9 de Setembro de 2019 – Uma luz no parlamento inglês

Os parlamentos, seja em que país for, têm rituais próprios, mas não muito diferentes de uma linha comum, em que a retórica, quando bem utilizada, proporciona momentos, em muitos casos, históricos. John Bercow é o presidente do parlamento inglês, e tornou-se ainda mais conhecido quando, recentemente, pediu a um tal Boris Johnson que poupasse nos golpes de teatro, se comportasse e fosse um bom menino, porque há procedimentos, no ritual parlamentar, que têm de ser cumpridos. Hoje, num discurso de despedida, fez questão de sublinhar que o tempo em que teve a honra e o privilégio (sublinhe-se, a honra e o privilégio) de servir o seu país em funções políticas foi o mais gratificante da sua vida. Afirmou que não devia pedidos de desculpa a ninguém, porque não se arrependia de nada do que fez. E deixou uma bela definição do que devem ser os políticos de um país, e dos deveres a que são chamados: ‘duty to act not as delegates but as representatives to do what they believe is right’.

8 de Setembro de 2019 – Legados

Esta era a fotografia que ficava sempre no início das últimas crónicas do meu avô. Desde pequeno que me habituei a lê-lo, tanto nos textos que escrevia, como nas convicções que defendia, como nas conversas que mantínhamos. Com o passar do tempo, ficámos, ambos, como o Vinho do Porto, apenas com uma diferença: ele era de colheita ‘Vintage’, e eu estou apenas a chegar aos limites mínimos do ‘Tawny’. Mas esse tempo, permitiu-me aprender muito. E, em parte, a genética fez o resto. Sem que me tivesse guiado para aí, sem que tenhamos falado sobre o assunto, sem entrarmos nunca no espaço mais ‘nosso’ de cada um, partilhámos a escrita e a política. Com tudo o que isso implica. Mais uma vez, com uma diferença enorme de percursos e da sabedoria que o tempo nos dá (quase) de graça. Hoje, fui convidado a ficar com o espaço em que ele escrevia. Uma honra tão grande, a que não se consegue dizer que não. Um agradecimento que nunca será suficiente. Um desafio aceite assim, sem pensar. Com a certeza de que esse legado permitir-me-á aprender ainda mais, para que, um dia, possa ser quase tão bom como o ‘Vintage’. Por enquanto, divirto-me a percorrer caminho.

7 de Setembro de 2019 – Joana d’Arc

Quase a terminar a leitura do livro que Mark Twain considerou como a sua melhor e mais importante obra, já algumas coisas vão ficando a pairar. Como é fácil seguir os heróis, deixar-se contagiar por eles, ressuscitar, se for preciso. Mas, quando o herói cai em desgraça, cai sozinho. Deixa de ter ao seu lado todos os que com ele e por ele lutaram. A história não é nova. A Bíblia narra algo parecido. E se olharmos bem, no dia-a-dia não nos faltam exemplos destes. Joana d’Arc passou, em pouco tempo, da ignorância ao Paraíso e ao Inferno. Se quisermos, do nada a bestial e a besta. Assim, sem paragem obrigatória em qualquer apeadeiro. Houve quem dissesse, um dia, que a política é a arte do possível. Uma definição curiosa, mas que permite vários truques de interpretação. O que é possível é sempre discutível, e as convicções de cada um nem sempre estão alinhadas com o ‘possível’ de outros. Vale a pena ler Mark Twain sobre uma personagem que marcou, de forma indelével, a História da Europa. E, nas entrelinhas, reflectir sobre estes esquecimentos, estas mudanças de rótulo, esta forma como a sociedade vai olhando, de maneira radicalmente diferente, para as mesmas coisas. De um momento para o outro.

