2 de Janeiro de 2011 – Quando entrevistei Ruy de Carvalho (II)

O topo e novos objectivos

P: O «Rei Lear» era uma espécie de sonho, ou topo… Um objectivo…

R: Sim, toda a vida falei no «Rei Lear»… É um papel de que gosto muito! Nunca pensei em fazê-lo, porque eu nunca pedi para fazer um trabalho… Nunca pedi “Quero fazer aquela peça!”… Nunca escolhi peças. O trabalho tem-me sido distribuído, tem sido escolhido o meu corpo e a minha forma para determinados personagens. E o Lear, eu tinha uma certa…paixão. É um papel que me apaixona, como me apaixonam mais figuras do Shakespeare. Por exemplo, adorei fazer o Falstaff (que nada tem a ver com o «Rei Lear»)! O Falstaff é um gordo, um bêbado…! É diferente… Faz parte de uma comédia muito boa dele que se chama «As alegres esposas de Windsor». É uma figura que, se calhar, conhece, uma figura muito engraçada, muito contrária a todo o «Rei Lear». As comédias de Shakespeare são maravilhosas!… Já fiz muito Shakespeare. Também gosto muito de fazer Teatro português… Gosto muito de Gil Vicente, que ainda não começou a fazer-se o suficiente. Acho que é necessário fazer-se mais Gil Vicente. Nas escolas, pelos alunos… Tem que ser reavivado na memória das pessoas, porque foi (é) um grande homem, que também escreveu grandes peças (como o Shakespeare)… Só que viveu aqui, teve menos possibilidades de se “guindar” (até pelo desinteresse que as pessoas têm). Não se esqueça que os nossos grandes artistas não morrem ricos…! Especialmente os artistas criadores…

P: E agora, depois desse objectivo alcançado?

R: Cá estou, para representar… Eu comecei, há bocadinho, por dizer isso: eu gosto é de representar. Agora, só peço é que, pela minha idade (eu tenho 73 anos, quase), não sejam coisas muito grandes. É que o trabalho de “lavrar o campo” todos os dias, nesta idade, já me é um bocadinho difícil! Embora, em sentido literal, ainda haja muita gente que o faça… Homens de 80 anos (e de mais) a tomar conta (e bem) da terra!… No fundo, é um trabalho físico, como disse… Daqui a um ou dois anos já não era capaz de fazer o «Rei Lear». Fisicamente, já não tenho capacidade… Como não posso fazer nenhum papel que me exija um esforço maior, até porque a resposta muscular não é igual. Embora nós envelheçamos à medida que o nosso “canastro” vai deixando de aguentar o nosso “transporte” de vida, podemos ser jovens até morrer e sentir a juventude dentro de nós. (Aliás, eu digo isso aos idosos, às pessoas com quem tenho trabalhado no terreno). Eu ando a tentar dar força, para que tenham esperança e sejam úteis até ao fim da vida… Nós sentimo-nos jovens, mas o corpo, às vezes, não responde… Mas temos que saber isso! Somos úteis naquilo que podemos ser. Não mais! Aí, há outros que podem…

P: Concorda que o Teatro em Portugal ressuscita lentamente?

