11 de Novembro de 2019 – De como Bach nos faz olhar para as coisas

Começar a estudar uma qualquer peça para instrumento de tecla de Bach é como começar a resolver uma equação matemática. Numa primeira fase, parece que tudo se resume a tentativa e erro, depois parece que a equação não tem solução. Depois, de um momento para o outro, parece que os termos começam a fazer sentido, e a estrutura parece começar a revelar-se, como se todo o equilíbrio do mundo estivesse ali mesmo, diante dos nossos olhos. E, de repente, damos por nós a fazermos coisas que nos pareciam impensáveis, e a música parece fazer sentido, um sentido primordial, como se ali estivesse tudo, muito claramente resumido e definido. Resolver estas equações de Bach é como resolvermos muitas das equações do mundo. É capaz, portanto, de fazer algum sentido olharmos para as coisas da mesma forma que olhamos, por exemplo, para um pequeno coral para órgão.

Puer natus in Bethlehem (Orgelbuchlein, BWV 603) – Ton Koopman

10 de Novembro de 2019 – (Re)encontros de amigos

Uma das coisas boas da música, é proporcionar o encontro, o reencontro, o convívio. Hoje, foi dia de reencontrar colegas de trabalho, amigos, alunos. Ver que, em alguns casos, já passaram alguns anos desde que nos encontrámos pela primeira vez. Ver que, em outros, continuamos a caminhar, há largos anos. Ver que é a música que nos proporciona tudo isto. Às vezes pensamos, vemos, sentimos que isto das lides da música coral está em crise. Já não é um motor de mobilização, como outrora. Já não temos públicos que encham espaços, como outrora. É diferente. O trabalho faz-se de forma diferente, a forma de apresentar as coisas também pode ser diferente. São desafios novos a quem teima em continuar a fazer coisas. E ele há dias em que sabe bem fazer coisas.

9 de Novembro de 2019 – Trazer o público para dentro

A cultura não serve para nada. Não gera riqueza. É um gasto. É uma forma de propaganda. A cultura dá prejuízo. Não contribui para a diminuição do desemprego. Esgota-se nas festas para entretenimento do povo. Serve para angariar votos. De forma resumida, este é o raciocínio mais simples. Aliás, a tónica na politização é frequente, sobretudo por parte de alguns intelectuais da metrópole e de alguns subsidio-dependentes, pseudo-criadores e artistas. Gente que tem medo da municipalização da cultura. E percebe-se porquê. Porque, desta forma, deixaria de haver dinheiro público para apoiar pseudo-criações alegadamente vanguardistas, conceptuais, incompreensíveis pelo comum dos mortais. 

Não temos motivos para ter medo da municipalização da cultura. Senão, vejamos exemplos como os da Escritaria, em Penafiel, do Festival de Música de Marvão, ou da Viagem Medieval, em Santa Maria da Feira. Como podemos falar, em Arouca, da Recriação Histórica e dos Retratos do Barroco, por exemplo, como eventos com dimensão e potencial que podem ir largamente para além do mero entretenimento. Os eventos, e em particular os que têm forte impacto na ocupação e apropriação do espaço público, geram, inevitavelmente, movimento, comércio, proporcionam o encontro e o convívio. 

Mas têm uma outra dimensão, que frequentemente esquecemos, e em que todo o investimento é pouco: ajudam-nos a aprender. A dimensão pedagógica, que facilmente conseguimos potenciar, é fundamental, e talvez seja isso que irrita os intelectuais da metrópole, alguns subsidio-dependentes, pseudo-criadores e artistas. É mais fácil assumirmos que o público é uma massa inerte, iletrada e amorfa. Porque, na realidade, é tão difícil para essa gente, quanto fascinante pode ser para quem arriscar fazê-lo, abordar o público de uma forma simultaneamente artística e pedagógica. 

Em Arouca, é esse o caminho que está a ser percorrido. Seja, na produção de eventos, com a junção entre nomes de referência nacionais e o movimento associativo local, seja, por exemplo, na Recriação Histórica/Retratos do Barroco, com uma clara aproximação ao público, trazendo-o para dentro do próprio evento, com visitas guiadas ou participando activamente em actividades performativas. 