Já terás reparado que o nosso principal cavaleiro diz muitas coisas sábias e tem boa cabeça para pensar. Num dia em que seguíamos juntos a cavalo, discutíamos os grandes talentos de Joana, e ele disse-me: ‘Mas o maior dos seus dons é que ela tem olhos de ver.’ Ao que retorqui como um tolo, sem pensar: ‘Olhos de ver? Não lhe daria grande importância… todos temos.’ ‘Não’, insistiu ele, ‘são poucos os que os têm.’ Então ele explicou, e percebi o que queria dizer. Explicou que os olhos comuns apenas vêem o exterior das coisas, e assim fazem os seus julgamentos, ao passo que os olhos de ver penetram e lêem o coração e a alma, encontrando neles capacidades que o exterior não prometia nem dava a entender, e que os olhos comuns não detectam. Disse-me que o mais poderoso génio militar está destinado ao fracasso se não tiver olhos de ver, ou seja, se não souber ler os homens e escolher os subordinados com base num julgamento infalível. É como que uma intuição que lhe permite ver que este homem é bom para a estratégia, aquele para a refrega e o assalto audaz, aqueloutro para uma paciente persistência, e escolhe cada um para o devido lugar, e vence, enquanto o comandante sem olhos de ver dá a cada um deles o lugar que pertence a outro, e perde. Ele tinha razão quanto a Joana, e eu percebi.

‘Joana d’Arc’ – Mark Twain

6 de Setembro de 2019 – A casa

Há quem diga que a nossa casa é onde o nosso coração está. Mas de uma coisa não conseguimos fugir: a raiz. Ainda assim, sim. Talvez. Talvez a casa seja onde o coração está, ou onde tem de estar. O lugar onde regressamos, ao fim do dia, ao fim de contas. Onde voltamos a sentir tudo o que sentimos durante o dia, desfiando essas contas diárias, em balanços imaginários de deve e haver, como se fôssemos guarda-livros da vida. Depois, apurado o saldo, projecta-se o dia seguinte. Talvez já de olhos fechados, à procura de um sonho qualquer, que nos confirme que a nossa casa é ali. Onde o coração está. Mesmo que a raiz esteja mais longe. Ramificamos ali. Até ver.

‘A Casa’ – Rodrigo Leão

5 de Setembro de 2019 – Testamento de sangue

Há algum tempo atrás, sentado nos degraus da escada de uma igreja, para os lados de Cinfães, vejo aproximar-se uma senhora, igual a tantas outras, com cara de avó e de quem vinha, sorridente, das suas orações ou da sua visita ao cemitério. Ao bom dia respondemos com o bom dia, ao que se segue a pergunta banal ‘de onde é?’. Resposta banal, ‘de Arouca’. E é então que surge a surpresa. ‘Se é de Arouca, tem de ler um livro muito bonito que se chama Testamento de Sangue. A história passa-se naquela região, e tem capítulos que falam sobre o Mosteiro de Arouca. Leia. Vai gostar muito.’ A semente da curiosidade tinha germinado, e só parou de crescer depois de encontrar o livro num alfarrabista. ‘Testamento de Sangue’, de Alberto Pimentel. Uma história de fidalgos e monges de Alpendurada, de amores e desamores, honras e lutas liberais, e de uma fidalga que cantava e encantava quem vinha rezar ao Mosteiro de Arouca. Mas, mais interessante do que o livro, foi a forma como ele se deu a conhecer. E isso, não se esquece.

Nestas agrestes paisagens deslizaram muitos dias da minha infância, – da minha mocidade também. Conheço-as, quero-lhes, como se pudessem entender-me as recordações que me despertam. Aqui eduquei eu o meu espírito na doce meditação das horas saudosas. Todas estas serras alcantiladas, que recortam o céu, hão-de guardar ainda no mais sombrio dos fraguedos o eco de uma trova minha

‘Testamento de Sangue’ – Alberto Pimentel

4 de Setembro de 2019 – Sinais

Os britânicos continuam indecisos. Um passo para a frente, dois para trás e três ao lado, para tentarem perceber até que ponto os políticos estão a conseguir interpretar correctamente o sentimento do povo em relação à saída da União Europeia. E talvez estejam a conseguir, porque a desorientação é geral. Os brasileiros, enquanto varrem a cinza da Amazónia, equacionam rasgar o (des)acordo ortográfico inventado pelo senhor José Pinto de Sousa, também conhecido como Sócrates. Um (des)acordo que não respondeu a nenhum sentimento do povo, a nenhum uso instalado ou vontade expressa. Uma espécie de imposição, ou teima, em que o senhor em causa era pródigo. São apenas dois sinais do que pode acontecer quando o debate gira em torno de questões pouco dadas a maiorias, fracturantes, por vezes, e que, frequentemente, geram decisões tomadas com base em impulsos pessoais e não devidamente informadas e fundamentadas. Já nós, por cá, vamos assistindo a cada vez mais acidentes com aeronaves de combate a incêndios. O que talvez também seja sinal de alguma coisa. Cravando bem fundo, na consciência, a perda de vidas de quem deveria viver para ajudar a preservar outras.

