Marcelo Rebelo de Sousa tinha criticado a forma como António José Seguro liderou, internamente, o processo de revisão estatutária, alegando que, basicamente, o que estava a acontecer era uma forma subliminar de fortalecer uma liderança fraca, afastando, «na secretaria», os potenciais rivais. Hoje, António José Seguro teve direito ao contraditório, em horário nobre, no telejornal da TVI. Até aqui tudo bem, não fosse Seguro começar a sua intervenção por se referir a «factos falsos», na base dos quais estaria a análise de Marcelo (já antes, Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS, tinha usado a mesma expressão). Assim de repente, a expressão «factos falsos» parece ter algo de equívoco. Um facto é um facto, não é falso. Equívoco ou lapso subliminar, terá passado despercebido (ou talvez não). Valerá o que valerá. Mas não deixa de ser estranho ter, lado a lado, duas palavras que dizem uma coisa e o seu contrário. Prova que Seguro não estará tão seguro quanto isso.

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De 27 a 29 de Abril, o Centro Cultural de Belém apresenta os «Dias da Música em Belém», subordinados ao tema «A Voz Humana: o canto através dos tempos». Durante estes dias, acontecerão 60 concertos em 7 salas do CCB, e um deles será do «Vocal Ensemble», dedicado a Orlando di Lasso, e às suas «Prophetiae Sybillarum» (as profecias das sibilas). Uma música cromática, sem deixar de ser belíssima, com textos absolutamente fabulosos, escritos a partir das antigas profecias das sibilas. O nosso concerto será a 29 de Abril, às 13:00, na sala Sophia de Mello-Breyner, e, para tal, começamos, amanhã, o trabalho de preparação, depois de algum tempo de estudo pessoal. Vai ser (está a ser) um desafio enorme, tanto quanto interessantíssimo, o de descobrir esta música e estes textos. Como parte de um programa que pretende demonstrar o canto como expressão colectiva de um estado de espírito, do divino, dos sentimentos, da(s) cultura(s), nada melhor do que este programa. Em concerto vão estar grupos de renome nacional e mundial. Vai valer a pena. Está a valer a pena.

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Orlando di Lasso – Prophetiae Sybillarum (Proemium)

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31 de Março de 2012 – Foi hoje

31 de Março de 2012

Chegou hoje ao fim uma caminhada muito interessante, feita com o Orfeão de Arouca. Apresentámos o «Stabat Mater», de Josef Rheinberger, uma das obras mais melodiosas do tempo pascal. Ao mesmo tempo, pudemos mostrar uma parte do nosso trabalho discográfico editado recentemente. Contámos com a enorme colaboração da Orquestra de Gaia, que demonstrou como há muito boa gente a fazer muito boa música, muitas vezes sem a recompensa que merece. Talvez merecêssemos mais público, ou talvez não. Foram bons, os que vieram. Não chegámos a um destino, ultrapassámos mais uma etapa. Em breve, saberemos para onde ir desta vez.

Foto: Carlos Pinho

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Lê-se hoje, por aí, que o Estado quer saber de que filiação partidária estão mais próximos os seus avençados, para além de outros interesses (económicos, familiares, etc.). O objectivo só pode ser um de dois. Ou «correr» com quem não é «por nós». Ou condicionar quem não é «por nós», para que se porte bem, sob pena de deixar de pertencer «a nós». Ambas faces da mesma moeda, parece. Supostamente, isto são informações do foro da vida privada de cada um, mas o Estado, que somos todos nós, quer saber. Será para promover mais «dos seus», ou para corrigir eventuais «más promoções»? Seja como for, senhor Estado, a minha declaração é no sentido de atestar que nunca fui beneficiado em absolutamente nada pelo partido que manda em si. Agora veja lá.

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29 de Março de 2012 – Millôr

29 de Março de 2012

Quando «conheci» Millôr Fernandes, ele era, afinal, um tal de Emanuel Vão Gogo. Alguém lia um texto seu, sobre como seria se Deus tivesse criado a mulher antes do homem. O tom coloquial, simples, humorístico não se estranha, sequer. Entranha-se, de imediato. Auto-didacta em quase tudo, em tudo foi bom. Escreveu, pintou, fez humor, criticou (de forma afiada) os políticos, e, pasme-se, também era contra o (des)acordo ortográfico. Presente na internet, no seu «SAITE» e no «twitter», era, acima de tudo, e como alguém o apelidou, um «frasista». Entre muitas outras, ficam duas pérolas, de alguém que fez filigrana com a língua portuguesa, cujo nome resulta, diz-se, de uma má interpretação da caligrafia do conservador. A data de nascimento também não é unânime. Enfim, coisas de humorista. Há coisas que parecem fazer parte do destino. O de Millôr talvez fosse ter uma «caligrafia» diferente. Que uns não compreendem, outros talvez prefiram não compreender. «O aumento da canalhice é resultado da má distribuição de renda». «Fiquem tranquilos os poderosos que têm medo de nós: nenhum humorista atira para matar.»