O que os intelectuais da metrópole, alguns subsidio-dependentes, pseudo-criadores e artistas esquecem (ou preferem esquecer) é que a política cultural autárquica já não é feita na base da atribuição de subsídios. Ela pode (e deve) ser feita de forma activa, atenta e interventiva, como foi o caso, por exemplo, da iniciativa do Município de Arouca em substituir-se ao Estado no apoio ao restauro do órgão de tubos do Mosteiro. E, nesse sentido, é um agir político, sim, mas com um sentido de proximidade e de carácter estruturante, que nenhum organismo do Estado conseguiria alcançar.

Neste sentido, é tempo de a Câmara Municipal olhar, de forma mais profunda, para o Mosteiro de Arouca. Não meramente como um espaço com potencial hoteleiro, mas como uma fonte quase inesgotável de conhecimento, com fortíssimo potencial pedagógico, a começar, desde logo, pela música, quer com o fundo documental de manuscritos, quer em torno do órgão. Cabe à autarquia e à Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda o abrir de portas a este conhecimento, novamente, trazendo o público para dentro das actividades. Contas rápidas, a título de exemplo, em torno do órgão, seria relativamente fácil desenvolver programas educativos com um financiamento que, rapidamente, poderia ter retorno, apenas com a visita (paga) dos cerca de 2500 alunos do ensino básico, em Arouca.

Não há que ter medo da municipalização da cultura. De um agir político local, em torno da cultura. Precisamente, para que ela não se esgote nas festas e no entretenimento. Para que todos fiquemos mais enriquecidos, ao olhar para a arte (ainda) de mais perto. Até mesmo por dentro.

8 de Novembro de 2019 – De volta das notas

Às vezes metemo-nos em alhadas sem saber muito bem porquê. Neste caso, pode ser por estar a voltar a uma casa de onde, na realidade, nunca saí completamente. Ou por se tratar de um desafio diferente. A Banda Musical de Arouca está a preparar a participação no concurso de bandas filarmónicas de Braga, e há algumas peças que têm partes de piano. Até aqui, parece tudo fácil, mas o problema é que as notas dessas partes são rápidas, precisas, difíceis por vezes. É onde começa o segundo desafio: estudar. Estudar, até as coisas começarem a aparecer e a fazerem sentido. Como o escultor que, da pedra em bruto, começa a ver formas saírem das suas mãos. É mais ou menos isso. Um processo demorado, de volta das notas.

7 de Novembro de 2019 – Parasitas

Há quem viva no rés-do-chão, quem viva ao cimo de umas escadas e quem viva na cave. Da mesma forma que há quem viva à superfície e debaixo da terra. Depois, há quem suba as escadas, da cave para o rés-do-chão, e aspire a subir mais andares. Há quem desça à cave. Há quem saia da terra, e esqueça que a raiz não permite que saia totalmente. ‘Parasite’ é um filme coreano que retrata um pouco da dinâmica social que se vai encontrando a oriente. Uma espécie de parasitas que vivem imersos numa pobreza de espírito, mas em busca de rede ‘wi-fi’. Outra espécie de parasitas que vivem imersos na riqueza, mas completamente fora da realidade. E o encontro entre uns e outros, uns enganando, outros sendo enganados.

6 de Novembro de 2019 – Brexiterror

Foto: BBC

John Bercow, ex-speaker do parlamento inglês, afirmou que o ‘Brexit’ é o maior erro cometido pela Inglaterra desde a II Guerra Mundial. Durante a sua actividade parlamentar, manteve a imparcialidade, mas entendeu, agora, largar a bomba sobre um processo caricato, para dizer o mínimo. É incrível como a Inglaterra, ‘land of hope and glory’, referência cultural e política em muitos momentos da história, parece um cão a perseguir a própria cauda. Será que arrisca sair da União Europeia sem acordo, com base numa decisão parlamentar? Será que vai pedir nova extensão de prazo? E como ficará o país depois das eleições? Para Bercow, contudo, uma coisa é clara. Sair é um erro (‘error’). Para o país, este processo é, cada vez mais, um terror. Talvez não seja, portanto, de todo injusto fazer um ‘upgrade’ ao nome: ‘Brexiterror’.

Já não sou speaker, não tenho de continuar a ser imparcial, e se me perguntarem o que penso honestamente sobre o Brexit, se é bom para a nossa reputação internacional, a resposta honesta é não. Considero o Brexit o maior erro de política externa desde a II Guerra Mundial.

