7 de Fevereiro de 2021 – 3 Caminos

Dizia o poeta António Machado, que o caminho se faz ao andar, ‘golpe a golpe, verso a verso’. Os caminhos são isso mesmo. Sem os nossos passos, são apenas espaço. Mas só com o nosso caminhar ganham sentido. Se António Machado dizia no poema nunca ter perseguido a glória, também eu nunca havia sentido a vontade de seguir pelos Caminhos de Santiago. E foi a vida, com as suas interrogações e porquês agudos, ou talvez Deus, que pôs a pergunta fundamental (já com resposta dada) nas palavras do Rev. Pe. José Joaquim Ribeiro, grande amigo de (já) longa data. Sem saber como nem porquê, a resposta (à não pergunta) foi imediata. Eis-me aqui. Mesmo sem preparação alguma, sem sentir a mística do caminho, mesmo sem chamamento que não o daquele momento. E fui. Como a personagem de Robert de Niro no filme ‘A Missão’, com as armaduras da vida presas ao corpo. Percebendo que o caminho se faz, de facto, com um passo após o outro, etapa após etapa, palavra após palavra no final de cada dia. No encontro connosco e com o outro. No terminar cada etapa. No chegar a um destino. E se na decisão tocou um sino, outro tocava à chegada a Santiago de Compostela. E vieram as chuvas e os ventos, mas a casa não caiu. Talvez porque, mesmo que não parecesse, mesmo com a dureza do caminho, verificamos que é possível estar assente nessa rocha firme. A mesma que calcorreámos até ao destino.

Escrevi este texto a 30 de Janeiro de 2018, depois de ter feito o Caminho Sanabres, com o meu amigo Pe. José Joaquim e o seu fantástico grupo de caminhantes. Na altura, fomos contando o que ia acontecendo aqui. Relembro-o hoje, depois de ter visto o primeiro episódio da série ‘3 Caminos’, da Amazon Prime, com co-produção da RTP. Quem já fez o Caminho, recordará e encontrará algo novo ao recordar o caminho que fez. Quem não fez, ficará com vontade de fazer e de sentir na pele o que ali se vê. E muito mais.

6 de Fevereiro de 2021 – Pavarotti

Por trás da estrela, por trás da voz, por trás da personagem, há sempre alguém de carne e osso. E sentimentos. E vida. Ron Howard decidiu fazer um documentário sobre essa vida, no que diz respeito a Luciano Pavarotti, talvez uma das vozes líricas mais claras de sempre, pelo menos no que aos tenores diz respeito. Se tudo parecia fácil, em palco, nem sempre na vida as coisas funcionam da mesma maneira. Pavarotti que o diga. Se a ascensão pareceu fácil, porque o reconhecimento do seu talento e do seu trabalho foram quase imediatos, os deslizes, a certa altura, são imperdoáveis. E, no fim, o que fica é a história. O percurso. Este ‘Pavarotti’ de Ron Howard não está isento de ponto de vista, nem tão pouco de eventuais críticas. Mas essas, ficarão a cargo de quem vir.

5 de Fevereiro de 2021 – O senhor Mário não morreu

Foto: Grupo Coral de Urrô

O senhor Mário não morreu. Pessoas como o senhor Mário não morrem. Nunca. E não morrem, porque deixam um legado. Forte. Vincado. Duradouro. O senhor Mário vai viver sempre, enquanto alguém vivo se lembrar da história e da vida do Grupo Coral de Urrô. O senhor Mário vai viver sempre, enquanto alguém vivo se lembrar dos passeios e excursões que organizava, do entusiasmo com que nos convidava, do detalhe com que nos guiava. O Senhor Mário vai viver sempre.

Conheci o senhor Mário ainda na minha adolescência. O seu filho, José Teixeira, que também já nos pregou a partida de deixar-nos, convidou-me para tocar com o Grupo Coral, em algumas celebrações, durante o verão. Passei a colaborar mais regularmente, e não resisti, algum tempo mais tarde, a trabalhar regularmente com o Grupo. Porque o senhor Mário é uma força da natureza. Um líder, no melhor dos sentidos. Era fácil segui-lo, porque, antes de liderar, cativava. E ele sabia cativar. E, depois de cativar, sabia cuidar. Por isso, não era difícil sermos amigos. Eu, como muitos.

