23 de Fevereiro de 2020 – Don’t forget

Às vezes, descobrimos as coisas mais preciosas quase por acaso. E, nessa altura, guardamos o tesouro, de forma suficientemente secreta para podermos, sempre que queiramos, ir lá espreitar. Ainda há tesouros, ainda há, mais não seja, a capacidade de nos surpreendermos. E as preciosidades que descobrimos servem, precisamente, para nos lembrarmos de não nos esquecermos. De não nos esquecermos de nós. De não nos esquecermos de nos darmos. De não nos esquecermos de ver, olhar, observar. Mas também ouvir, dizer. De não nos esquecermos.

21 de Fevereiro de 2020 – 4540 Jovem

Convidaram-me para conversar sobre cultura, hoje, na apresentação de uma nova associação jovem, em Arouca. Quando me disseram que o Jorge Amorim ia falar sobre ambiente, fiquei mais descansado. Haveria sempre alguém para salvar a noite. A 4540 Jovem quer intervir nas áreas da cultura e do ambiente, coisas que parecem estar completamente desligadas, mas que chegámos à conclusão que são muito conciliáveis, e que, inclusive, podem dar origem a muito boas ideias. Foi interessante encontrar uma plateia jovem, dinâmica, motivada para fazer coisas. Quando há 20 anos toda a gente dizia que o associativismo ia acabar, que as pessoas não iam mobilizar-se, que os jovem iam estar completamente desinteressados do desenvolvimento das suas terras, a realidade provou que as teorias estavam todas erradas. O desafio que lhes lancei, depois de dizer uma série de coisas, foi que tivessem a coragem e o arrojo de fazerem diferente. Acredito que sim.

20 de Fevereiro de 2020 – Eutanásia

De repente, resolveu-se voltar a falar de eutanásia. Curiosamente, numa altura em que se verifica um profundo desinvestimento nos cuidados continuados e paliativos. Curiosamente, com uma estranha pressa de deixar o Parlamento decidir, o mesmo Parlamento que, sobre a regionalização, acha preferível perguntar ao povo. Curiosamente, quando se diz que o povo tem maturidade suficiente para decidir em consciência. Mas pouco importa. O que importa, é não deixar que estas decisões sejam tomadas a partir de convicções pessoais ou particulares, de experiências vividas ou exemplos concretos, que não podem, nem devem, ser generalizados. Como, por exemplo, a eterna questão que se coloca sobre a quantidade de portugueses que procuram a eutanásia em países em que ela é legal. Fala-se, sabe-se, comenta-se acerca do número de pessoas que, convictamente, desejam morrer de forma assistida. E aqui, a leitura pode ser traiçoeira. Uma das instituições que mais tem trabalhado esta questão, a clínica suíça “Dignitas”, terá acolhido e ‘tratado’, desde 2008, cerca de 2100 pessoas. Destes 2100, apenas 20 serão portugueses, e os registos não são claros se se trata de utentes à procura da eutanásia ou meros apoiantes da causa. Dizermos, portanto, que é uma solução muito procurada, pode não ser absolutamente verdadeiro. Os políticos portugueses costumam ser verdadeiros artesãos de filigrana, quando querem construir leis que prevejam tudo e mais alguma coisa. Vamos ver o que decidem acerca deste assunto.

18 de Fevereiro de 2020 – A fascinante aventura de ser-se músico

Quem conhece Pat Metheny não consegue ficar indiferente ao seu enorme poder de sedução e de inspiração. Sempre que há um trabalho discográfico novo, apesar de haver muito de habitualmente seu na sonoridade, há sempre algo de novo que é imperioso descobrir. É assim com ‘From this place’, que já foi sendo, aos bocadinhos, apresentado. O álbum que, segundo Pat, esteve toda a vida à espera de conseguir concretizar. Mas o que ressalta da entrevista que deu ao jornal espanhol ‘ABC’ é uma frase que tem tanto de simples como de verdadeira e até mesmo de lapidar. ‘Não consigo imaginar uma aventura mais interessante e mais recompensadora do que ser músico’. Só isto, basta.

15 de Fevereiro de 2020 – Road to nowhere

Ao fim deste tempo todo, a tão ansiada via que nos ajude a chegarmos mais rapidamente às auto-estradas mais próximas leva-nos, praticamente, a lado nenhum. Uma estrada que não leva a lado nenhum, como os ‘Talking Heads’ cantam, é suficientemente interrogadora sobre os dois pontos que une. Se sobre o lado nenhum, pouco haverá a dizer, muito haverá a pensar sobre o ponto de partida. E, sobre o ponto de partida, considerando que seja Arouca, podemos considerar que o trabalho de desenvolvimento, coesão territorial, preservação ambiental, equilíbrio entre a riqueza dos recursos naturais e a actividade turística, dinâmica empresarial e económica, entre outros aspectos que poderíamos equacionar, foi sendo feito. A luta pela continuação da obra, também, umas vezes acreditando ingenuamente em promessas claramente envenenadas, feitas por gente de carácter duvidoso, outras, cavalgando ondas políticas. Mas nada mudou. Continuamos a ter uma estrada que, pelo menos por enquanto, leva a lado nenhum.

