1 de Novembro de 2019 – Dos Santos e dos Fiéis

Não deixa de ser curioso o facto de a Igreja festejar, em dias seguidos, todos os santos e os fiéis defuntos. Aliás, as datas são frequentemente confundidas, misturadas ou até mesmo alteradas na cabeça de muitos. Independentemente disso, é bom lembrarmos os que nos precederam. Reavivarmos memórias, ensinamentos, momentos. Porque o que somos também lhes devemos, nem que seja apenas um pouco. E, ao mesmo tempo, lembrarmos que os santos são humanos. Não há santos que não tenham sido humanos. De carne e osso, e sentimentos e dúvidas, e erros e conquistas, e sofrimento e felicidade. E que, por tudo isso, foram exemplo. Precisamente pela sua humanidade. A mesma humanidade dos nossos, que partiram, deixando em nós um pedaço de si.

31 de Outubro de 2019 – Everything happens to me

Não gosto muito de publicar coisas performativas. Porque nem sempre correm bem, ou porque nem sempre há tempo para fazer mais do que uma tentativa. Esta foi a primeira e única tentativa de dar asas ao pensamento com ‘Everything happens to me’, de Hoagy Carmichael e Johnny Mercer. Não está perfeita, tem erros. Não soa como deveria. Mas procura, pelo menos, transmitir o que ficou, depois do último ‘A rainy day in New York’, de Woody Allen. Quem se der ao trabalho de ver o filme, ou simplesmente ver a letra da canção, facilmente perceberá a mensagem.

30 de Outubro de 2019 – Um outro pântano?

Foto: Paulo Vaz Henriques

No início do mês de Outubro, António Guterres alertou o mundo para a iminente bancarrota da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual é Secretário Geral. Segundo Guterres, até ao final do mês de Outubro, as Nações Unidas poderiam ficar sem dinheiro, pondo mesmo em causa os salários dos funcionários (cerca de 37 mil). Segundo se soube, o passivo andará na ordem dos 230 milhões de dólares (qualquer coisa como 210 milhões de euros), e já estariam em marcha algumas medidas para impedir despesas, mais no imediato, nomeadamente o adiamento de reuniões e conferências, bem como a redução ao mínimo das viagens, uma maior eficiência energética e o adiamento de compras. Apesar das gigantescas diferenças entre as situações, os contextos e as circunstâncias, é inevitável o déjà vu com a famosa declaração sobre o ‘pântano’ em que o país tinha mergulhado, quando António Guterres se demitiu do cargo de Primeiro-Ministro de Portugal.

As últimas reservas de tesouraria podem esgotar até ao final do mês

António Guterres – Secretário Geral da ONU

29 de Outubro de 2019 – Criatividade musical

Foto: Filipe Pinho

Uma das coisas mais gratificantes de trabalhar com artes é o facto de termos sempre (se assim o quisermos) algum poder criativo. Depois, ou usamos, ou não. Usar o poder criativo, em concreto na música, só vale a pena se, ao usar, pudermos ousar. A sensação de vermos aparecer, à medida que se vai tornando física, entranhada, uma peça composta por um compositor sobre o qual temos de procurar saber mais, é fantástica. Mas a sensação de vermos algo surgir de nós, de dentro de nós, e em colaboração com outros, pode ser ainda melhor. Codificar pensamentos, sentimentos, sensações, transmitir ideias… Hoje, foi um desses dias. Dedicado ao que chamámos ‘criatividade musical’. Dia de pôr tudo isto em prática. Sobretudo usar e ousar.

28 de Outubro de 2019 – A rainy day in New York

Woody Allen é um realizador genial. Feita esta apreciação, de carácter meramente subjectivo, tudo o resto se constrói a partir daqui. Uma perseguição estranha, um boicote, um julgamento na praça pública (nada que, em Portugal, não se faça todos os dias). Mas também ‘A rainy day in New York’. Woody Allen costuma colocar bocadinhos de si nas personagens que faz passar pela lente e pelo ecrã, e a forma como tece os enredos e as relações entre elas é sempre engraçada, neurótica q.b., original e culta. Combinação só possível com ele aos comandos da coisa. O resto, é a arte de contar uma história. E isso, é melhor ser julgado por cada espectador. Sem outros preconceitos. Não vá chover e, com a chuva, vir uma série de contratempos, que põe a vida ao contrário do planeado. E, nessa altura, é preciso decidir. Às vezes, vale a pena andar à chuva. Saber andar à chuva. Ver Woody Allen.

