14 de Janeiro de 2010 – O Haiti (não) é aqui

Nunca como nos dias que correm a música de Caetano e Gil esteve tão actual. Quando se pensava no que parecia ser o pior do pior, pensava-se que ainda poderia haver pior, e esse pior era o Haiti. Um país assolado por terramotos, cheias, uma ditadura, uma situação política absolutamente caótica. E agora isto. As ondas sísmicas atingiram os Açores em cerca de 8 minutos, mas a proporção do que aconteceu só algumas horas depois nos fez despertar. Curiosidades da globalização, a natureza, às vezes, ainda consegue ser mais rápida. Há quem diga que os mortos são 100 mil, outros que chegarão aos 500 mil. Não sabemos. Há como que uma força, como um terramoto, que nos retira a energia, e nos deixa sem acção. O Haiti não é aqui, mas podia muito bem ser. O Haiti da anarquia. Mas (cremos) não este. Porque, como diz a música, neste momento, resta-nos pensar no Haiti e rezar pelo Haiti.

HAITI (Caetano Veloso/Gilberto Gil)

Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

4 thoughts on “14 de Janeiro de 2010 – O Haiti (não) é aqui

  1. Esta musica, inserida ( se bem me lembro) naquele que considero como o mais bem conseguido da dupla: tropicalea 2, é uma das músicas da minha vida.
    Ouvia quando andava no Porto a estudar ( quando o disco saiu) e sempre me acompanhou, e muito me marcou, principalmente aquele genial jogo de palavras do preto e branco.
    Desde aí associei sempre o Haiti à mais pobre das misérias.
    Em Maio do ano passado estive naquela mesma ilha, mas no país vizinho, ficou-me sempre a vontade de atravessar a fronteira, mas o tempo não deu.
    Ficam as imagens de um pais destroçado, desfeito, acabado? Esperemos que não.
    Se o Haiti não é aqui, o mundo há-de ajudar a pô-lo de pê.
    ” Ajudemos os vivos, que aos mortos, já ninguém lhes vale…”.

  2. ” Ajudemos os vivos, que aos mortos, já ninguém lhes vale…”.
    Discordo, em absoluto, porque tudo quanto seja habitáculo, testemunho, resquício ou esqueleto de alguém que foi pessoa…
    Deve ser lembrado e tratado com a dignidade própria…
    Bicho é bicho e Pessoa é Pessoa…!
    E dos mortos fica sempre a lembrança…

  3. E…ia esquecendo
    O C 130 da nossa garbosa Farça Aérea, de apoio à catástrofe, teve que voltar pra trás (falta patrocínio,- enfim cansaço do material).
    Já o NE Sagres na sua viagem de circum-navegação é patrocinado pelos Jogos Santa-Casa e muitas grades….
    No Problem (escrevi Farça aérea porque é esse o estado actual da coisa e de muitas outras neste país de poetas resistentes e da Farsa de Inês…).
    Sejamos generosos e, de uma forma ou outra, consigamos ajudar!!!
    Oxalá, inch allá etc e tal e que daqui a um ano eu possa lá ir dar uma mãozinha.

  4. Amigo Joaquim,
    A interpretação que deu á minha frase, não corresponde ao que , com ela pretendia transmitir.
    Claro que respeito e recordo os mortos. Apenas frisei a necessidade, de ajudar com urgência e premência os vivos.

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