14 de Janeiro de 2012 – O (des)acordo ou o português «arcaico»

O texto que Pedro Mexia faz publicar hoje no caderno cultural do jornal «Expresso» é mais um forte contributo para que os portugueses percebam, de uma vez por todas, que o que está a suceder com o (des)acordo ortográfico é um feroz ataque político, económico ou de interesses (como queiramos) à identidade nacional e à verdadeira essência da língua portuguesa. Desde logo, «quem não é por nós, é contra nós», e, portanto, quem não (des)acorda, escreve «de acordo com a antiga ortografia», como se isso fosse um regresso ao português arcaico dos cronistas reais. É preferível uma grafia facultativa, que permite que o caos se lance. Para aproximar mais a língua escrita da falada. Então, por que razão não há um português do norte, outro de Lisboa e outro do Alentejo? E, já agora, um dos Açores? Os portugueses querem este (des)acordo? Foi algo que a sociedade debateu suficientemente? Houve algum movimento ou indicação social para que se avançasse a todo o gás, como aconteceu? E dos países africanos, nem se fala, como se não falassem português. O óculo está posto, claramente, do outro lado do Atlântico, como se tivesse sido a língua (e não a economia) que tivessem impulsionado o Brasil. O português não fica mais prestigiado assim. Ganharia se houvesse uma política séria para o fomento da língua, que desse a conhecer os grandes autores da nossa literatura, em vez de textos de qualidade duvidosa. Ganharia se não estivéssemos demasiado empenhados em simplificar, em facilitar. Porque sabemos bem, por experiências anteriores, o que acontece quando se simplifica.

«Estou contra o “acordo” porque me parece uma decisão meramente política e económica, sem verdadeiro fundamento cultural. Os legisladores impuseram aos falantes uma “ortografia unificada”, que, dizem, garante a “expansão da língua” e o seu “prestígio internacional”. Mas a expansão da língua passa por uma política da língua, que Portugal, por exemplo, não tem tido, ocupados que estamos em fechar leitorados no estrangeiro, em aplicar uma abominável terminologia linguística nas escolas, em publicar um lamentável Dicionário da Academia, em expulsar Camilo dos currículos enquanto o substituímos  por diálogos das novelas».

(Pedro Mexia, hoje, no «Atual», do jornal «Expresso»)

1 thought on “14 de Janeiro de 2012 – O (des)acordo ou o português «arcaico»

  1. Nossa! Que tristeza de raciocínio. A língua portuguesa sempre evoluiu, e continua evoluindo. Essa unificação faz com que evolua em conformidade geral. Por que fala em diálogo das novelas? Se não gosta não vê, ponto final. No Brasil passaram muitos filmes portugueses e nem por isso mudamos nossa grafia ou nossa forma de falar. Isso demonstra a fragilidade de um povo, que na realidade não gosta dos próprios costumes. Eu fala assim, e me encontro no direito de falar, pois vivo em Portugal a 20 anos, conheço e respeito muito esse povo. Tirando essa questão ortográfica me identifico muito mais com os portugueses do que com os brasileiros. E sempre defendi que os “nossos” portugueses são diferentes, nem melhor nem pior que o outro.
    Mas enfim, são opiniões e temos que aceita-las e não censura-las, principalmente sem fundamentos.
    Um abraço amigo

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