«Ih! Que é que você está fazendo aí, hem, Todo-Poderoso? Deixa eu brincar com o barro também? Não estrago seu brinquedo, não. Eh, que é isso? Parece uma cara! Ih, parece uma cara igual a um bicho. Parece um macaco, seu! Puxa, você é um craque, Todo-Poderoso. Bota um terceiro olho, bota! Ah, bota! Puxa, você é ruim, não atende! Ora, agora você encompridou o nariz. Estava tão bonitinho! Deixa eu ver, espera; está parecidinho com você, hem, Todo-Poderoso! Ah você o fez à sua semelhança; eu logo vi, estava olhando aí prò espelho de água. Não põe boca, não, põe uma tromba! Ah põe uma tromba, põe! Também, você não faz nada do que eu peço… Deixa eu ver, não ficou mal não. Mas o rosto é áspero. Porquê pêlo no rosto? Deixa ele sem pêlo no rosto, deixa! Só um bigodinho ficava muito melhor. Posso fazer a orelha esquerda? Olha, esta aqui é de outra cor. Bota a orelha de outra cor, bota! Vai ficar bacana. Posso fazer? Eu garanto que vai ficar um amor se você botar orelha de outra cor. Faz as costas prà frente agora. Não, ao contrário. Fica diferente de mim; ele está muito parecido comigo. O animal mais parecido comigo que Você já fez até hoje. Vai ter dois braços também? Ah, não põe dois braços, não. Deixa só eu com dois braços. Faz sem braços e com três pernas. Fica muito mais engraçado. Você não atende nada, hem! Também eu não ajudo mais em coisa nenhuma. Já está pronto? Ficou diferente um pouco de mim, hem! Não é muito, não, mas um pouco diferente ficou. É, não está mal, não, como primeiro. Você vai fazer mais desses? Vai? Que nome vai dar? Homem? Ah, não põe homem, não; esse nome não pega. Põe outro nome! Ih, olha! Você esqueceu do rabo! Este animal não tem rabo?! Ah, vai andar em pé também? Então põe ele em pé pra mim ver. Chi, ficou bonito mesmo! Você deixa eu soprar esse, deixa?»

(Se Deus tivesse criado a Mulher antes do Homem – Millôr Fernandes [Emanuel Vão Gogo])

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Hoje, o programa «Praça da Alegria» visitou Arouca, na rubrica «A minha rua é a mais linda». Quando achamos que temos muito para mostrar e para dizer, é que parece que o tempo é menos e passa ainda mais a correr. Foi um pouco o que aconteceu, apesar das três intervenções, que perfizeram quase meia-hora de televisão. A encerrar, esteve o Orfeão de Arouca, à varanda do edifício mais antigo do centro urbano de Arouca, que, por momentos, se transformou na varanda mais bonita da «Praça da Alegria». Não foi muito tempo, nem deu para muita música. Mas foi a diferença entre estar e não estar. Nós estivemos. Por minutos em todo o mundo, através da RTP.

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Angola pronunciou-se sobre o (des)acordo ortográfico, e supõe-se que, no mínimo, dê para pensarmos um pouco no que não fizeram por nós. Não alinhando freneticamente no frenesim de ratificar, depressa e em força, o (des)acordo ortográfico, o Governo angolano preferiu parar, reflectir e dizer que não «alinha» na «brincadeira» sem ver as contribuições das suas línguas nacionais reconhecidas e sem definir claramente como é que a nova grafia vai ser aplicada no seu sistema educativo. Angola usa, na sua grafia, muitas palavras que começam com dupla consoante (como por exemplo «Mbanza Congo», «Nzinga» e muitas outras), e não quer abdicar desse aspecto da sua identidade, que o (des)acordo ortográfico não prevê. Para os responsáveis angolanos, é essencial que primeiro se acautele o vocabulário nacional, para depois se chegar a um entendimento sobre o que deve ser o vocabulário comum. O documento de entendimento foi assinado em 1990, mas Angola não o ratificou até ao momento, porque, dizem os políticos que tutelam esta matéria, havia «outras prioridades».

