2 de Março de 2021 – Um passaporte que pode discriminar

Acordámos, hoje, com a notícia da possibilidade de ser necessário termos um passaporte de vacinação. A ideia partiu da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e traduzir-se-á num documento (eventualmente digital) que permita a reabertura do espaço europeu às viagens entre países de União Europeia. Embora reconhecendo a virtude da medida, não podemos esconder que ela pode conter, ainda que de forma involuntária, uma certa discriminação. Desde logo, porque a vacinação não é obrigatória. Depois, porque não está ao alcance de todos, ao mesmo tempo. Em terceiro lugar, porque pode dar aso a impedir quem não quer, ou, por algum motivo, não pôde ainda ser vacinado, de exercer um direito, sem que, no segundo caso, tenha qualquer culpa. Não estando a vacina (nem tão pouco os testes) ao alcance de todos, sem excepção, pode ser perigoso aprovar o que quer que seja, sob pena de penalizar alguns (a maioria?), com um carimbo discriminatório.

1 de Março – Ruy de Carvalho, 94 anos

Foto: Nuno Cerca (Arouca, 2000)

Habituei-me, desde pequeno, a ver, com reverência, a passagem do actor Ruy de Carvalho, em passeio de férias pelas ruas de Arouca. Uma relação de paixão, que fez de si um de nós. Arouquense por adopção. Em Janeiro de 2000, tive o privilégio de entrevistá-lo, para um trabalho da faculdade (publiquei a entrevista em 2011, aqui e aqui), em casa do nosso saudoso e comum amigo, Valdemar Leite Duarte. Na altura, avizinhava-se o 74.º aniversário, e falávamos de chegar ao topo da montanha. Mas uma personalidade como Ruy de Carvalho, não desce da montanha. A menos que seja como Sísifo, e rapidamente regresse a esse cimo. Em 2012, produzi o CD do Orfeão de Arouca, onde pudemos contar com a sua voz a dar vida a textos sobre Arouca. E como me falou, de forma apaixonada, do enorme prazer que teve em gravar a sua voz a falar sobre a sua terra de adopção. Em 2013, regressou aqui, para apresentar o seu livro «Os Anjos não têm Asas». Abraçámo-nos. Desse dia ficou uma dedicatória trocada. Fiquei a ganhar, claramente. Hoje, o tempo e a distância separam-nos. Mas o abraço aqui fica. Porque 94 não é um número qualquer…

27 e 28 de Fevereiro de 2021 – O processo

Dizia o saudoso professor José Manuel Delgado Robalo, quando nos ensinou, pela primeira vez, a forma de resolução de equações matemáticas, que o que mais queria era que compreendêssemos o processo. Diria que foram precisos quase 30 anos para compreender totalmente o que nos queria dizer, com aparente simplicidade. Por estes dias, afundo-me em papéis, livros e teclas de computador, para (finalmente) terminar um documento que sirva de tese de mestrado. E o que fica dessa aprendizagem, tanto na forma como no conteúdo, é precisamente isso. Mais importante do que a meta, é o caminho percorrido, e a forma como se percorre(u). Tal como para o prof. Robalo, mais importante do que o resultado correcto era o processo. O processo (sublinhava ele, com voz mais forte e pausada).

26 de Fevereiro de 2021 – Da sofisticação da mensagem, à burrice dos receptores

Foto: Manuel de Almeida (Lusa)

O Primeiro-Ministro anunciou hoje que vai anunciar, no próximo dia 11 de Março, o plano de desconfinamento. A mensagem dentro da mensagem surge numa altura em que foram circulando, pelas redes sociais, documentos claramente falsos, pois, segundo quem foi dando conta disso, o plano do Governo era, até à data, não ter plano. Todavia, já se vai percebendo, pela mensagem, que serão as escolas os primeiros espaços a reabrir, embora os detalhes ainda não sejam conhecidos. Pelo meio, António Costa foi falando das acções de vacinação, e de outros assuntos relacionados com a pandemia, resumindo tudo ao facto de que teremos de continuar confinados. O que ninguém estava à espera era de ouvir o Primeiro-Ministro dizer que queria «evitar confundir os cidadãos com mensagens sofisticadas que acabam por induzir comportamentos em erros». Como diria Jorge Jesus, estamos na presença de uma faca de dois legumes. De um lado da lâmina, Costa reconhece o erro na transmissão da mensagem, pelo menos na forma. Do outro, e este absolutamente cortante, e a fundo, passa aos portugueses um atestado de burrice, por não estar à altura de compreender a sofisticação da mensagem.