O senhor Mário é música. Todo ele. Da sua voz cheia, sairam muitas das obras que ouvimos pela primeira vez, e ouvíamo-lo, ao detalhe, até sermos nós, todos, juntos, a fazer a música que ele tinha na cabeça, que ele tinha estudado ao pormenor, que o compositor queria que fizéssemos. O seu amor pela música, a sua devoção e a sua liderança fizeram dele um verdadeiro dinamizador local, da música litúrgica em particular, mas de toda a boa música. Porque ele conhecia (e muito bem) e amava (muito) a boa música. Arrisco dizer que, neste particular, nesta dinâmica de não deixar nada parado, o senhor Mário está para Arouca como o Cónego Ferreira dos Santos está para a diocese do Porto.

Há pessoas que, não importa por que motivo, se cruzam connosco, a determinada altura, e nos ajudam a fazer opções. O senhor Mário foi uma dessas pessoas. Aliás, era-o de forma natural, porque a paixão com que falava de música era mais do que suficiente para convencer qualquer um a gostar de música, a querer fazer música. E mesmo quando alguns tentaram, por querer ou sem querer, abalar este vínculo, ele, apesar de tudo, não deixou. Porque havia uma amizade muito mais profunda que nos unia. E foi ela que prevaleceu.

Divertimo-nos muito à mesa. A mesa, no Pinheiral, é sempre grande. Porque a família é grande, e os amigos, ali, são da família. Rimos muito. Partilhámos histórias. Lembrámos amigos. Enfim. Chegámos a ter um almoço combinado, mas outra partida, na altura do meu lado, não nos permitiu. De resto, o senhor Mário esteve sempre, sempre, ao meu lado, nos momentos mais difíceis. Da mesma forma que sempre acompanhou o meu percurso profissional, e sempre me encorajou, fossem quais fossem as minhas opções. O senhor Mário é assim.

Hoje, quando dizia ao seu filho António que não tinha palavras para dar-lhe, que a única vontade que tinha era de poder estar lá, e dar-lhe, a ele como a toda a família, o meu abraço, foi ele quem teve as palavras mais certeiras. Agora, é preciso continuar o que alguém começou. Porque o senhor Mário não morreu.

Hoje, o meu amigo José Carlos Silva, director do jornal ‘Roda Viva’, pediu-me que escrevesse umas linhas sobre o senhor Mário Teixeira. Pensei, de imediato, que uma vida como a do senhor Mário não cabe nas minhas linhas, nem tão pouco nas minhas palavras. O resultado do texto, foi este. Publicado, ainda hoje, nas páginas redes sociais do jornal, sairá em papel, na próxima edição do jornal.

4 de Fevereiro de 2021 – Gorongosa

Chamemos-lhes coincidências. Ou um apelo das raizes, para que sejam regadas. Depois de Muidumbe, a atenção vira-se para a Gorongosa. A guerra fez da Gorongosa um quase deserto. Cerca de 95% da fauna foi destruída, e o que era um parque natural, praticamente se reduziu a cinzas e pó, restos de destruição, levados e trazidos pelo lago, que cresce quando a época das chuvas chega, e quase desaparece quando não chove. Só que um parque natural não é apenas feito da fauna e da flora, não é um jardim zoológico sem fronteiras definidas. A Gorongosa é uma povoação que abraça o parque com 200 mil vidas. ‘A pobreza em Moçambique tem rosto de mulher’. É uma das frases mais marcantes deste documentário. Porque é verdadeira. Mas quase se pode dizer que, ali, a vida também tem rosto de mulher. ‘A nossa Gorongosa’ conta histórias de resistência, resiliência, determinação. De futuro. De equilíbrio entre a terra e o homem. Que começa, neste como em muitos casos, por ajudar as pessoas a saberem mais. A partir daí, é mais fácil.

