Afinal não é só onde se está a aprender a fazer cultura que estas coisas acontecem. Em pleno Panteão de Roma, dois ciosos funcionários mandaram terminar um concerto, quando ainda faltavam alguns minutos para a hora marcada. Os músicos ficam, inicialmente baralhados, do público grita-se «vergonha», esboçam um recomeço, mas há alguém que vem, de forma ainda mais enérgica, mandar retirar. As mais altas instâncias italianas já ordenaram a abertura de um inquérito. É nestas alturas que quem se dedica à música sente o que de pior se pode sentir: uma profunda ingratidão e desrespeito pelo trabalho minucioso, quotidiano, às vezes sofrido, para que, muitas vezes em breves minutos, a música soe como deve soar. É que, apesar de se tratar de uma arte do efémero, raramente se percebe (e valoriza) o trabalho que está por trás daquela fluidez com que um músico expõe os seus sons. Muitos acompanham, diariamente, os treinos dos «craques» do seu clube, para, ao domingo, verem os falhanços de baliza aberta. Pois bem, os músicos também «treinam» (e muito) todos os dias. Só que não se podem dar ao luxo de falhar «penalties».

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A SIC transmitiu, ontem, uma grande reportagem em que deu a conhecer o funcionamento quotidiano da Presidência da República. Cuidadosamente, não se falou sobre o trabalho comunicacional, e foram muitas as reservas à resposta a algumas perguntas, mas valeu pela demonstração de como o Presidente vive o dia-a-dia. Esta reportagem fez lembrar as embalagens de doces conventuais. Sabemos os ingredientes, sabemos que têm de ser misturados, e o bom senso diz-nos que aparência final a mistura deve ter. Contudo, há sempre aquele segredo, aquela forma de misturar tudo, a ordem das coisas, que nunca saberemos. Foi pena que apenas ficássemos a saber que os assessores de Cavaco Silva lhe lêem e seleccionam as notícias. Era interessante vermos como preparam comunicações ao país, como lidam com a internet, como lidam com os jornalistas, como comunicam. Talvez numa «parte 2» fiquemos a saber.

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Ontem, Medina Carreira foi o convidado da «Grande Entrevista», de Judite de Sousa. Hoje, nem os jornais nem os restantes «media» falam muito sobre isso. Talvez porque é incómodo ouvir que não vivemos tempos difícieis, porque não é agradável verificarmos que os políticos que tivemos recentemente (e temos actualmente) são francamente fracos, porque não nos livramos da corrupção, porque pensamos com vistas curtas, porque, em última análise, estamos a falar (no entender de muitos) de um pessimista nato e sem crédito. Medina Carreira fala com desassombro e sem compromisso da situação actual, com as letras todas, com as palavras que têm de ser usadas. Não falarmos sobre isso, não promovermos a discussão sobre os seus pontos de vista, não querermos ouvir que a situação que vivemos não é fácil e as razões para tudo isto, é enterrarmos a cabeça na areia, fazendo de conta que tudo está bem, quando, sabemo-lo, isso não é, nem de perto nem de longe, verdade.

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Que título comprido… É engraçado podermos comentar as notícias do dia seguinte. O jornal «Público» avança no seu «site» que amanhã irá publicar uma sondagem, segundo a qual perto de 60% dos portugueses acredita que Sócrates mentiu à Assembleia da República (logo, aos portugueses), ao afirmar-se desconhecedor do negócio PT/TVI. Contudo, também uma maioria diz que o Primeiro-Ministro deve prosseguir a governação. «As sondagens valem o que valem», sabemo-lo bem. Tudo depende do que se pergunta, de como se pergunta, a quem se pergunta e quando se pergunta. Mas não deixa de ser curioso. De certa forma, manifesta aquela nossa propensão para falarmos alto na roda de amigos para criticar, mas muito baixinho (ou não dizer nada, de todo) quando se refere a apresentarmos uma alternativa. Em suma, prova que somos portugueses, em Portugal.

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Na espuma dos dias, às vezes há notícias que nos escapam, mas que não devem ficar para trás. Em 140 países, Portugal é a sexta maior «pegada hídrica». O cálculo é feito com base na soma de toda a água utilizada para produção de bens e serviços, bem como do consumo doméstico. Portugal consome 6203 litros per capita, ou seja, cada um de nós usufrui, em média, de mais de 6000 litros de água por dia. E que uso fazemos dela? Bem, num país que não produz tudo o que consome, «damo-nos ao luxo» de gastar 82% da água na agricultura, ficando 13% para a indústria e 5% para consumo doméstico. Mas não é só, apesar de sermos o sexto maior consumidor de água, temos uma taxa de escassez de 33%, sendo que quase 67% dos nossos recursos hídricos provêm de Espanha. Os números dão que pensar.