R: Sim, mas aí entra a minha esperança na juventude. Os jovens estão à procura de um caminho, à procura do espírito… O que me dá um grande gosto! A maioria do público de hoje é gente nova… Estão a ir a tudo, estão a encontrar respostas para muitos problemas, não só de índole familiar como até de vivência na sociedade. Estão a encontrar respostas no espírito, na Cultura! Porque é uma boa forma de se isolarem da solidão… Da solidão que não interessa, porque um homem com um bom livro nunca está só…! A solidão é uma coisa que se pode evitar com coisas muito fáceis… Até ao ver uma flor a crescer, ao passar por ela todos os dias! E não estou a pôr os jovens fora disso…! Estou a pô-los dentro disso… Devemos experimentar. E experimentar sobretudo o amor!… Permita-me que divague um pouco, para lhe dizer que uma das coisas de que a nossa sociedade sofre é de falta de amor… Há gente que nunca deu um beijo de amor (mãos a filhos, filhos a mães…)! Por isso é que, quando eles chegam a velhos, não há afecto… São capazes de os abandonar. Há filhos que não têm a preocupação de não abandonar um pai… Nunca levaram um beijo de amor, nunca tiveram uma festa do pai, um carinho… Até a zanga, até o ralho, até a bofetada na cara… Tudo isso, nunca existiu! Depois disso, tudo acontece! Com os idosos. Como vamos encontrar solução para que, quando os levamos a casa, a família não os rejeite? Há uma falta de amor pelo semelhante! E somos nós um povo católico…! Um povo cristão, que não devia ter essas faltas! Um povo hospitaleiro (temos essa fama)! Há uns tempos estive, num seminário dos Consultores Seniores, com um senhor dinamarquês do Conselho da Europa e perguntei-lhe como tinha corrido o Ano Internacional das Pessoas Idosas. E ele respondeu-me que não fizeram nada. Pensei que tivessem tudo resolvido, mas não. Ele próprio me disse que o que era fundamental não estava resolvido… Eles tinham resolvido o aspecto económico. E o resto? A auto-estima, a solidão, o abandono, a família? A parte do amor, da estima não existe…! Mas, e respondendo à sua pergunta, estou convencido que as gerações que se seguem vão ser gerações do espírito… Do espírito, mas também da matéria. Hoje há uma certa tendência para que o homem não se importe de ser equiparado à mulher, por exemplo. Já não há essa mentalidade machista… São sinais…

P: Agora, com o início de um novo século e com o Porto Capital Europeia da Cultura em 2001, que perspectiva tem sobre a Cultura?

R: Portugal é, sem dúvida, um país com Cultura, com gente culta. Contudo, com poucos apreciadores da Cultura feita pelos próprios portugueses. Ou seja, os nossos homens de Cultura são mais (re)conhecidos no estrangeiro do que aqui. Não tanto como eu desejaria, mas já há muitos conhecidos. Julgo que nos estão hoje a conhecer melhor, por onde tenha andado já vejo muitas referências a nós! Quando algo começa a aparecer, é porque tem um certo valor… Nós somos um povo com capacidade “científica”, chamemos-lhe assim… Aliás, nós somos um país de inventores. Só que os nossos inventores nunca inventam para Portugal, é sempre para fora… Há gente que experimenta de tudo, faz de tudo, e de quem nós não gostamos muito, ou não apreciamos, ou não damos valor a esse conhecimento. E há coisas por esse mundo fora que são inventos de portugueses. Eu tenho conhecimento disso, e, às vezes, dá-me uma imensa pena que isso aconteça… Mas hoje isso está a chegar às pessoas, talvez porque estamos a acordar para o valor que temos… Um povo que deu povos ao mundo tem muita coisa para dar…! Não só os maiores navegadores! Não só o Vasco da Gama, o Bartolomeu Dias… Foram todos os outros que foram com eles. Homens capazes de dar a sua vida por andar na aventura!… Na aventura do descobrimento, da sabedoria… Quando o Gago Coutinho fez trabalhos de cartografia nas nossas colónias em África… É um trabalho que pouca gente sabe que foi feito por portugueses. Trabalhos notáveis! O sextante… Mas esquecemos tudo isso! Foi esse povo que teve o homem do nónio, que teve poetas como Camões, Bocage, poetas extraordinários, grandes escritores que ainda hoje são famosos no mundo…! Há vários escritores portugueses, não só de agora, mas também antigos, que escreveram e escrevem primorosamente, como nós sabemos, porque os relemos agora, com mais interesse… Vamos que, realmente, somos um povo com muita capacidade, com muito talento! Só que, às vezes, desinteressado, que acha que isso não faz parte da sua vida. Eu acho que isso é parte fundamental da nossa vida – a riqueza espiritual que podemos ter, e temos…

P: Terá que haver, como no Ano Internacional das Pessoas Idosas, uma sensibilização…

R: Mas isso é fácil de se fazer! São vocês, os jovens, que têm que o fazer. Têm que começar a acordar este povo para a realidade que eles são, para não haver coisas que choquem, por falta de…educação…! É a tal educação, uma educação para as coisas…

P: A tal predisposição

R: Predisposição para aquilo que é belo, para uma forma de viver em beleza…

A Política e os políticos, uma relação complicada

P: Tínhamos falado, há pouco, dos políticos. O que pensa da Política e dos políticos?