3 de Setembro de 2019 – Às vezes, é preciso subirmos a uma montanha dentro de nós

Às vezes, é preciso subirmos a uma montanha dentro de nós, para vermos melhor o infinito em forma de horizonte. Para recolocarmos cada coisa em seu sítio, cada ruído na sua proporção, cada objecto com o seu tamanho. Às vezes, é preciso subirmos a uma montanha dentro de nós, para percebermos que é aí que temos de subir à montanha, mais do que fugirmos para outro lado qualquer. E percebemos que é precisamente ali que temos tudo, só não estávamos a conseguir ver. Às vezes, é preciso subirmos a uma montanha dentro de nós. Para percebermos que, porra, existimos.

2 de Setembro – A humanidade à deriva num iceberg

Ludovico Einaudi é um pianista e compositor, reconhecido em todo o mundo pela forma muito própria como trata as suas melodias. Com elegância, consegue equilibrar (o que nem sempre é fácil) a pureza das melodias com a estrutura minimalista das repetições e sobreposições sonoras constantes. Há algum tempo atrás, aceitou o desafio de tocar uma pequena peça sua enquanto estava à deriva num iceberg. Chamou-lhe ‘Elegy for the Arctic’, uma elegia para o Árctico, e foi a forma que encontrou para alertar-nos para todas as questões ambientais que estão na ordem do dia. Assim. Sem palavras. Após o susto pela quebra de mais um bloco de gelo, um breve trecho sonoro, e a imagem bruta de uma humanidade à deriva.

1 de Setembro de 2019 – Pelos caminhos de Fanny Owen

Amanhã, voltam a fazer parte dos itinerários de todos os dias alguns dos caminhos descritos por Agustina na sua narrativa sobre Fanny Owen. A trama envolve Camilo Castelo Branco, e é um retrato desses tempos em que o romantismo parecia estar em construção dentro de cada homem, em que tudo parecia precisar de ser exagerado para ser real, em que José Augusto estacionava o cavalo dentro do quarto de Camilo. A casa de Fanny Owen é mesmo ali ao lado, e a ruína deixa ainda espaço para imaginar o jardim onde se passeava com os amigos que disputavam a sua atenção e o seu amor, junto à estrada que cruzariam para visitarem o Senhor da Pedra. A Villa Alice continua a interrogar-nos sobre o tempo, sobre o passar do tempo, sobre o que fazer com o tempo. E de como esse tempo, esse passar do tempo, esse fazer do tempo garrote dos sentimentos, facilmente permite que a tragédia encontre, com relativa facilidade, os seus ingredientes.

Os dois amigos tinham suspendido os temas abissais e conversavam chãmente de coisas sem muita substância nem obrigação. Uma alegria obscura e simples tomava-lhes o coração; e, desse modo, encontraram um fervor quase hiperbólico que os levou a entrar na capela e a rezar. Teriam subido ao templo de Corinto, se lá estivessem, e consagrado um pensamento extasiado àquele lugar pagão cuja virtude lhes parecia familiar – a de lhes organizar as fantasias em forma de ortodoxia. Vagueando pelos caminhos, entraram pela demarcação de Vilar do Paraíso, lugar de veigas e pinhais, e onde havia um solar arruinado com portadas de pau. As ventanias tinham feito voar os caixilhos. Ao pé desse casão, com ar de abadia de frades expulsos, estava a igreja, mais pequena do que uma capela de aparições. Uma árvore cobria-lhe de sombra a torre. Era uma hora em que a paz do domingo parece saudar os mortos nos cemitérios.

‘Fanny Owen’ – Agustina Bessa Luís