«A questão de Angola é uma questão simples. Angola quer ver grafado no acordo aquilo que é contribuição das suas línguas nacionais, à semelhança do que o Brasil fez com o português brasileiro e à semelhança do que Timor também já introduziu. (…) No caso de Angola e Moçambique, que têm nas suas línguas nacionais de origem bantu uma grande contribuição na Língua Portuguesa, são vários os exemplos e, se olharmos agora, não vemos isso reflectido».

(Oliveira Encoge, director do gabinete de apoio à CPLP, do Ministério das Relações Exteriores de Angola, em declarações à agência Lusa)

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E se, de repente, puséssemos um piano de cauda a produzir sons que ninguém esperava? E se usássemos esses sons para fazermos música experimental? John Cage serviu de inspiração, apesar de não termos conseguido ficar perto do que ouvimos para nos inspirarmos. Hoje, em Aveiro, fizemos música para piano preparado. Devagar, devagarinho, a música contemporânea começa a fazer sentido, quando percebemos de que «massa» é feita, e que lógica segue. Que é, muitas vezes, a lógica da inspiração, da experimentação, do fazer. Música é também isto. Por muito estranho que possa parecer. Um dia, vai fazer sentido. Como as grandes obras de outrora, que tão «malditas» foram, que fizeram parte da miséria de tantos compositores, e que hoje se tocam, com pompa e circunstância, nas melhores salas de concerto do mundo. Não chegaremos tão longe. Apenas experimentamos.

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Experiências em piano preparado

Catarina Costa, Ivo Brandão e Prof. Paulo Maria Rodrigues

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Miúda;

Não te pergunto como tens andado, porque temos falado bastante. Sabes bem que, se não fosses tu, não estava a conseguir desenvencilhar-me destas coisas todas que me entram pela vida dentro, a pedir música, música e mais música. Como tu. Houve tempos, bem sabes, em que parecia que as coisas não iam acontecer. Que parecia que o sonho era demasiado sonho. Que parecia que tudo ia ficar pelo caminho. Mas, de repente, olhamos para trás, e as coisas tinham acontecido. E o sonho era realidade, mais realidade do que poderíamos sonhar. E o caminho tinha sido percorrido, e havia mais caminho ainda. Disse-o, e acredito-o com cada bocadinho de mim, que, se não fosses tu, nada disto teria acontecido. É duro, por vezes, estar sem ti. Sem poder ouvir-te no imediato a soltar uma gargalhada, que resolve tudo. Mas é um desafio saber esperar, ter a paciência de nos deixarmos invadir pelo silêncio, para, daí, surgir a gargalhada. E tudo ficar resolvido. Estar contigo, sem ti, não é tão fácil assim. É um desafio. O desafio que tu foste para a vida. Não te recordo com qualquer tristeza. Não te conheço a tristeza. Recordo-te com a tua força, com a tua persistência, com a tua perseverança, com a tua determinação. E recordo-te com o teu imenso poder de marcares quem te abrisse o coração. Obrigado por olhares por mim, por me empurrares para a frente. Sei bem, sabes bem que, sem ti, não estaria aqui. Miúda; como sabes, o tempo não pára. E agora, vou ter de ir, porque há coisas a fazer. Contigo, também. Anda daí.

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Por vontade própria, passo ao lado (mas mesmo muito ao lado) do congresso do PSD. A gestão do «conclave» começou logo mal, com a vida muito dificultada a quem pudesse, de algum modo, querer apresentar críticas à actuação do «aparelho», nomeadamente ao excessivo «relvismo» a que o PSD (e, por arrastamento, o Governo) tem estado sujeito. Houve momentos em que o «relvismo» estava a tornar-se tão exagerado, que se começava a pensar que Passos Coelho já não «mandava» em Portugal. Veja-se o que aconteceu com a «aproximação» a Angola e com a proposta de reforma administrativa. Sucede que este congresso tornou-se uma (boa?) surpresa. Miguel Relvas passa a ter de estar mais concentrado no Governo (deve ser essa a explicação oficial), e deixa de estar no «aparelho» do PSD. Se isso significar que Relvas vai ser melhor Ministro, tanto melhor. Se, por outro lado, significar ser menos PSD e mais Ministro (ou excessivamente Ministro), menos bom.

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