O destino a que chegou a chamada Via Estruturante é fruto de dois tipos de teimosia. Primeiro, uma teimosia estrutural, que fez com que, contra tudo e contra todos, não se discutisse sequer qualquer alternativa de traçado, diabolizando qualquer voz dissonante do Executivo municipal da altura. Uma teimosia que radicalizou as posições entre os que eram a favor da estrada e os que eram contra a estrada. Uma teimosia que colou a um presidente de Câmara o distintivo de pai da obra e que elegeu o seu sucessor. Uma teimosia que, terminados os quatro mandatos autárquicos após a retirada do pai da obra, muitas promessas, anúncios, cerimónias, assinaturas e muita coisa publicada na comunicação social, manteve a estrada a chegar a lado nenhum.

Por outro lado, uma teimosia estruturante. Feita de muita diplomacia, trabalho de gabinetes, contactos, pressões, cedências. Uma teimosia que levou a que vários candidatos a Primeiro-Ministro assumissem a obra como prioridade. Que apresentassem soluções que pareciam desenhadas propositadamente para nós e para as nossas necessidades. Uma teimosia que fez com que se publicassem, recentemente, notícias sobre um eventual lançamento da obra, apesar de o relógio continuar a contar, depois do último compromisso assumido pelo Estado, e de o destino da estrada continuar a ser lado nenhum.

O destino da nossa estrada começou por ser o Porto, depois a A1, depois a A32. A teimosia, começou por ser a dos prós e contras, depois a da diplomacia, depois a dos anúncios sucessivos. O ponto de partida, esse foi-se desenvolvendo, como que à procura da força e da dinâmica suficientes para alavancar este objectivo. Estará, portanto, na hora de começar a pensar em outro tipo de teimosia, que seja mais efectiva, mais mobilizadora, mais unânime. Que não fique à espera da anuência de nenhum político nacional, nem muito menos do Governo. Que não fique à espera de nenhum ciclo eleitoral ou de nenhuma pseudo-oportunidade de financiamento, seja ele de que tipo for. Porque, nesta altura, a diferença está entre continuarmos a ter uma estrada que nos leva a lado nenhum, ou uma estrada que nos leve a um território com que todos nos identificamos, que idealizamos e que construímos juntos. Qualquer repetição de fórmulas do passado, que já verificámos não resultarem, apenas manterá o destino que já conhecemos. Lado nenhum.

30 de Janeiro de 2020 – Sons d’A Vila no meu Pé

O Ricardo é meu amigo para aí há 36 anos. Isto pode não querer dizer nada, mas pode querer dizer tudo. Quando me desafiou a contribuir para o novo projecto da sua ‘Vila no meu Pé’, e quando me disse que o objectivo era mostrar o órgão do Mosteiro, não hesitei um segundo. O órgão, para além de ser um instrumento fantástico, é um símbolo de Arouca, que deve ser conhecido, por dentro e por fora, por toda a gente. Hoje, ele publicou um cheirinho do que vem aí. Do que me lembro da conversa, não disse grandes asneiras. A ver vamos…

27 de Janeiro de 2020 – Por dentro

Baltazar apercebeu-se que havia uma ligação indizível e inquebrável com Blimunda quando deu conta que ela o havia olhado por dentro. Quando somos olhados por dentro, ou olhamos alguém por dentro, é como se o elo da corrente se fechasse, ou a roda dentada ficasse completa, pronta a rodar. É como se encontrássemos a peça do ‘puzzle’ que faltava para completar a paisagem que já sabíamos como era, mas ainda não tínhamos visto totalmente. O mesmo acontece quando nos olhamos a nós próprios por dentro. Para podermos ver bem onde acabamos e onde começa o mundo lá fora, e podermos esticar os limites impostos pela pele. E é a olhar por dentro que começa a viagem daqui para a frente, mas também para trás, para actualizar o que falta actualizar, dizer o que falta dizer, fazer o que falta fazer e não fazer o que falta não fazer. É por dentro que tudo existe. Na imaginação. No coração. Onde quisermos. Prontinho a acontecer. Quando quisermos que aconteça.

26 de Janeiro de 2020 – The New Pope

Às vezes, a melhor forma de compreendermos a realidade é através da ficção. Uma ficção que, de tão poética, chega a ser praticamente real. Paolo Sorrentino já havia surpreendido com ‘The Young Pope’, em que dava a conhecer um Papa extravagante, jovem, rígido, ‘sexy’. Um Papa personificado por Jude Law, que tanto podia ser santo e quase milagreiro, como facilmente era inflexível e quase retrógrado em algumas posições defendidas. Agora, com Lenny fora da cátedra de São Pedro, é John Malkovich que encarna o papa João Paulo III, que herda uma Igreja não muito diferente da que Francisco herdou. Claro que Sorrentino polvilha os episódios com rasgos de Tarantino ou Tim Burton, o que tempera, com a ficção necessária, a fácil colagem à realidade. Seja como for, vale a pena ver. Para crer, ou não.

