27 de Janeiro de 2020 – Por dentro

Baltazar apercebeu-se que havia uma ligação indizível e inquebrável com Blimunda quando deu conta que ela o havia olhado por dentro. Quando somos olhados por dentro, ou olhamos alguém por dentro, é como se o elo da corrente se fechasse, ou a roda dentada ficasse completa, pronta a rodar. É como se encontrássemos a peça do ‘puzzle’ que faltava para completar a paisagem que já sabíamos como era, mas ainda não tínhamos visto totalmente. O mesmo acontece quando nos olhamos a nós próprios por dentro. Para podermos ver bem onde acabamos e onde começa o mundo lá fora, e podermos esticar os limites impostos pela pele. E é a olhar por dentro que começa a viagem daqui para a frente, mas também para trás, para actualizar o que falta actualizar, dizer o que falta dizer, fazer o que falta fazer e não fazer o que falta não fazer. É por dentro que tudo existe. Na imaginação. No coração. Onde quisermos. Prontinho a acontecer. Quando quisermos que aconteça.

26 de Janeiro de 2020 – The New Pope

Às vezes, a melhor forma de compreendermos a realidade é através da ficção. Uma ficção que, de tão poética, chega a ser praticamente real. Paolo Sorrentino já havia surpreendido com ‘The Young Pope’, em que dava a conhecer um Papa extravagante, jovem, rígido, ‘sexy’. Um Papa personificado por Jude Law, que tanto podia ser santo e quase milagreiro, como facilmente era inflexível e quase retrógrado em algumas posições defendidas. Agora, com Lenny fora da cátedra de São Pedro, é John Malkovich que encarna o papa João Paulo III, que herda uma Igreja não muito diferente da que Francisco herdou. Claro que Sorrentino polvilha os episódios com rasgos de Tarantino ou Tim Burton, o que tempera, com a ficção necessária, a fácil colagem à realidade. Seja como for, vale a pena ver. Para crer, ou não.

25 de Janeiro de 2020 – As maravilhas de Itália

Os amores à primeira vista não se conseguem explicar. É mais ou menos o que acontece com a Itália. Conhecer este país, desvendá-lo, é como, no fundo, conhecer e desvendar vários países. Aliás, a Itália, enquanto país, é uma criação recente. A verdadeira Itália sempre foi um conjunto de Cidades-Estado, quase como um conjunto de países diferentes, reinos ou repúblicas diferentes, com a sua aristocracia própria, moeda própria, arte e artistas próprios. Claro que esta unidade na diversidade só poderia resultar em verdadeiras maravilhas, que a RTP está a mostrar, numa série de documentários que convém não perder de vista.

15 de Janeiro de 2020 – PSD: uma vista a partir de um ponto

Dizia, um dia, alguém que um ponto de vista é uma vista a partir de um ponto. Sempre que duas pessoas olham para um mesmo objecto, estão a vê-lo a partir de perspectivas diferentes, o que faz com que formulem juízos diferentes. Esta é, portanto, apenas uma vista a partir de um ponto, valendo, naturalmente, o que vale.

Numa altura em que o país precisa de uma Oposição firme, alternativa, mobilizadora até (não esqueçamos que, não tarda, teremos eleições autárquicas), o PSD ainda está à procura de um Norte que parece teimar em não chegar. Aquele PSD galvanizador, verdadeira herança de Francisco Sá Carneiro, que toda a gente gosta de citar e de ter como referência, existe cada vez menos. Em boa parte, porque, como alguns dos seus militantes constatavam, é um partido talvez demasiado democrático, talvez demasiado aberto, talvez demasiado ouvinte. O PSD é um partido de intensos debates internos, de fortes confrontos de ideias, à procura do rumo certo. E talvez seja esse o seu maior problema. A partir daí, abre-se a porta a que vários egos se posicionem, a que se dêem várias disputas internas desnecessárias, a que se prolongue à exaustão uma discussão identitária, que já há muito devia estar resolvida.