John Bercow

5 de Novembro de 2019 – Breve diálogo internético sobre velocidades e certezas

Ele: Como estamos de vida?

Ela: Indo…

Ele: Só indo?

Ela: Só.

Ele: Pronto…Não insisto.

Ela: Estou bem, mas só indo. E tu?

Ele: Idem. Mas indo muito depressa.

Ela: Isso é bom.

Ele: Tem dias. Podia andar mais devagar… Não era pior.

Ela: Ainda nao percebi o ritmo da vida…

Ele: Vamos morrer sem perceber.

Ela: Talvez. Mas espero que com menos angústias e mais certezas.

Ele: Isso agora…Se há coisa que é certa é que nada é certo…

4 de Novembro de 2019 – Pode respirar, não respira…

Foto: Reuters

Respirar é, talvez, a coisa mais natural do ser humano. Aliás, morrer asfixiado, afogado ou de qualquer outra forma que seja condicionadora da respiração deve ser horrível. É por isso que ganha particular importância a notícia de que respirar é, por estes dias, um luxo, em Nova Deli. A capital da Índia atingiu um nível de poluição tal que já estão em marcha medidas de contingência, como a limitação à circulação automóvel, uma maior oferta de transportes públicos, o fecho das escolas ou a proibição de obras de construção civil. O que está a motivar esta verdadeira nuvem irrespirável é, no entender de alguns entendidos, o fogo de artifício do “Diwali” (festival do Ano Novo hindu) e as queimadas. O que é curioso. Olhando para os motivos apresentados e para as medidas postas em prática, a sensação que fica é a de que se está a combater um incêndio gigantesco com um balde de praia. E, enquanto isso, vamos asfixiando. Lentamente, à distância. Pensando que, a prazo, talvez seja essa a forma de extinção da nossa espécie.

3 de Novembro de 2019 – Dois Papas

A Netflix já anunciou que, a 27 de Novembro, irá apresentar o novo filme de Fernando Merelles. Chama-se ‘Dois Papas’, e procura retratar os acontecimentos, emoções, histórias, percursos, biografias, tensões e tudo o mais que levou a que o Papa Emérito Bento XVI renunciasse ao cargo e o Papa Francisco fosse eleito. Enquanto o filme não pode ser visto pelo comum dos mortais, vamos matando a curiosidade com o livro de Anthony McCarten, que esteve na origem do argumento. Curiosamente, é um livro bastante visual, se assim lhe podemos chamar, em que queremos sempre saber o que vai acontecer a seguir. O que, aliado ao facto de o filme ter Anthony Hopkins e Jonathan Pryce nos papéis principais, faz com que queiramos que chegue a dia 27 depressa.

2 de Novembro de 2019 – Palavras sobre imagens sobre o rio Arda

Foto: Óscar Valério

O Arda é o rio que corre no coração de Arouca. Mais ou menos oculto, pela forma como serpenteia pela terra. Mais ou menos ocultado, pelo forma como a mão humana foi tentando moldá-lo. Se Arouca tivesse sangue, talvez o primeiro a correr-lhe nas veias fosse o Arda. Foi o Arda que fez a Senhora da Mó e a Pedra Má, um monte de cada lado do vale, para lhe dar vida. E porque foi correndo, oculto e ocultado, o Arda é um rio de quedas. Umas mais, outras menos vertiginosas, mas todas elas belas, porque tornam a água um ser vivo. A precipitar o seu lençol pelos muros, pelas pedras, pelos desníveis do leito, as águas de um rio oferecem-nos o espectáculo mais bonito que podem oferecer. A música da natureza. As cores de uma pintura. O movimento da fotografia. O Arda continua a correr no coração de Arouca. Oculto e ocultado. A moldar e embelezar a paisagem muito mais perto de casa dos arouquenses do que eles mesmos pensam. Porque, às vezes, não é preciso grandes viagens para encontrar o paraíso. Às vezes ele está bem ali. Oculto. Ocultado.

Foi a pedido do meu amigo Óscar Valério que escrevi estas linhas sobre o rio Arda, que tanto diz às gentes de Arouca, apesar de estar mais oculto da nossa vista, sobretudo na vila. O texto pretendeu dar palavra a algumas imagens fabulosas, uma das quais aqui publicada, com a devida autorização do autor.