3 de Fevereiro de 2021 – Muidumbe

O meu avô Elísio de Azevedo escreveu (pelo menos) dois livros. Um dia, deu-me os dois, mas disse-me que um deles era para devolver-lhe, depois de o ler. Era uma ‘História de Nampula’. Não resisti a ler o mais rapidamente que pude, coisa que não foi difícil, porque se há coisa que os textos do meu avô têm de bom é o facto de serem muito bem escritos. Devolvi-lhe a História, e fiquei com ‘Muidumbe’. Percebi que, se calhar, a ideia era enquadrar-me primeiro, antes de ler o que agora começo a ler. Mesmo tanto tempo depois. O livro começa com uma advertência, que diz assim: ‘Muidumbe era um posto administrativo do concelho de Mocimboa da Praia, distrito de Cabo Delgado, cuja capital era a cidade de Porto Amélia. Foi lá que, em 24 de Agosto de 1964, se registou a primeira vítima da guerra que ensanguentou Moçambique, antes da sua independência’. Eu nunca fui a Moçambique, senão ao viajar pelas histórias que os meu avós contavam (e a minha avó ainda conta), pelas fotografias que fui vendo, pelos objectos que parece que, às vezes, ganham vida. Mais recentemente, viajei uma ou outra vez a esse Moçambique ‘Terra Sonâmbula’, de Mia Couto. Mas nunca vi, com os meus olhos, nem senti o calor na minha pele, nem agarrei com as minhas mãos, essa terra que também sinto como minha, senão assim. Agora, numa altura em que Cabo Delgado volta a sentir as feridas profundas da guerra (da guerrilha), viajo até Muidumbe. Esse sítio onde foi disparado o primeiro tiro de uma guerra. E, já sabemos, numa guerra, todos perdem.

2 de Fevereiro de 2021 – ‘School’

Hoje, acordei com uma música que não me saiu da cabeça durante todo o dia. ‘School’ é a primeira faixa do álbum ‘Crime of the Century’, dos Supertramp, gravado em 1974. A letra fala sobre a importância de ir à escola, mostrando, ao mesmo tempo, as dúvidas que todos sempre tivemos sobre se seria, de facto, a melhor opção. Em 1974, pesados os argumentos, dir-se-ia que sim. Talvez porque a alternativa seria uma espécie de liberdade, sem controlo sobre o tempo, o sítio para onde fôssemos ou o que fôssemos fazer. Hoje, o tempo está contado ao segundo, facilmente sabemos onde alguém está e o que está a fazer naquele preciso momento. E se talvez haja quem duvide sobre a necessidade de se ir à escola, quando a (in)formação parece estar muito facilmente disponível na Internet, a pandemia vem, de repente, mostrar que não é bem assim. No fim de contas, é como diz a última frase da canção: ‘You’re coming along’.

‘School’ – Supertramp

1 de Fevereiro de 2021 – Perder tudo, até a esperança

A revista ‘Sábado’ de 28 de Janeiro último publica um texto que não consegui deixar de (re)ler, desde que Nuno Markl o partilhou na sua página do ‘Instagram’. Absolutamente arrepiante. Cru. Concreto. Sobre um casal que perdeu tudo, até a esperança. Depois da publicação do humorista, gerou-se uma onda de solidariedade. E essa, é a parte boa da história. A história em si, o texto que lhe dá corpo, e que deixo aqui para poder ser lido, ocupa uma página da revista. Sem imagens. Sem rostos. Sem nada que nos distraia de cada letra que nos conta como é possível que Sofia e Paulo vivam, há um ano, numa roulotte, com os três filhos. Sem nada que nos desvie o olhar, em que o pensamento se transforma, do prato de espaguete, que é prato único da casa. Isto passava-se até dia 28 de Janeiro de 2021. Há coisas que existem, por muito que prefiramos olhar para o lado, e acreditar, hipocritamente, que a pobreza, a miséria e, muitas vezes, a falta de solidariedade não existem na porta ao lado. Tudo isto existe. Tem rostos. Tem histórias. Tem vidas dentro.