R: Como calcula, eu tenho andado muito com políticos ultimamente (de todas as cores). Quando eles se preocupam só com o bem do seu povo, acho que eles são úteis. Quando eles fazem política partidária, não concordo com eles. Os políticos só deveriam ser partidários em tempo de eleições, e comportarem-se, depois, como portugueses. Deviam funcionar como tal, para bem dos portugueses, sem selecções… Há um povo que precisa de ser governado como deve ser. Sempre que a Política, no caso concreto da Assembleia da República, começa a cair para um lado, em que um partido condena ou absolve, “trama” o outro só porque não quer chegar a um acordo, não posso concordar… Se as ideias são boas e nós estamos a ver que são boas e úteis, penso que não deve haver cor política… (Embora eu seja democrata e favorável à diversidade de opiniões…!) Mas o que tem que haver é um esforço para que tudo se destine ao engrandecimento de um mesmo bolo (sendo que o bolo é o país).

P: Um aspecto relacionado com a Política; saiu magoado com a situação que houve no D. Maria II, há algum tempo?

R: Saí… Saí magoado! Não se admite que alguém possa mentir quando tem responsabilidade num país…! Eu, na verdade, saí magoado quando ouvi coisas que achei que não eram verdade… Era um assunto que estava a ser tratado há algum tempo, e negaram-no! Simplesmente, alegaram que não sabiam de nada… Isso magoou-me bastante, e magoou-me a forma como, depois de ser “velho”, disseram que eu era um homem privilegiado, que ganhava muito, um homem riquíssimo, cheio de dinheiro… Ora, eu não ganho bem, ganho um quarto do que ganha um actor espanhol… Tenho uma reforma, mas que não me permite ficar em casa… Tenho que trabalhar para conseguir viver um pouco melhor, não posso ficar só com a reforma… Eu bem sei que há quem tenha menos…! Mas não é muito, ao fim de 45 anos…

Pensamentos, personagem e personagens

P: Qual a frase que decorou, que tem mais presente e que significado lhe atribui?

R: Vou dar-lhe um pensamento… Vivi muito tempo dentro deste pensamento, sem saber de quem era. É do Gandhi. Gandhi disse um dia que «a arte de viver é a arte de transformar a vida numa obra de arte». Eu vivi a pensar nisso e, um dia, sem querer, descobri a frase. Agora, a partir daqui, há que ver onde se pode aplicar isso…

P: Apesar de o vermos em diversas personagens, a sua personalidade é fácil, há uma grande empatia… As pessoas quase que se apercebem de como realmente é sem que o conheçam. Qual é o segredo?

R: Não sei… Eu gosto muito do meu semelhante. Se tivesse que me definir como homem, diria que sou um humanista. Eu considero que a parte humana é tudo. O homem é tudo. Não estou contra a máquina…! Mas acho que sem ele não há máquina. Ele é que é fundamental, ele é que tem que ser bem tratado. Para mim, a construção de uma sociedade boa passa por coisas que falam o homem funcionar alegremente, em boa disposição, em sorriso… Há momentos maus, mas também se pode sorrir em momentos maus!… Eu não sou capaz de viver sozinho… Eu tenho que viver em colectivo. E isso é uma coisa que me obriga a ir ter com as pessoas… Então, essa empatia acontece. Eu não sei se não seria um bom sacerdote…! (Não o sou provavelmente por não poder casar…) Ou médico, por exemplo… Qualquer profissão que tenha que dar qualquer coisa ao meu semelhante me satisfaz. Ser útil…! Na minha profissão posso ser útil. A montra não me fere, não me atrai… É claro que sou um produto vendável. Eu sei que o sou… Mas isso é para quem me vende, não para mim…! Eu gosto de andar na rua, no meio dos meus semelhantes, igual a eles, não quero ser diferente… De maneira nenhuma! E faço o possível. Sou assim há muitos anos, desde que comecei…! Raramente ou nunca uso galões em coisa nenhuma! Não tenho galões, sou um cidadão normalíssimo, gosto muito do meu semelhante, gosto de o servir o melhor que sei e posso. E, neste momento, já o disse, estou a ter uma certa reciprocidade, que é aquilo que eu não sabia… É o carinho com que sou recebido em muitos sítios…! É tão grande que eu, por vezes, não tenho capacidade de não chorar, de não me emocionar com a ternura e a amizade que têm por mim!…

Ser-se homem

P: O que responderia se lhe perguntasse quem lhe ensinou a ser homem?