25 de Janeiro de 2020 – As maravilhas de Itália

Os amores à primeira vista não se conseguem explicar. É mais ou menos o que acontece com a Itália. Conhecer este país, desvendá-lo, é como, no fundo, conhecer e desvendar vários países. Aliás, a Itália, enquanto país, é uma criação recente. A verdadeira Itália sempre foi um conjunto de Cidades-Estado, quase como um conjunto de países diferentes, reinos ou repúblicas diferentes, com a sua aristocracia própria, moeda própria, arte e artistas próprios. Claro que esta unidade na diversidade só poderia resultar em verdadeiras maravilhas, que a RTP está a mostrar, numa série de documentários que convém não perder de vista.

15 de Janeiro de 2020 – PSD: uma vista a partir de um ponto

Dizia, um dia, alguém que um ponto de vista é uma vista a partir de um ponto. Sempre que duas pessoas olham para um mesmo objecto, estão a vê-lo a partir de perspectivas diferentes, o que faz com que formulem juízos diferentes. Esta é, portanto, apenas uma vista a partir de um ponto, valendo, naturalmente, o que vale.

Numa altura em que o país precisa de uma Oposição firme, alternativa, mobilizadora até (não esqueçamos que, não tarda, teremos eleições autárquicas), o PSD ainda está à procura de um Norte que parece teimar em não chegar. Aquele PSD galvanizador, verdadeira herança de Francisco Sá Carneiro, que toda a gente gosta de citar e de ter como referência, existe cada vez menos. Em boa parte, porque, como alguns dos seus militantes constatavam, é um partido talvez demasiado democrático, talvez demasiado aberto, talvez demasiado ouvinte. O PSD é um partido de intensos debates internos, de fortes confrontos de ideias, à procura do rumo certo. E talvez seja esse o seu maior problema. A partir daí, abre-se a porta a que vários egos se posicionem, a que se dêem várias disputas internas desnecessárias, a que se prolongue à exaustão uma discussão identitária, que já há muito devia estar resolvida.

Na altura em que esta edição do Roda Viva esteja nas mãos dos leitores, o PSD estará, muito provavelmente, na fase final da contagem de espingardas, para uma segunda volta das eleições para a liderança. Na primeira volta, três candidatos tentaram convencer o eleitorado. Rui Rio, actual presidente do partido, prosseguindo o seu discurso de proximidade, por vezes pouco ortodoxo, em termos políticos, ficou a uns míseros 0,56% da maioria absoluta, que o re-elegeria automaticamente. Luís Montenegro, uma figura próxima à secção concelhia de Arouca, que passou dois anos a trabalhar na oposição interna a Rio, acabou por ser o grande derrotado, ao não conseguir vencer a primeira volta. Miguel Pinto Luz, aos olhos dos não militantes um ‘outsider’, cumpriu o seu papel, passou a sua mensagem, e, agora, sai de cena.

Em Arouca, contra o que seria de se esperar, Rui Rio venceu por uma ínfima margem de três votos, o que pode ter algumas leituras relevantes. Desde logo, ainda que por uma margem mínima, não deixa de ser uma derrota da actual Comissão Política Concelhia, cujo apoio a Luís Montenegro já havia sido manifesto. Os militantes sociais-democratas de Arouca elegeram os representantes da sua concelhia para serem a sua voz no próximo congresso, mas não elegeram o candidato que esses mesmos líderes apoiavam. Numa estrutura em que a rede de apoios é fundamental para a afirmação das comissões políticas de secção e das personalidades que se pretende (ou não) alavancar, estes resultados deixam no ar uma dúvida importante, que se prende com a forma como os militantes arouquenses olham para os seus líderes locais, deixando uma mensagem de discordância com a sua linha de pensamento. Em caso de vitória de Rui Rio (o que, com estes números, parece o mais provável), como se posicionará a secção arouquense do PSD perante a sua Direcção Nacional? Que tipo de relações manterá com a sua Comissão Política Distrital? Que figuras conseguirá congregar em torno de um projecto credível a apresentar aos arouquenses para as próximas eleições autárquicas e, a médio prazo, que figuras poderá apontar como elegíveis nas legislativas?

Estas são apenas algumas das questões a que o PSD Arouca terá de responder com alguma brevidade, ao mesmo tempo que deve, urgentemente, preocupar-se com a imagem que quer ter e com a mensagem que quer passar aos arouquenses. Os tempos que vivemos, ao contrário do que as redes nos fazem crer e de um mundo que parece estar ao alcance de um indicador a deslizar num ecrã, são de proximidade. Qualquer construção depende do alicerce, e o alicerce de um PSD a sério só será firme se partir das suas secções concelhias e, dentro das secções concelhias, a partir de cada freguesia, de cada lugar. Mais do que definir uma estratégia baseada no que os outros pensarão sobre o PSD, é o PSD que tem de afirmar, de forma vincada, o que pensa e o que pretende. Esse sempre pareceu ser, pelo menos aos olhos de quem está de fora, o desiderato de Rui Rio. Durante dois anos, foi o próprio partido que lhe dificultou a vida. O mesmo partido que se prepara para o re-eleger, num enorme mar de contradições.