26 de Dezembro de 2019 – Years and Years

Tentar prever um futuro não muito longínquo pode ter a mesma dose de facilidade como de dificuldade. Tentar, é seguir um caminho, e ver, cosendo todas as partes, no que dá. ‘Years and Years’ é um pouco isso. Os Lyons, de Manchester, vivem uma vida absolutamente normal, até que, numa noite do ano 2019, um míssil nuclear explode, alegadamente, algures no oriente, transformando-se num acontecimento com repercussões globais. A economia desmorona-se, a política entra em desvario, a sociedade desorienta-se. Tudo isto, ao longo de 15 anos, retratados em seis episódios, com as vidas a fazerem e desfazerem coisas, sob o olhar sempre imperial da avó Muriel, quase centenária. Vale a pena ver.

25 de Dezembro de 2019 – Presente (no) Natal

É interessante que se associe a palavra ‘presente’ ao Natal. A troca de presentes foi tomando conta de um ritual que sempre esteve muito para além disso. O Natal é a altura do ano em que todos queremos estar presentes. E esse, é o maior presente que se pode dar e receber. Termos a certeza de que, durante aquele tempo, não estaremos dependentes do passar do tempo, das tarefas a realizar, das metas a atingir. Termos a certeza de que basta estarmos. Darmos tempo e espaço para que as coisas aconteçam, para que os sorrisos se rasguem, para que as saudades, em alguns casos, se dissipem. O Natal existe porque alguém se fez presente, e continua a fazer-se presente, em nós e no que fazemos. É por isso que não haverá presentes de Natal. Haverá, sim, um presente no Natal.

24 de Dezembro de 2019 – A terminar afinações

O órgão é um instrumento maravilhoso, que, para ser afinado, precisa da paciência, minúcia e precisão de um relojoeiro ou de um cirurgião. Nos últimos cinco dias tive o privilégio de acompanhar de perto os trabalhos realizados em dois fantásticos instrumentos: o órgão de tubos do Mosteiro de Arouca e o órgão ‘Grenzing’ da Igreja Matriz de Chave. Foram dias de enorme aprendizagem, com a oportunidade de conhecer ainda melhor as entranhas destes instrumentos, o que os faz soar como soam, o que fazer para permitir que mantenham as suas vozes o mais límpidas possível. Terminámos na noite de Natal. Terá sido, eventualmente, uma espécie de prenda.

11 de Dezembro de 2019 – A morte melancólica do Rapaz Ostra

É impossível ficar-se indiferente ao mundo único e paralelo para o qual Tim Burton nos faz viajar, sempre que cria alguma coisa. Basta pensarmos nos filmes que realizou. Desta vez, a viagem é através da literatura e da ilustração. Ao longo das páginas do pequeno livro, as viagens são alucinantes, e com companhias tão extravagantes quanto quase reais. A certa altura, pensamos que também nós já pensámos, já vimos, já sonhámos com aquelas personagens, com estaturas e figuras não muito diferentes, com histórias e vidas muito parecidas. ‘A morte melancólica do Rapaz Ostra’ é só um pretexto para desfiarmos o novelo das histórias. Em versos simples, como quando éramos crianças e até os cadernos de duas linhas podiam ser divertidos. Quando os limites da imaginação eram os únicos que contavam, Quando podíamos contar (e viver) todas as histórias que quiséssemos.

10 de Dezembro – Tempo(s)

A forma como usamos o tempo faz-nos encará-lo de formas diversas. Nestes dias, que são (quase) os últimos, parece que tudo passa depressa, o tempo é pouco e as coisas são muitas, fazemos muita força para que nada fique por fazer. Mas o ‘tiquetaque’ continua, consigamos ou não cumprir o que estabelecemos. E verificamos que tudo é uma questão de perspectiva. Passamos os dias a fazer ‘zoom in’ e ‘zoom out’ às coisas que nos vão surgindo. E o tempo segue passando. Não tarda, é Natal. Termina o ano. Voltamos a usar o ‘zoom’ para olharmos para trás e fazermos balanços, para olharmos para a frente e fazermos projectos. E o tempo segue passando. ‘Tiquetaque’, ao ritmo de cada passo que escolhamos dar, a cada momento. No presente.

9 de Dezembro de 2019 – Fuga ‘Boris Johnson is a Lying Shit’

Explicando a coisa de uma forma simples, uma ‘fuga’, em música, é um exercício fascinante de composição, em que um tema surge imitado, nas várias vozes, repetindo-se, desenvolvendo-se, encaixando-se na perfeição, mesmo começando em pontos diferentes da corrente musical. Hoje descobri, algures na interenet, uma fuga composta com base num tema assaz interessante. Tanto musicalmente, como, sobretudo, em termos de conteúdo. Basicamente, o que diz é que ‘Boris Johnson é uma merda mentirosa’, numa tradução mais ou menos livre. E é delicioso ouvir.

8 de Dezembro de 2019 – Os meus meninos…

Não tenho retratos. Nem vídeos. Nem sons. Mas tenho tudo o que fizemos gravado na memória, e isso, sempre me disseram, é o mais importante. Ontem, no meio da azáfama do dia, tivemos um pequeno concerto com os meus meninos da Banda Juvenil da Banda Musical de Arouca. E que concerto. Aquela gente toca mesmo muito bem. Os meus meninos, muitos deles tive o prazer de ensinar (e aprender) há alguns anos atrás, estão cada vez mais fabulosos. No fundo, sou um privilegiado por poder trabalhar com estes miúdos, que me ensinam como gente grande. Obrigado, malta.