Bacia hidrográfica do Minho: 157 litros por dia/habitante
Bacia hidrográfica do Douro: 165 litros por dia/habitante
Bacia hidrográfica do Vouga: 179 litros por dia/habitante
Bacia hidrográfica do Mondego: 169 litros por dia/habitante
Bacia hidrográfica do Lis: 160 litros por dia/habitante
Bacia hidrográfica do Tejo: 203 litros por dia/habitante
Bacia hidrográfica do Sado: 258 litros por dia/habitante
Bacia hidrográfica do Guadiana: 228 litros por dia/habitante

(Fonte: Plano Nacional da Água)

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Normalmente, é o parente pobre. Porque se diz que a cultura não enche a barriga, porque não fica, como uma estrada ou uma obra onde se despejem algumas toneladas de betão. Mas, mesmo sem entrarmos no debate sobre a importância da cultura para a formação de um povo, há números que provam que esta visão, porventura tacanha, pode ser contrariada economicamente. Em números de 2006, o sector cultural gerou 2,8% da riqueza do país, com um valor acrescentado bruto de quase 3.700 milhões de euros. Foi, ainda, responsável pela empregabilidade de 127 mil pessoas (2,6% do emprego, em termos nacionais), ao que corresponde, no período de 2000 a 2006, a criação de 6500 empregos, apontando para um crescimento de 4,5%, quando a economia nacional cresceu 0,4%. Mais ainda, a riqueza gerada com a cultura ultrapassa o sector têxtil, do vestuário e da alimentação. Estas e outras novidades, podem ser conhecidas aqui.

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A democracia já não nos chega. Sabemos bem que, de todos os maus sistemas, a democracia é o menos mau. Mas, mesmo sendo o menos mau, o tão mau em que se está a transformar é mau demais. Os nossos representantes já não nos representam, ou então representam o pior de nós, fazendo-nos desacreditar na ideia política de que o homem é intrinsecamente bom, mas a sociedade é que o corrompe. O que parece acontecer, é que a sociedade, ou melhor, a política amplia o que de pior temos. Quantos de nós não precisariam, neste momento, de se «desenrascar», de «ter um bom emprego», de poder «pôr e dispor», de ter poder? Talvez sejam só algumas das razões para sentirmos que delegar poder, como a democracia nos pede, já não nos chega, sendo uma das soluções possíveis decretar que os votos brancos, nulos e as abstenções possam contar para o preenchimento de lugares no Parlamento. Porque em alguns casos, apesar de haver quem as preencha, parece que temos, de facto, as cadeiras vazias.

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Apesar de nem sempre o sentirmos da melhor forma, muitas vezes a diferença reside apenas entre estar e não estar. Mesmo que impere o silêncio, porque se temos dois ouvidos e uma só boca, algo deve significar. Mesmo que não encontremos as palavras correctas, das muitas que nos povoam. Mesmo que só consigamos apresentar um olhar confuso e impotente. A diferença substancial é entre estarmos e não estarmos. Mesmo que nos desculpem as palavras que não ajudem nada. Mesmo que o que digamos não altere um grão de areia que seja, em todo o universo. A diferença substancial é entre estarmos e não estarmos. Haja o que houver, eu quero estar. Sempre.

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Numa altura em que a chama de Barack Obama parece não estar tão vigorosa, curioso ou não, redescubro o homem (ou o que se faz dele), através do livro «A minha herança». Fruto de uma oferta generosa e muito simbólica, primeiro estranhei mas, confesso, começo quase a entranhar. O conflito interior de um negro, na América das oportunidades, quando a afirmação dos negros era tudo menos pacífica. As dificuldades de expressar um sentimento de revolta e inadaptação. Os erros e os acertos de um homem que, no fundo, apesar da cor, dos defeitos e maus caminhos, apesar de ser o homem mais importante do mundo, apesar do Nobel da Paz, apesar de tudo, no fim de contas, um homem como outro qualquer, com um percurso como outro qualquer. Mas que é interessante acompanhar, redescobrir.

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Acredito firmemente que precisamos de silêncio. Precisamos de silenciar o pântano, o correr das águas das intempéries, os alertas intermináveis, esta chuva, este granizo imparáveis. Porque, ao mesmo tempo, apetece perguntar a Deus o porquê disto tudo, se a Ele tudo é possível, se Ele nos quer bem. Porquê? Porque nos dá a hipótese de escolhermos, quase sempre, entre dois ou mais caminhos, apesar de, às vezes, chegarmos a becos sem saída. Para nos ajudar a fechar os olhos e procurar esse silêncio quase «oracional», apareceu-me este projecto: «Silêncio». Trata-se de uma edição discográfica de música sacra contemporânea, que surge devido às comemorações dos 25 anos do Departamento do Património Histórico e Artístico da diocese de Beja. É um conjunto de obras que foram encomendadas para este efeito, e que são interpretadas pelo «consort Sete Lágrimas», obras essas que foram compostas por um católico (João Madureira), um ortodoxo (Ivan Moody) e um protestante (Andrew Smith), que usaram textos do Génesis, das Lamentações e da Paixão. Façamos silêncio.

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