Na altura em que esta edição do Roda Viva esteja nas mãos dos leitores, o PSD estará, muito provavelmente, na fase final da contagem de espingardas, para uma segunda volta das eleições para a liderança. Na primeira volta, três candidatos tentaram convencer o eleitorado. Rui Rio, actual presidente do partido, prosseguindo o seu discurso de proximidade, por vezes pouco ortodoxo, em termos políticos, ficou a uns míseros 0,56% da maioria absoluta, que o re-elegeria automaticamente. Luís Montenegro, uma figura próxima à secção concelhia de Arouca, que passou dois anos a trabalhar na oposição interna a Rio, acabou por ser o grande derrotado, ao não conseguir vencer a primeira volta. Miguel Pinto Luz, aos olhos dos não militantes um ‘outsider’, cumpriu o seu papel, passou a sua mensagem, e, agora, sai de cena.

Em Arouca, contra o que seria de se esperar, Rui Rio venceu por uma ínfima margem de três votos, o que pode ter algumas leituras relevantes. Desde logo, ainda que por uma margem mínima, não deixa de ser uma derrota da actual Comissão Política Concelhia, cujo apoio a Luís Montenegro já havia sido manifesto. Os militantes sociais-democratas de Arouca elegeram os representantes da sua concelhia para serem a sua voz no próximo congresso, mas não elegeram o candidato que esses mesmos líderes apoiavam. Numa estrutura em que a rede de apoios é fundamental para a afirmação das comissões políticas de secção e das personalidades que se pretende (ou não) alavancar, estes resultados deixam no ar uma dúvida importante, que se prende com a forma como os militantes arouquenses olham para os seus líderes locais, deixando uma mensagem de discordância com a sua linha de pensamento. Em caso de vitória de Rui Rio (o que, com estes números, parece o mais provável), como se posicionará a secção arouquense do PSD perante a sua Direcção Nacional? Que tipo de relações manterá com a sua Comissão Política Distrital? Que figuras conseguirá congregar em torno de um projecto credível a apresentar aos arouquenses para as próximas eleições autárquicas e, a médio prazo, que figuras poderá apontar como elegíveis nas legislativas?

Estas são apenas algumas das questões a que o PSD Arouca terá de responder com alguma brevidade, ao mesmo tempo que deve, urgentemente, preocupar-se com a imagem que quer ter e com a mensagem que quer passar aos arouquenses. Os tempos que vivemos, ao contrário do que as redes nos fazem crer e de um mundo que parece estar ao alcance de um indicador a deslizar num ecrã, são de proximidade. Qualquer construção depende do alicerce, e o alicerce de um PSD a sério só será firme se partir das suas secções concelhias e, dentro das secções concelhias, a partir de cada freguesia, de cada lugar. Mais do que definir uma estratégia baseada no que os outros pensarão sobre o PSD, é o PSD que tem de afirmar, de forma vincada, o que pensa e o que pretende. Esse sempre pareceu ser, pelo menos aos olhos de quem está de fora, o desiderato de Rui Rio. Durante dois anos, foi o próprio partido que lhe dificultou a vida. O mesmo partido que se prepara para o re-eleger, num enorme mar de contradições.

3 de Janeiro de 2020 – You only cross my mind in winter

Há canções que nos entram no ouvido de tal forma que se nos entranham no coração. Como uma canção de Inverno, esse Inverno onde volto de vez em quando, lembrando que foi no Inverno que voltei a casa, é no Inverno que volto a casa. O mesmo Inverno que me habituou ao cheiro da pedra húmida da neve e da geada. Do fumo das chaminés, que nos leva às lareiras. Dos cachecóis e dos gorros. De gente na rua só quando tem de ser, para que os encontros sejam ainda mais ‘sorridos’. Mas também o Inverno onde procuro as tuas pegadas, não para as encontrar, mas porque elas ficaram ali marcadas. O Inverno em que foste, em que chegaste, em que o frio se entranha na carne, mas não chega ao coração. Porque, no coração, está a música. Vem. Ouve.

Sting/J.S. Bach – ‘You only cross my mind in winter’

But something makes me turn, I don’t know, 
To see another’s footsteps there in the snow, 
I smile to myself and then I wonder why it is 
You only cross my mind in winter

Sting

1 de Janeiro de 2020 – Morgen

Hoje é o dia em que, ontem, teremos dito, mesmo que em silêncio, que amanhã o sol voltará a brilhar. Amanhã, no caminho que percorrermos, voltaremos a encontrar-nos e, em nós, a encontrar a felicidade. Talvez numa praia de areal largo, que iremos percorrer, até às ondas azuis do mar. Esse mar que nos inundará o olhar. Esse olhar único, olhos nos olhos. Num silêncio de felicidade.

