Há pessoas com quem vamos até ao fim do mundo. Até ao infinito, e mais além. Desta vez, o destino foi Peniche, mas poderia ter sido outro qualquer. Porque o tempo é o que fazemos com ele. Porque a vida é o que fazemos com ela. E porque há momentos que ficam gravados, como o mar na pedra, como o sol no horizonte, como os cheiros e sabores dos locais por onde passamos, onde paramos, onde estamos e somos. E olhamos para o lado, e verificamos. Que, de facto, há pessoas com quem vamos até ao fim do mundo.
10 de Setembro de 2010 – É hoje: 30
Hoje sim, é mesmo hoje. A partir de hoje, já posso começar a pensar que «agora é que vai ser um 31». Quando os números são redondos, as comemorações e felicitações ganham outros contornos. Os números redondos responsabilizam-nos, acordam-nos para a fugacidade do tempo, fazem-nos pensar no que foi ficando para trás e na velocidade a que vamos circulando em direcção ao futuro. Não há tempo para depressões ou para vontades de velhice. Não há tempo para andar em busca do tempo perdido. Não há tempo para lamentações ou para rejeitar caminhos por causa da velhice. São 30 como poderiam ser 18 ou 25. É hoje. São 30. Obrigado a todos.
9 de Setembro de 2010 – A não dignificação da história do Parlamento Português
A RTP2 exibiu hoje um muito bem realizado documentário sobre a história do Parlamento. Para além de um muito bom enquadramento histórico, belissimamente narrado por Fernando Alves e ilustrado por citações de actas e textos publicados nas diversas épocas, houve a reflexão do que foi sendo o Parlamento, nos diversos enquadramentos políticos que fomos vivendo. Mas, a certa altura, foi tocado um dos pontos essenciais. O Parlamento era, muitas vezes, também um palco, mas um palco onde a oratória e o improviso argumentativo eram as «armas» mais apreciadas, mais do que as tricas políticas ou o «passatempo» político. Durante o dia, a cultura estava no Parlamento, à noite em São Carlos. E, mais do que isso, foi modelo. Modelo para o funcionamento da sociedade, das associações, das empresas, que fomentam a discussão dos respectivos futuros, debatendo-os, aberta e democraticamente. O peso histórico daquela casa, verificamos agora, que não está muito dignificado por quem o habita por esta altura, e que, provavelmente, até ignora tudo isto.
8 de Setembro de 2010 – Ainda não é desta que faço anos
Tenho recebido, com frequência, felicitações pelo meu aniversário. Agradeço a todos os que manifestam, desta forma, alguma pressa na minha chegada aos 30, mas ainda não é. Hoje é só dia da Senhora da Mó, e eu só faço anos a 10 de Setembro. Eu compreendo, também eu sou péssimo em datas, e, muitas vezes, se não é graças aos amigos ou às novas tecnologias, acabo por esquecer-me, involuntariamente. De qualquer forma, agradeço, antecipadamente, as felicitações. As que estão para vir e as que já vieram. Mesmo que hoje ainda seja só dia da Senhora da Mó.
7 de Setembro de 2010 – O Governo quer acabar com o ensino recorrente
A cruzada a favor do facilitismo continua. Agora, é tempo de acabar com o ensino recorrente e encaminhar os interessados para os cursos de educação e formação de adultos (EFA) e para as famosas Novas Oportunidades. No ensino recorrente, os alunos inscritos faziam, no regime nocturno, o mesmo percurso que os jovens estudantes fazem no regime diurno. O que parece razoável. Agora, aparentemente por motivos económicos (estão a diminuir as matrículas), e depois de contactados os alunos um a um, desfizeram-se todas as turmas que já tinham sido feitas. É mais fácil irmos pelo caminho mais curto, à boa maneira portuguesa, até porque temos urgência em atingir os resultados prometidos. Sócrates confessou a sua «paixão» pelas Novas Oportunidades, prometendo alargá-las a um milhão de pessoas, mas os últimos números apontavam para 750 mil. Com esta medida, talvez os números melhorem, e nós nos transformemos num país melhor, onde tudo fica mais fácil, onde todos ficamos mais cultos, onde todos ficamos melhor formados.
6 de Setembro de 2010 – Portugal é tudo e o seu contrário
O Governo diz que quer governar, quando parece que não quer. A oposição diz que não quer ser Governo, quando parece que quer. O Presidente da República diz para termos calma, quando parece que está tudo menos calmo. Os condenados no processo Casa Pia, pelo menos os que quiseram ter tempo de antena, dizem que não são condenados, quando nós não conseguimos bem perceber se são ou não. Há quem diga que estamos em crise, e quem diga que estamos bem obrigado. Estamos e somos tudo e o seu contrário. Aproximamo-nos da esquizofrenia colectiva a passos largos. Somos um país de contrastes. Demasiados contrastes. De tal forma que nem sabemos bem em que pé estamos.