R: [Silêncio algo emocionado] O meu pai… O meu pai… E outros colegas meus. Eu tive colegas excepcionais, como pessoas. E devo-lhes muito! Sobretudo, tentei não deslustrar o nome que o meu pai me deu, a escolha que ele fez por mim…

O talento e a modéstia

P: Acha-se talentoso, ou prefere ser modesto?

R: Talentoso, não sei… Eu tenho muitas dificuldades…! Um grande homem, um grande artista, disse um dia uma coisa muito importante… Não sei se já viu o «Limelight», do Chaplin… Ele trabalha num número de pulgas, sem êxito nenhum. E a certa altura passa a ter êxito. Um jornalista, quando ele está a tirar a maquilhagem (no fim do número das pulgas, com grande êxito), se ele já tinha atingido a perfeição. E o Chaplin respondeu: «Não vivemos o suficiente para deixar de ser amadores». Foi a resposta que ele deu! O Chaplin era um grande, grande artista…! E eu partilho da opinião dele, como humilde que sou, perante esse artista, o homem por trás de Charlot, um homem verdadeiramente extraordinário!…

O campo e a cidade; paixões, semelhanças e diferenças

P: Quais as principais diferenças que encontra entre o campo e a cidade?

R: Eu gosto muito mais disto do que da cidade!… Na cidade andamos todos de costas voltadas… Aqui, a intimidade é muito maior! Claro, existem aquelas coisas pequenas, mas há muito mais possibilidades de se ser útil dentro de um sítio com menos gente. Não é com menos capacidade! Vocês hoje vêem a mesma coisa que Lisboa vê, as notícias são as mesmas, ao mesmo tempo… Só não têm o Teatro ao vivo (não com tanta frequência)… Mas eu não sei, isto é um dos aspectos que tem que ser resolvido por outra gente…

P: Porque é que escolheu Arouca como refúgio?

E: Não sei… A primeira vez que vim aqui foi há trinta e tal anos (33, 34 anos), para ver se fazia aqui um espectáculo chamado «Maître Patlin». Eu era director do Teatro Experimental do Porto, na altura.

P: Teatro Experimental do Porto que está…

R: Pois… Está em Gaia, por culpa do Sr. Ministro (o tal mentiroso)… Eu há bocadinho não disse… Quando chamamos mentiroso a alguém temos que o provar. Eu não ouvi dizer o que quer que fosse directamente a mim. Portanto, não posso dizer isso… Mas julgo que é um bocadinho… E, pelo Teatro Experimental do Porto, vim aqui e conheci pessoas, mas não pude fazer o «Maître Patlin», porque não havia espaço. E nunca mais voltei cá. Fiz bons contactos e, uns anos mais tarde, trouxeram-me aqui outra vez, numa viagem de excursão. O fenómeno foi como quem namora uma rapariga. Arouca tem qualquer coisa que me atrai, não sei explicar o quê… Gosto muito de cá estar, sinto-me bem cá, gosto dos sítios todos, conheço-os bem, falo de Arouca sempre que me falam noutro sítio qualquer… Sem querer, falo…! Não quero ser simpático a Arouca, não é por isso. Vem-me à boca, como possivelmente vem a minha mulher. É uma paixão do mesmo tipo! Nunca tinha pensado nisso! Pensei-o agora, neste momento…! Aconteceu exactamente o mesmo que com a minha mulher…! E hoje, “sem querer”, sou cidadão de Arouca… Deram-me essa honra…

1 thought on “2 de Janeiro de 2011 – Quando entrevistei Ruy de Carvalho (II)

  1. Ivo, li tudo e de uma forma muito breve só te quero dizer: que conversa deliciosa, podia ler-vos por mais umas quantas páginas. Parabéns!
    Aproveito para te desejar um bom ano!

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