‘Morgen’ – Richard Strauss (Joyce DiDonato)

30 de Dezembro de 2019 – The loudest voice

Ver Russell Crowe vestir a personagem de Roger Ailes, criador da Fox News, é algo que, sem se ver, pode parecer improvável. Mas, depois de vermos, não conseguimos deixar de continuar a ver, quase como uma compulsão, imposta pela permeabilidade e tenacidade que Crowe consegue trazer de Ailes para nós. Numa altura em que destrinçar o que são notícias e o que é ruído se vai tornando cada vez mais difícil; numa altura em que Trump e outros que tais comandam países (o mesmo Trump que se fez muito à custa da Fox); numa altura em que sensacionalismo, oportunismo e histeria generalizada são o dia-a-dia; parece fazer sentido, mais do que nunca, o que Roger Ailes dizia com frequência: ‘o público não quer ser informado, quer acreditar que está a ser informado’. Depois, há o historial de abusos de poder, de abusos sexuais, de manipulação, do que são as notícias e do que é a forma como as encara quem as faz, quem as veicula e quem as recebe. No meio disto tudo, há uma voz que se ouve mais alto. A de Ailes.

29 de Dezembro de 2019 – Pinocchio

O ano está quase a começar, e com ele vem um desafio grande. O de dar corpo sonoro a uma obra já muitas vezes revisitada, o famoso ‘Pinóquio’, de Carlo Collodi. Este corpo a que queremos dar vida, é diferente. É uma música interessantíssima, composta por Pierangelo Valtinoni, que tem tido a enorme paciência de responder a mensagens de correio electrónico com uma amabilidade desconcertante. Espera-nos um trabalho árduo, mas ele torna-se alegre, quando o propósito é fazermos coisas bonitas. Aqui fica um bocadinho dessa música lindíssima, o excerto em que Pinóquio se apercebe da sua desgraça e se lembra de quem lhe deu vida, mas em que, ao mesmo tempo, não desiste dos sonhos, como que pressentindo que algo bom irá acontecer, e as coisas irão consertar-se. Esta é, mais ou menos, a parte em que estamos agora. ‘All’opera, all’opera’.

‘Pinocchio’ (exc.) – Pierangelo Valtinoni

28 de Dezembro de 2019 – A primeira tentação de Cristo

Vamos muito mal quando não somos capazes de rir-nos de nós próprios. Talvez seja, precisamente, aqui que começa o (bom) sentido de humor. O Brasil resolveu ater-se a uma árvore, em vez de rir da e com a floresta. O colectivo humorístico ‘Porta dos Fundos’ produziu e realizou, para a Netflix, um especial de Natal, com o título ‘A primeira tentação de Cristo’. E quem vê o pequeno filme, sem o pré-conceito que as muitas reportagens televisivas sobre o assunto nos venderam, pouca importância dá ao facto de a personagem de Jesus Cristo ser ou não ser, ou não ter a certeza de ser ou não, gay. Ou de Deus, Maria e José terem uma relação ‘aberta’. A caricatura, o humor, vive (vivem) do exagero. E podemos atingir esse exagero com mais ou menos refinamento, mas cada um pode (e deve) ser capaz de olhar criticamente para as coisas, e formular o seu juízo. Tal como rirmos de nós próprios é (deve ser) um acto profundamente individual.

27 de Dezembro de 2019 – Concerto de Natal

Foto: Avelino Vieira

Aproximando-se o final de cada ano, mais do que sabermos, já sentimos que é obrigatório juntarmo-nos, para que este concerto seja uma realidade. É uma espécie de prolongamento do espírito familiar do Natal. Apesar das limitações, apesar das dificuldades, apesar de tudo, juntamo-nos, e fazemos, juntos, isto. Tentando, a cada ano, que algo de diferente aconteça. Mostrando, ainda que só um bocadinho, que trabalhamos, todo o ano, para fazer coisas assim. Conseguindo, sempre, o carinho do público, sempre presente, sempre apreciador, sempre aplaudindo. A música tem destas coisas, e Arouca é uma terra de músicos. Esta é, de certa forma, uma pequena prenda de Natal que damos a Arouca e aos arouquenses. Pode, nem sempre, corresponder às expectativas. Mas é, sempre, todos os anos, uma prenda com muito valor.