5 de Setembro de 2010 – Por Paredes de Coura
Outros «ossos do ofício» levaram-me hoje até Paredes de Coura. Terra simpática, fica na retina a ligeira timidez com que acolhe, talvez fruto de ter os ares de Espanha ali tão perto, e a montanha a circundar todo o vale. Na retina, mas também no paladar, ficou o pudim do Abade de Priscos, generosamente servido à sobremesa, no restaurante «Conselheiro». E, «cereja no topo do bolo», embora fugazmente, houve ainda tempo para reencontrar o meu estimado amigo Joaquim Toscano, natural de paragens ali próximas. Retirando o cansaço do dia, e feito o balanço, valeu a pena.
4 de Setembro de 2010 – Por Coimbra
«Ossos do ofício» levaram-me, hoje, a Coimbra, a uma das mais belas igrejas da cidade: Santa Isabel. Dali, a vista é, precisamente, a que a fotografia tenta retratar, e o mosteiro de Santa Clara ali está, austero e imponente, guardando os restos mortais da Rainha Santa Isabel. Isabel, rainha de Portugal, esposa de D. Dinis, ficou conhecida pelo célebre «milagre das rosas», e a sua devoção e ajuda aos mais necessitados contribuiu para a sua beatificação, em 1516, e canonização, em 1625. Padroeira de Coimbra, símbolo de um espaço nobre e bem cuidado, foi um privilégio fazer música na igreja do Mosteiro de Santa Clara, mais propriamente na Igreja de Santa Isabel.
3 de Setembro de 2010 – Casa Pia e o gozo com o povo
O processo Casa Pia resultou, hoje, na condenação de todos os arguidos. Carlos Cruz é, obviamente, o arguido mais mediático, e não tardou a clamar por (outra) justiça, apresentando contradições, erros e falácias no decurso do processo, que, aliás, prometeu dar a conhecer no seu site pessoal, dedicado a provar a sua inocência (www.processocarloscruz.com). Estes processos, sobretudo pelo mediatismo, são altamente complexos, morosos e, porque lidam com os afectos e a desestruturação de jovens oriundos de famílias complexas, deixados numa instituição que, (demasiado) frequentemente se «esqueceu» deles. E, neste contexto, pode ser que nem tudo seja verdade, nem tudo seja mentira. E o dia correu, veloz, sob esta sonora novidade, quando Portugal, a nossa selecção, resolveu empatar a quatro com o Chipre, como corolário da «novela» Carlos Queiroz, que para nada mais serve do que para nos envergonhar.
2 de Setembro de 2010 – Stephen Hawking diz que afinal Deus não interveio na criação
Quando não dominamos totalmente a matéria que abordamos, e quando as interrogações nos deixam demasiados espaços vazios, por explicar, a discussão torna-se complicada. Contudo, há espaço para o debate. A notícia vem no jornal «I» de hoje, e diz que Stephen Hawking, conhecido astrofísico, voltou atrás com a sua teoria de que terá havido uma altura, uma conjugação de factores que terá dado origem ao «Big Bang», onde Deus poderia ter estado. Publicou esta sua teoria em 1998, e, agora, desmente-a, afirmando que a possibilidade de existirem outros planetas, em outros universos, abre a perspectiva de que o facto de estarmos aqui é uma simples e lógica questão física. Sublinho a palavra «possibilidade». Tudo para nós é uma possibilidade. Como o acaso, a coincidência, a lógica afectiva de cada vida, o percurso de maturidade. Há sempre alguém ou algo que faz com que tudo se conjugue. Uma espécie de cimento, que une as coisas. Eu acredito que seja Deus. Hawking, que também acreditava, acha que não. Mas eu acho, um bocadinho, que ele não tem razão.
«Stephen Hawking afirma que o Big Bang – a grande explosão que originou o mundo – terá sido uma consequência inevitável das leis da física, o que contradiz a teoria que o cientista tinha defendido no passado, no livro “Uma Breve História do Tempo”, publicado em 1998 e rapidamente transformado num êxito de vendas».
«No novo livro, intitulado “O Grande Desígnio” e que estará à venda a partir de 09 de setembro, precisamente uma semana antes da visita do papa Bento XVI à Grã-Bretanha, o astrofísico sustenta que a ciência moderna não deixa lugar à existência de um Deus criador do Universo».
(in Jornal «I»)