25 de Fevereiro de 2021 – Uma questão de números

Quando falamos com um político mais adepto da tecnocracia, rapidamente percebemos que o que o preocupa são os números. Custos e benefícios, quantidades, gastos e investimentos, prazos. Seja qual for a escala, a coisa é rapidamente medida em números, e, normalmente, vence a opção que tenha melhor relação custo/benefício, que resolva o problema, que seja barata e estruturante, que leve menos tempo a concretizar. Nem sempre é possível conjugar todos os factores, mas é nesta direcção que o pensamento e a análise se dirigem. Ora, lê-se, por aí, que a missão da NASA a Marte terá superado os 2.2 mil milhões de euros. Vamos tomar este número como verdadeiro e, assim, como referência. Ora, também se lê por aí que, no pior cenário (e é sempre melhor contar com ele, os tecnocratas também o sabem), a TAP irá precisar, até 2024, de 3.7 mil milhões de euros. Mesmo tendo em conta que os contextos poderão ser considerados não comparáveis, coloquemos apenas, lado a lado, 2.2 mil milhões e 3.7 mil milhões. O resto, fica para reflexão de cada um.

23 de Fevereiro de 2021 – Crer, ou ter uma ética

À primeira vista, podemos pensar que o livro é sobre crer ou não crer, sobre em que crê um ateu, ou um crente. Mas é mais do que isso. Reúne uma série de cartas trocadas entre Umberto Eco e o Cardeal Carlo Maria Martini, tornadas abertas nas páginas da revista ‘Liberal’. O pequeno livro fala-nos, sobretudo, de ética. De formas de estar, ser, sentir, agir, afirmar. E radica na questão que devia ser, por estes dias, fundamental. Como me posiciono, hoje, aqui e agora, em relação a mim mesmo e face à sociedade, tanto no meu isolamento, como no meu convívio digital? Estou e ajo de boa fé, ou estou, ajo e sou conforme as circunstâncias, orientado pelo (bem português) chico-espertismo? E, ainda, outra pergunta, que é uma espécie de resposta a estas outras. Como quero ser lembrado, um dia que já não esteja? O que dei de mim para acrescentar ao mundo? O que deixei de bom aos outros? Talvez se esta fosse a questão essencial, muita da areia na engrenagem que nos vão, subtilmente, colocando no dia a dia, passasse, ao de leve, pelos dentes das rodas. Ou até mesmo não existisse.

22 de Fevereiro de 2021 – José Atalaya: tenho vergonha do silêncio

Costa da Caparica, 13/01/2011 – Maestro Jose Atalaya, fotografado em sua casa. ( Rodrigo Cabrita / Global Imagens )

A música é feita do equilíbrio entre som e silêncio. Mas deste silêncio, em concreto, tenho vergonha. Tenho vergonha de ter ficado a saber da morte do maestro José Atalaya através da página do Facebook de Júlio Isidro. Noventa e três anos, praticamente todos dedicados à música e à sua divulgação, à aproximação entre os grandes génios e o comum dos mortais. O texto de Júlio Isidro diz tudo. Começa assim: ‘Morreu, há três dias (três dias, acrescento eu, a sublinhar o espanto) o maestro José Atalaya’, e prossegue, contando um pouco da vida do maestro, que foi uma espécie de Bernstein português, com os seus concertos comentados, muitos deles transmitidos pela RTP. O nascimento da Juventude Musical Portuguesa tem os seus genes, assim como a academia de música com o seu nome, em Fafe. Haverá alguma razão para este esquecimento. Seja ela qual for, não me parece que seja forte o suficiente para, enquanto alguém dedicado à música, não ter vergonha deste silêncio.

