de festas ou meras agências de propaganda. A municipalização da cultura pode e deve ser mais do que isso. Pode e deve ser a devolução aos munícipes de parte substancial das decisões a tomar, sobretudo por uma questão de proximidade. Autarquia e movimentos locais, desde logo o movimento associativo, têm de estar em sintonia sobre a utilização dos espaços e a adequada programação da oferta.

O movimento associativo é o principal rosto da mobilização local, do trabalho quotidiano de proximidade, um fortíssimo traço identitário local, e deve servir de ponto de ligação com a produção regional/nacional/internacional, na concepção de projectos de colaboração originais, desenhados para o local. Já vamos disso tendo bons exemplos, como os ‘Sons da Praça’. Mas poderemos ir ainda mais longe, sobretudo potenciando projectos de âmbito mais pedagógico, e aqui ‘pedagógico’ no sentido mais transversal possível. Seria muito interessante que surgissem mais projectos culturais e de performance abertos à participação comunitária, que não carecessem de um compromisso demasiado longo no tempo, e que potenciassem o talento e a simples vontade de participar. Por outro lado, era fundamental que alguns eventos privilegiassem ainda mais a informação (e até mesmo a formação) do espectador sobre o máximo de conteúdo possível a fruir, por exemplo, numa performance.

É mais ou menos neste contexto, neste panorama, que surge a 4540 Jovem. Quando, há cerca de 20 anos, os teóricos das dinâmicas sociais vaticinavam o fim do movimento associativo, a desmobilização dos jovens de projectos comunitários, a deserção dos seus espaços de origem, esta nova associação parece contradizer, de forma contundente, tudo isto. E, num contexto de forte participação comunitária, em torno das associações locais, é-lhes lançado apenas um grande desafio: o de fazerem diferente.

10 de Março de 2020 – Um fascínio inexplicável

Vinci, a oeste de Florença (Foto: Museo Leonardiano)

Tenho um fascínio inexplicável pela Itália. É uma espécie de amor. Daqueles amores que tomam conta de nós, sem sabermos como. A Itália faz-me lembrar o Renascimento. A vontade que devemos ter de saber tudo, mesmo sabendo que saber tudo é impossível. A Itália faz-me lembrar uma casa, a nossa casa, onde parece que o tempo não passou, mesmo quando voltamos muitos anos depois. A Itália faz-me lembrar sabores. Sabores que parece só serem possíveis ali. A Itália faz-me lembrar as paisagens da Toscânia, montanhosas e verdes, que parecem estender-se dos Alpes até ao infinito. E, neste preciso momento que vivemos, a Itália faz-me lembrar a saudade. Uma saudade com que se fica sempre que se volta. Uma saudade despertada por um artigo do ‘The New York Times’ sobre Da Vinci. E de como muitas das suas grandes obras viajaram pelo mundo, mas muitas outras estão guardadas em pequenas cidades italianas, que, à boleia dos 500 anos do artista, valeria a pena descobrir. Uma viagem adiada, uma saudade que fica, uma incerteza estranha. Mas, sempre, um fascínio inexplicável.

9 de Março de 2020 – Mientras dure la Guerra

‘Enquanto a Guerra durar’ foi a frase-chave para que Francisco Franco quase se eternizasse no poder, em Espanha. Os militares pareciam não entender-se quanto à necessidade de terem um ‘caudillo’, nem em que termos deveriam nomear um líder. E terá sido esta a frase que desbloqueou tudo. Porque Franco parecia estar certo de que só uma guerra longa poderia ‘limpar’ o país, e colocar-lhe essa causa (bem como o próprio país) nas mãos. E, enquanto a guerra durava, ou melhor, enquanto a guerra começava, havia, em Salamanca, quartel-general de tudo isto, um reitor da Universidade que não conseguia lidar com o silêncio. Que precisava urgentemente de argumentar, discutir, irritar-se, até sorrir e verificar que nem todos temos de pensar da mesma forma, desde que pensemos bem, como deve ser. Era Miguel de Unamuno. E, no último discurso que fez enquanto reitor, pouco antes de morrer, no ‘Dia da Raça’, que tanto criticou, em poucas palavras disse praticamente tudo. ‘Vencereis, porque tendes força bruta suficiente. Mas não convencereis, porque para convencer é preciso persuadir. E, para persuadir, necessitareis do que não tendes: razão e justiça na vossa luta’. Vale a pena ver o belíssimo filme de Alejandro Amenábar. Mais não seja, porque mostra muito bem Salamanca, a ‘Cidade Dourada’, tão inspiradora.

Ya sé que estáis esperando mis palabras, porque me conocéis bien y sabéis que no soy capaz de permanecer en silencio ante lo que se está diciendo. Callar, a veces, significa asentir, porque el silencio puede ser interpretado como aquiescencia. Había dicho que no quería hablar, porque me conozco. Pero se me ha tirado de la lengua y debo hacerlo. Se ha hablado aquí de una guerra internacional en defensa de la civilización cristiana. Yo mismo lo he hecho otras veces. Pero ésta, la nuestra, es sólo una guerra incivil. Nací arrullado por una guerra civil y sé lo que digo. Vencer no es convencer, y hay que convencer sobre todo. Pero no puede convencer el odio que no deja lugar a la compasión, ese odio a la inteligencia, que es crítica y diferenciadora, inquisitiva (mas no de inquisición). Se ha hablado de catalanes y vascos, llamándoles la antiespaña. Pues bien, por la misma razón ellos pueden decir otro tanto. Y aquí está el señor obispo [Plá y Deniel], catalán, para enseñaros la doctrina cristiana que no queréis conocer. Y yo, que soy vasco, llevo toda mi vida enseñándoos la lengua española que no sabéis. Ese sí es mi Imperio, el de la lengua española y no…
Acabo de oír el grito de ¡viva la muerte! Esto suena lo mismo que ¡muera la vida! Y yo, que me he pasado toda mi vida creando paradojas que enojaban a los que no las comprendían, he de deciros como autoridad en la materia que esa paradoja me parece ridícula y repelente. De forma excesiva y tortuosa ha sido proclamada en homenaje al último orador, como testimonio de que él mismo es un símbolo de la muerte. El general Millán Astray es un inválido de guerra. No es preciso decirlo en un tono más bajo. También lo fue Cervantes. Pero los extremos no se tocan ni nos sirven de norma. Por desgracia hoy tenemos demasiados inválidos en España y pronto habrá más si Dios no nos ayuda. Me duele pensar que el general Millán Astray pueda dictar las normas de psicología a las masas. Un inválido que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes se sentirá aliviado al ver cómo aumentan los mutilados a su alrededor. El general Millán Astray no es un espíritu selecto: quiere crear una España nueva, a su propia imagen. Por ello lo que desea es ver una España mutilada, como ha dado a entender.
Este es el templo del intelecto y yo soy su supremo sacerdote. Vosotros estáis profanando su recinto sagrado. Diga lo que diga el proverbio, yo siempre he sido profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta, pero no convenceréis porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta en esta lucha, razón y derecho. Me parece inútil pediros que penséis en España.

Miguel de Unamuno, discurso do ‘Dia da Raça’, na Universidade de Salamanca