14 de Outubro de 2019 – A falibilidade do Papa

Tempos houve em que o Papa era infalível. Uma palavra sua, era lei. Nunca falhava. Nunca se enganava e raramente tinha dúvidas. Talvez nunca, também. O Papa Francisco é diferente, também nisto. Provavelmente sem querer, num simples ‘tweet’, fez com que a mensagem que pretendia passar fosse compreendida, mas com dois sentidos. Ao congratular-se pelos novos santos da Igreja Católica, quem gere a conta papal no ‘Twiter’ utilizou uma ‘hashtag’ com a palavra ‘Saints’ (santos, em inglês), seguida de uma flor-de-lis. Ora, acontece que esta ‘hashtag’ remete para uma equipa de futebol americano, os New Orleans Saints, o que fez com que os adeptos reagissem de imediato, tornando o ‘tweet’ viral. O diálogo foi mais ou menos assim: ‘Hoje damos graças ao senhor pelos nossos novos #Santos. Eles caminharam pela fé e agora invocamos a sua intercessão’ (‘tweet’ do Papa Francisco). ‘Não perderemos, depois disto. #Abençoados e favorecidos pelos céus’ (comentário dos adeptos dos ‘Saints’). Vale a pena ter sentido de humor cristão.

13 de Outubro de 2019 – Reutilizar, ou não

Foto: Pedro Rocha / Global Imagens

A notícia é manchete do Jornal de Notícias de hoje. Afinal, os copos ecológicos são tudo menos isso. Antes, quando falávamos em talheres ou copos de plástico, pensávamos em algo para ser utilizado apenas uma vez. Mas a legislação portuguesa arranjou forma de proibir esse uso único, abrindo a porta a uma nova forma de negócio. O material dito reutilizável, pelos vistos, custa dez vezes mais, pesa dez vezes mais e ainda contribui, indirectamente, pelo facto de ser importado, para as emissões de gases. Depois, na realidade, verificamos que o seu grau de reutilização é, no mínimo, questionável, até porque não são muito convidativos à lavagem (isto para não falar na ausência de regulamentos que prevejam essa situação). No final, a conta é paga pelo consumidor e pelo ambiente. Moral da história: enquanto andarmos como baratas tontas, a fazer castelos no ar, em prol do ambiente, tudo continuará mais ou menos na mesma. Ou, à boleia do político-ambientalmente correcto, pior.

12 de Outubro de 2019 – Vem aí a chuva…

Há coisas para as quais, por muito que pensemos o contrário, parece que nunca estamos preparados. Como algo tão simples como a chuva. Antigamente, como se dizia antigamente, dava a sensação que as estações do ano realmente existiam. O Inverno não entrava assim sem avisar. Tínhamos o Outono, que se manifestava, mais ou menos, com as Colheitas, e ia temperando as coisas, até estarmos preparados para o frio, a chuva, o vento, as cores, os aromas e os sabores do Natal. Mas agora é assim, vem aí a chuva. De repente, há inundações, tufões, tempestades, tudo o que possamos imaginar. Aqui, apenas a chuva. Simples. Com o condão de nos deixar mais sonolentos, com mais vontade de regressar a casa e não sair. Para, talvez, de repente, vir o sol dar um ar da sua graça, para logo voltar a fugir. E logo voltam lençóis de água. Vem aí a chuva.

11 de Outubro de 2019 – Morte e transfiguração

O título é interessante. Porque, para uns, a morte é o fim. Para outros, a morte é o início de outra coisa. Richard Strauss decidiu musicar o processo de morte e transfiguração. Ou seja, não se trata de uma morte como fim, nem de uma morte como princípio. Trata-se de uma morte como processo de mudança, como uma espécie de fronteira, com porta para ambos os lados. E é curiosa a forma como a música acompanha este processo, esta ideia, esta visão da vida (ou dos seus últimos momentos), da morte e da transfiguração. Depois, a Missa de Schubert. Um texto musicado imensas vezes e de imensas formas, mas que parece soar sempre diferente, mesmo quando ouvimos as mesmas coisas, outra vez. Porque a missa, a Eucaristia, é suposto ser isso mesmo. Uma transfiguração. É bom, de vez em quando, sairmos do aquário. Como hoje, na Casa da Música. Ver, rever, ouvir e voltar a ouvir amigos, conhecidos, desconhecidos. Mas, essencialmente, aproveitar a música para, com ela, colocar um pouco as coisas em perspectiva.

10 de Outubro de 2019 – Ouvir. Acolher. Cultivar o silêncio

Ouvir. Acolher. Cultivar o silêncio. Três coisas que começam a ser cada vez mais difícil de encontrar. Porque a vida. Porque as coisas. Porque o tempo. Já se sabia, há muito tempo, que a Cartuxa ia ficar sem os seus monges. Chegou, agora, a hora. As portas abriram-se, para, na hora da despedida, todos poderem conhecer os espaços onde ouvir, acolher e cultivar o silêncio não só eram coisas possíveis, mas essenciais. E, assim, reconhecer o peso da palavra ‘adeus’. Tão pesada como o molho de chaves que os cartuxos deixam ao Arcebispo de Évora.