7 de Dezembro de 2019 – O Coro

Começa hoje a ser exibida, na RTP, uma série documental com cinco episódios sobre a música coral. João Henriques mostra-nos que cantar é algo que diz muito aos portugueses, que o fazem de formas muito distintas. Mas, sobretudo, o que ficará, certamente, patente é o que une estas pessoas, que resistem fazendo coisas juntas, quando tudo as convida a serem mais individualistas. Já John Cage dizia que ‘tudo isto aconteceu por causa da música’. Será por isso.

6 de Dezembro de 2019 – Tempo de reflectir sobre caminhos e rumos

À medida que o Natal se vai aproximando, começamos a encarar as coisas de forma diferente. A proximidade do final do ano leva-nos a fazer balanços e projectos para o futuro. A proximidade da família faz com que sintamos as coisas de outra forma, com quantidades diferentes de fraternidade, de alegria, de solidariedade. Até o frio do Inverno faz com que respiremos um ar diferente, e há aromas que se nos entranham na memória e ficam, para sempre, associados a esta quadra.

Consumismos à parte, o Natal deste ano vem temperado, no que à política diz respeito, com uma pseudo-discussão sobre uma pseudo-regionalização que passou a estar na agenda não se sabe bem porquê. Como vem sendo costume português, as reformas ditas sérias nunca são pensadas a partir de uma necessidade sentida pelas pessoas, ou num contexto de proximidade. Primeiro decreta-se, e depois vê-se. No caso da regionalização, o debate contrasta claramente com o contexto local, em que vemos Juntas de Freguesia a reclamarem competências, Câmaras Municipais a negociarem com o Governo sobre o que querem gerir e, sobretudo, dinâmicas locais que marcam a diferença, num equilíbrio entre proximidade com os cidadãos e afirmação no contexto regional e até nacional. Arouca é, claramente, um exemplo disso. Se olharmos bem para o caminho percorrido, verificamos que a ‘marca’ foi criada, ou deixada, se quisermos, partindo das dinâmicas locais, gerando uma profunda identificação com os arouquenses, que hoje, muito mais do que há alguns anos, se orgulham das suas origens. Essa ‘marca’ não é compatível com ‘coligações’ regionais, e não pode (nem deve) ser submetida a qualquer tipo de gestão intermédia da qual possa vir a ficar dependente. Além disso, a proximidade aos arouquenses e o seu envolvimento na construção de propostas, nos processos de decisão e até mesmo na produção de eventos foi algo que foi sendo cada vez mais cultivado, sendo hoje um activo de que não se pode (nem se deve) abdicar. Isto para não falar das possibilidades que se abrem em termos de teias de interesses, favorecimentos ou desfavorecimentos decididos a partir de afinidades políticas, ou, simplesmente, a criação de cargos que apenas servirão de prateleira ou trampolim para políticos profissionais.

Outra das coisas que assusta, para além destes ímpetos reformistas desfasados da realidade, é a tremenda limitação de horizontes, no que diz respeito ao alcance das medias que possam ser tomadas. Os políticos portugueses, em geral, têm uma tremenda dificuldade em pensarem medidas que ultrapassem o médio prazo dos mandatos para os quais são eleitos. Qualquer político que se preze começa, depois de eleito, por destruir completamente o que foi feito antes, para que possa, enfim, deixar a sua pegada. Depois, tratará de implementar as medidas necessárias à sua reeleição. Por fim, poderá pensar em anunciar uma ou outra medida de longo prazo, já contando que, quem venha depois de si, irá reverter ou alterar, para mudar a forma da pegada. Em Arouca, felizmente, não tem sido assim. Independentemente das opções (sempre questionáveis), encontramos alguma dimensão estratégica nas decisões tomadas, e mesmo que nem tudo corra como gostaríamos, verificamos que houve um percurso feito e alguns (bastantes, podemos concordar) frutos colhidos. Enquanto isso, a Oposição baseia a sua acção numa colecção de ‘reparos’, limita-se a criticar a estratégia e sente-se confortável ao não apresentar qualquer tipo de visão alternativa a longo, médio e, por vezes, até curto prazo. Agora, que a quadra natalícia se vai aproximando, e um novo ano (com vida nova?) se aproxima, talvez seja hora de fazer os tais balanços e rever projectos futuros. Porque, mais do que fazer caminho, é preciso caminhar com rumo.

5 de Dezembro de 2019 – Retrospectiva do Spotify

Segundo o Spotify, das 643 músicas que ouvi este ano, houve algumas que se destacaram. Depois analisar, verifico que foram, basicamente, as peças que ouvi com os meus alunos, sobretudo com o intuito de conhecerem melhor alguns instrumentos, estilos e de como a música pode ajudá-los a serem, pelo menos, diferentes no seu dia-a-dia. ‘Idyll’ para cordas, de Janacek, ‘Oblivion’, de Astor Piazzolla, e o segundo andamento do Concerto para Clarinete, de Mozart, estão no topo. Não desgosto da selecção.