21 de Fevereiro de 2021 – A escrita açucarada de Jorge Amado

Estava com saudades da escrita açucarada e descontraída de Jorge Amado. Por isso, decidi mergulhar em ‘Tieta do Agreste, Pastora de Cabras, ou A Volta da Filha Pródiga’. Segundo o autor, um ‘melodramático folhetim em cinco episódios e comovente epílogo, emoção e suspense’. Lembro-me de Tieta e suas personagens, de carne e osso, da novela de 1989. Na altura, nós ainda pequenos, e todo um enredo a transbordar sensualidade, calor de corpos, pudor e uma certa hipocrisia em manter tabu sobre algo que nos é intrínseco. ‘Que belo pé de buceteiro’, disse Bafo de Bode ao ver Tieta. Era. A ‘Globo’ fazia questão de cumprir à risca o papel de tornar vivo o imaginário em torno das histórias de Jorge Amado. Logo o início do livro (ainda volumoso) é de uma delícia quase viciante. E aqui vamos nós.

Começo por avisar: não assumo qualquer responsabilidade pela exatidão dos fatos, não ponho a mão no fogo, só um louco o faria. Não apenas por serem decorridos mais de dez anos mas sobretudo porque verdade cada um possui a sua, e no caso em apreço não enxergo perspectiva de meio-termo, de acordo entre as partes.

Jorge Amado – ‘Tieta do Agreste’

20 de Fevereiro de 2021 – Sobre a (des)importância dos professores

Volta a ouvir-se falar de desconfinamento, e, imediatamente a seguir, de que serão as escolas os primeiros espaços a reabrir. Não sei se devamos ficar contentes ou tristes. Se todos nos apercebemos de que o ensino não faz muito sentido em formato não presencial, os professores, em concreto, têm tudo para sentir-se ao deus-dará. O Governo põe e dispõe da boa fé e do sentido de missão destas pessoas, e não tem qualquer pudor em assumir uma acção absolutamente errática, tendo sempre por adquirido que os professores irão a reboque, e farão a magia de concretizar as coisas. Inclusive, fazendo o que deveria ser o Governo a fazer, e não fez. Nem faz. Nem fará. Em todo este processo de confinamento, desconfinamento, abertura e fecho de escolas, não houve qualquer cuidado com esta classe profissional, que teve de se conformar com um viver em suspenso, em incerteza constante e numa ligação umbilical de vinte e quatro sobre vinte e quatro horas à escola, mantida pelo digital. Uma das histórias que ficará por contar, sobre esta pandemia, é a do profundo abandono, da profunda desconsideração, do esquecimento da importância estrutural da profissão de ensinar.

18 de Fevereiro de 2021 – A circulatura do quadrado de uma lei absurda

Os deputados da Nação aprovaram, à pressa, uma lei absurda. Desde logo, absurda, porque apenas serve os seus próprios interesses, que passam por uma ‘partidocracia’ generalizada, e quanto mais generalizada, melhor. Depois, absurda, porque a sua aplicabilidade é ridiculamente difícil, para não dizer impossível. Os primeiros 15 minutos do último programa da ‘Circulatura do Quadrado’, que o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, fez questão de partilhar na sua página do Facebook, são do mais sumarento que há. Se, há dias, Rui Rio tinha dado um tiro no pé, ao falar sobre um hipotético adiamento das eleições autárquicas, verificamos, agora, que, afinal, o mesmo tiro acertou nos dois pés. A discriminação, ou, para sermos mais claros, o bloqueio total à possibilidade de candidaturas independentes, está previsto na Lei, desde o Verão passado. À porta fechada, e no maior secretismo possível, os dois maiores partidos portugueses negociaram e aprovaram uma legislação que, não fosse alguém queixar-se, iria ter consequências absolutamente nefastas para a vida democrática portuguesa. Os partidos teimam em não ver que é localmente que se faz a verdadeira política, e, localmente, as pessoas lidam com pessoas, não com siglas ou símbolos. Obrigar os movimentos independentes a multiplicar o número de assinaturas para oficializar cada uma das freguesias ou órgãos autárquicos a que se candidatam, impedir estes movimentos de manterem o seu símbolo nos diversos boletins de voto e, a cereja no topo do bolo, isentar os partidos de IVA, ao passo que os independentes têm de arcar com a sua totalidade, são só alguns dos absurdos aprovados. Na mesma ‘Circulatura’, Ana Catarina Mendes, líder parlamentar do PS, reconheceu que é imperioso alterar a lei, e que tudo será feito para que tal aconteça. O que é ridículo é percebermos o tamanho da asneira que os deputados, eleitos e pagos por todos nós, fizeram. E é lícito pensar que, como esta, farão muitas outras, todos os dias.