9 de Outubro de 2019 – O ‘Halloween’ do Petr

Ainda faltam uns dias, mas o Petr quis, hoje, oferecer-me o seu desenho para o ‘halloween’. Para quem não tem grande vocação citadina, estas coisas soam um pouco estranhas. Uma espécie de Carnaval fora de época, confinado ao tema dos mortos, não parece coisa particularmente interessante. Lá na aldeia, a coisa passa por celebrarmos todos os santos e os fiéis defuntos, um ‘mix’ que, sem querer, nos ajuda a pensar que todos os que estão connosco em memória também podem ser exemplos de santidade, à sua maneira. O desenho do Petr fez-me lembrar tudo isto. De forma simples. Na forma simples de um desenho oferecido por uma criança.

8 de Outubro de 2019 – A (má) reacção de Ana Catarina Mendes

Ana Catarina Mendes foi a responsável pela primeira reacção do PS aos resultados das eleições de domingo. Do seu discurso, semi-inflamado, duas notas ressaltam, pela negativa. Primeiro, dizer que os portugueses foram votar e demonstraram que ‘a vida democrática em Portugal está viva’, para além de redundante, é redundantemente estranho, quando a primeira grande notícia da noite foi o valor da abstenção. Mas, tudo bem. Tudo bem, até à altura em que parece estarmos a ouvir outra Catarina, que não uma responsável do partido que esteve e vai estar no Governo. Aproveitar este momento para falar numa ‘derrota histórica’ da Direita, não só soa demasiado a bloquista, como não fica bem a um partido que se diz defensor da democracia.

7 de Outubro de 2019 – Comer ou não comer carne

É interessante verificar que o texto que foi tema de capa da última edição da revista ‘Visão’ não gerou qualquer reacção. Pelo facto de não ter havido ninguém a contradizer algumas das coisas que ali podem ler-se, deduz-se que sejam verdadeiras, ou, pelo menos. minimamente credíveis. Sem querer manifestar opinião, apetece simplesmente transcrever algumas das ideias que podem ser lidas no interessante texto de Luís Ribeiro, para reflectirmos. Primeiro: o relatório da FAO ‘A longa sombra da pecuária’, que apontou 18% como o valor das emissões de gases com efeito estufa, mais do que a percentagem atribuída aos transportes, por exemplo, não parte de premissas correctas. Isto porque os estudiosos resolveram contabilizar todo o ciclo produtivo da pecuária, mas não todo o ciclo produtivo associado à indústria dos transportes, comparando, assim, alhos com bugalhos. Considerando o valor dos transportes apontado por estes estudiosos (14%), e a forma como chegaram a esse número, estaríamos a falar de apenas 5% para a pecuária. Segundo: considerando todo o ciclo produtivo, temos de ter em conta a importância da agricultura e da pecuária na manutenção da fertilidade dos solos. Caso contrário, para um cultivo mais intensivo de produtos que possam acompanhar a dieta vegetariana, seria necessário recorrer a outras técnicas fertilizantes, com os químicos associados, e as respectivas emissões associadas, já para não falar no equilíbrio dos habitats. Terceiro: o Governo português fala no aumento da importação de carne como resposta à diminuição da produção autóctone. Tendo em conta a forma como as espécies autóctones são criadas, uma redução da produção na ordem dos 50%, como se fala, sem se apontarem números para a suposta importação, soa quase a ridículo. Valerá, portanto, a pena reflectir. Aliás, estranho é o silêncio sobre isto, desde quinta-feira passada.

6 de Outubro de 2019 – Eleições

Hoje, foi dia de irmos votar. Há quatro anos, fomos mais ou menos traídos, porque não foi totalmente respeitada a nossa vontade. Ou melhor, houve alguém que resolveu interpretar a nossa vontade, criando a famosa geringonça, que foi funcionando desde então. Hoje, tudo indica que vai ser possível seguir o preceito de governar quem ganha. Houve já grandes derrotados, desde logo o CDS, que acaba de ficar sem líder. O PSD, pode olhar para o copo meio cheio, com Rui Rio a conseguir números muito melhores do que toda a gente previa, mas, ainda assim, a não descolar da ideia de que averbou a pior derrota de sempre para o seu partido. É natural que, daqui a dias, voltem a desafiar a sua liderança. É o normal no PSD. Também é normal o PSD ganhar em Arouca, mas, desta vez, a vantagem encurtou. É talvez sinal de que, do local para o nacional, é preciso mudar a forma de chegar às pessoas.

5 de Outubro de 2019 – Dom Tolentino

Foto: Ana Brígida (Expresso)

‘Tu és a poesia’. Foi o que o Papa Francisco disse, hoje, ao novo cardeal português, D. José Tolentino de Mendonça. A resposta, um tanto metafórica, esteve à altura da pergunta (provocatória) que D. Tolentino fez ao Papa: ‘Santo Padre, o que é que me fez?’ De facto, o que o Papa fez foi ‘ser coerente’. Construir pontes e ir às periferias significa também ir até junto da cultura, das artes, da literatura, da poesia. E se há alguém que, em Portugal, é reconhecido por crentes e não crentes, cultos e menos cultos, gente das artes e da política, da cultura e dos media, em suma, por gente de todos os quadrantes, é o Cardeal D. Tolentino. É, portanto, com redobrada vontade que regresso às palavras do padre poeta. Às palavras, cuidadas, esculpidas, moldadas, sabia e cuidadosamente alinhadas. Como se Deus ali estivesse, ou, de propósito, não quisesse estar, deixando toda a humanidade em cada letra, para que sirva de molde a outras metáforas, outros sonhos, outras formas de ser e de estar.

O MISTÉRIO ESTÁ TODO NA INFÂNCIA

E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder
Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente
Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

José Tolentino de Mendonça – “A noite abre meus olhos”