27 de Outubro de 2019 – Catherine, the Great

É curioso vermos uma série de época centrada em páginas importantes da história da Rússia temperada com ‘british accent’. De qualquer forma, a mais recente série da HBO parece ser bastante interessante. ‘Catherine the Great’ tem os ingredientes habituais destas séries. Política, intriga, escândalo, conflitos de interesses e o facto de desenrolar-se numa região particularmente idiossincrática como a Rússia. É curioso como o país dos cossacos é, ainda hoje, uma incógnita para nós, ocidentais. Há afinidades claras com a Europa, e isso vê-se também nesta série. Mas há muitas outras coisas que desconhecemos, que nos parecem estranhas, que só parecem ser possíveis ali. Hoje, como sob o reinado de Catarina.

26 de Outubro de 2019 – Festival da Castanha

No ano passado, foi assim. Em outros anos, foi diferente. Quando se está por dentro da festa, sobra pouco tempo para desfrutarmos do que ela nos pode proporcionar. Agora, é diferente. Estar de fora, é como poder olhar para tudo de uma perspectiva nova. Hoje vai ser dia de ir à festa. Há quem diga ‘que quem vai à festa, três dias não presta’. Bem, haverá sempre a perspectiva de ressuscitar ao terceiro dia. Se festa é festa, e ninguém dorme, vamos a ela.

25 de Outubro de 2019 – Everything is (not) political

Desengane-se quem pense que quem decide tudo sobre tudo são os políticos. Não é verdade. Mesmo que queiram decidir em seu proveito, os políticos não conseguem decidir nada se não tiverem a conivência da máquina. E a máquina é toda a estrutura administrativa, burocrática, prática do sistema. Um conjunto de rostos que produzem uma entidade sem rosto, que verdadeiramente faz girar as rodas dentadas necessárias para dar corpo às decisões. Hoje, o ‘Sexta às 9’, da RTP, destapou um pouco do véu por trás das notícias do momento que envolvem gentes de Arouca em polémicas políticas nacionais. E o que fica, nas entrelinhas do que é factualmente apresentado, é isto mesmo. Os políticos podem decidir à vontade, mas é a máquina quem faz com que as coisas andem. Ao ponto de promoverem a decapitação da estrutura, porque sabem que, na realidade, a cabeça é a parte menos importante. Hoje, a máquina é que comanda a política. Desengane-se quem pense que é ao contrário. A máquina e alguns políticos que estão por dentro do funcionamento da máquina. Por isso resistem aos golpes mais mortíferos. Por isso, eventualmente, pactuam com (ou executam, ou ajudam a executar) as decapitações ou depurações da máquina. Por isso oferecem presentes envenenados, para que outros políticos pensem que podem, de facto, mudar alguma coisa. Depois, vai-se a ver, e nada. Afinal, era preciso alimentar a máquina. Alguém dizia que ‘everything is political’. Mas talvez seja mais adequada a música dos Pink Floyd: ‘welcome to the machine’.

24 de Outubro de 2019 – Trump e a obsessão pelos muros

Foto: Leah Millis / Reuters

Depois de dizer que a relação dos Estados Unidos com a Itália remonta ao tempo dos Romanos (os Estados Unidos da América só existem desde 1776), Donald Trump prometeu um ‘upgrade’ na construção do famoso muro na fronteira com o México. A obsessão pelos muros é tal que, desta vez, o presidente americano prometeu um muro magnífico, um muro grande, um muro verdadeiramente funcional, um muro que não dê para passar nem por cima nem por baixo. Um muro que estanque os fluxos migratórios e confira rigidez às fronteiras. Só que, desta vez, a promessa foi fazer um muro deste tipo no Estado do Colorado. Um estado que fica entre o Utah e o Kansas, que não faz fronteira com o México.

23 de Outubro de 2019 – O Pai Nosso de D. Tolentino

A Primavera está por toda a parte. É assim que tudo começa. Como se fosse parte de um ciclo de renovação, de renascimento, de vida. Para isso, como para tudo, é preciso escutarmos até ao fim. Escutarmo-nos, escutarmos o outro, escutarmos o silêncio. E, aí, procurar essa comunicação com o divino, com esse silêncio, com tudo o que o preenche, que pode ser o Universo todo ali. E, depois, as palavras ramificam-se. Em sentidos, em outras palavras, em ideias que já nos tinham passado pela cabeça, mas que, assim enquadradas, ganham sentido. A Primavera, como esse ciclo de vida, como a vida, como o Universo, como Deus, está por toda a parte. É só questão de darmos conta disso, e de percebermos que, com coisas simples como as palavras, ou até mesmo o silêncio, podemos fazer parte dessa mesma Primavera.