20 de Janeiro de 2012 – Senhor Presidente, eu também me queixo

Senhor Presidente da República:

Diz o povo, e com razão, que com o mal dos outros podemos nós bem. Permita-me, portanto, que, na qualidade de miserável cidadão a que o país (e o seu Estado) cada vez mais me remete, lhe diga, de forma sincera e aberta, que com o seu bem eu posso muito mal. Um homem que tem uma Casa Civil onde grassam assessores, onde o pulsar da Nação é sentido ao segundo, e antes mesmo de acontecer, não pode dizer o que o senhor disse. Sobretudo porque, vistas bem as coisas, é uma falácia, para não dizer uma mentira. Não aceito a desculpa de que não disse o que queria dizer, ou que fomos nós que percebemos mal. Lembre-se de que nunca existe uma segunda oportunidade para causar uma boa impressão, e que há verdades (ou mentiras) que é melhor nós nem sequer pensarmos que sabemos, sob pena de cairmos na tentação de as dizermos alto.

O senhor diz que é muito difícil viver com 1300 euros mensais, e eu concordo, porque sei como é. Imagine, agora, quem não tem contrato de trabalho, e tem de, a menos do que isso, tirar dinheiro para dar à Segurança Social (quase 300 euros), à DGCI (mais de 300 euros), à Universidade (cerca de 100 euros), às ex-SCUT (mais de 30 euros), para um empréstimo automóvel (cerca de 300 euros), e poderíamos continuar. Mas, claro, eu não sou Presidente de todos os portugueses, e não tenho responsabilidades ao mais alto nível. Contudo, senhor Presidente, o que se diz por aí é que, a esses seus 1300 euros, temos de acrescentar a sua pensão do Banco de Portugal, que deve andar entre os 4000 e os 6000 euros por mês, o que nos leva a discussão para outros patamares.

Permita-me, ainda, que lhe diga que não vai ser, agora, com um perímetro de segurança mais alargado, que empurre os jornalistas para fora da «área vital», permitindo-lhe continuar com sorrisos e acenos de «Mona Lisa», que nós portugueses vamos mudar de opinião. Desengane-se. Vai haver quem ironize, muitos até talvez comecem uma colecta, outros vão pedir-lhe que saia. Por mim, tanto faz. Faça como entender, desde que reconheça que não lhe correu bem a tirada. E, quanto ao resto, saiba que me queixo, com um diferencial de cerca de 6000 euros. Bem sei, dou-me a certos luxos. Sou, por certo, um extravagante, por sonhar mais do que o que o meu país me permite. Mas fique ciente de uma coisa, senhor Presidente, é por causa destas coisas, de termos sempre um país mais pequenino do que nós mesmos, graças a tiradas como as suas e a políticos desses, que o que fazíamos mesmo bem era obedecer ao «super-Ministro» Relvas, e emigrarmos para bem longe.

Aceite um cumprimento cordial, claro, à distância de segurança.

1 thought on “20 de Janeiro de 2012 – Senhor Presidente, eu também me queixo

  1. Estão erradas as tuas contas. Segundo a declaração de rendimentos entregue pela família Cavaco Silva como é obrigatório por lei, o agregado familiar do pobre reformado Presidente e da paupérrima reformada sua esposa auferiu em 2010 pouco mais de 999 mil Euros. Sim, não é engano, o próprio Cavaco comunicou a todos nós que no anod e 2010 auferiu quase 1 milhão de Euros!!! em vencimentos e mais valias de investimentos.
    Portanto o que ele disse tem lógica, realmente para ele 1300 Euros é caso para gozo. Mais do que isso, paga ele de certeza a quem lhe gere o dinheiro poupado que ele insiste em dizer que todos nós deveríamos de ter também… se fossemos poupados como ele…

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