31 de Janeiro de 2021 – Dia de São João Bosco

Hoje é dia de São João Bosco. Desde miúdo que vivo envolvido pelo imaginário dos Salesianos, que, entre 1960 e 1982, mantiveram a funcionar um colégio em Arouca. À medida que se vai mergulhando na vida e obra deste homem, fica mais fácil perceber-se por que motivo os Salesianos imprimiram, de forma profunda, uma dinâmica educativa, religiosa e social muito própria. Uma forma diferente de estar e de agir, que me motivou a querer sempre estar mais próximo da congregação. São João Bosco foi uma espécie de inventor do ensino profissional, mas com muito mais sumo. O sumo da humanidade, do sentimento, da razão e da religião. Foi o inventor de uma pedagogia muito própria, cujos frutos são abundantes e abundantemente conhecidos. ‘A seu tempo, tudo compreenderás’, a frase de D. Bosco que me relembrava, muitas vezes, um grande amigo salesiano. E longe estava eu de compreender que, um dia, ia ser professor. Hoje, é dia de relembrar aquela viagem às origens, para ver, com os próprios olhos, e ouvir, com os próprios ouvidos, como tudo começou. Hoje, é dia de reforçar esta forma de estar. Hoje, é dia de relembrar esse modelo, de reabastecer a boa energia necessária para continuar. Feliz dia.

30 de Janeiro de 2021 – A Mesa Grande do Mosteiro de Arouca

Alberto Caeiro dizia, a certa altura das suas reflexões de guardador de rebanhos, que leu até lhe doerem os olhos o Livro de Cesário Verde. Quando se tem o privilégio de ler as obras (e já vão sendo algumas) do meu estimado amigo Afonso Veiga, o que acontece é quase o mesmo. Talvez com a diferença de que não ficam os olhos a doer, antes a curiosidade sempre afiada, a cada novidade que o autor nos vai dando, à medida que desfia as contas da história a que se propõe. Desta vez, o tema é a mesa. A mesa em si, mas também as mesas onde o Mosteiro de Arouca punha, de facto, comida. A sua mesa, ou as suas mesas, e as mesas dos tantos que, ao seu redor, trabalhavam para a edificação dessa Jerusalém terrestre em que se foi transformando o edifício monástico. Da herança beneditina a um certo esquecimento da regra, dos recursos aos mantimentos, dos rituais aos ingredientes, dos espaços aos mestres de ofícios que ali prestavam serviços, de um pouco de tudo e de tudo um pouco está composta esta ‘Mesa’. Que se lê de forma saborosa, e sempre à espera que o autor nos possa servir mais um prato.

29 de Janeiro de 2021 – Dia de morte

Curiosamente, ou talvez não, os políticos resolveram aprovar a eutanásia, o suicídio medicamente assistido, numa altura em que morre um avião cheio de portugueses a cada dia. Sem debate. Sem consulta popular. Sem profundidade. Apenas assim. Discute-se pela rama no Parlamento, mistura-se uma certa dose de hipocrisia e demagogia, ‘et voilá’. Já somos um país moderno. Curiosamente, ou também talvez não, isto acontece numa altura em que veio ao de cima, da forma mais gritante, mais cortante, mais desumana, o profundo desinvestimento que o Estado vem fazendo nos serviços de saúde, e muito em concreto no domínio dos cuidados continuados e paliativos (um dos sectores onde mais infectados têm surgido). Curiosamente, ou talvez não, assistimos a uma estranha pressa em aprovar uma lei em relação à qual, contrariamente, por exemplo, com o que acontece sempre que se fala em regionalização, se acha que não é preciso ouvir o povo. E volta sempre a conversa sobre os portugueses que têm de ir a países onde a eutanásia é legal para a conseguirem. Esquecendo que, por exemplo, na Suíça, a clínica “Dignitas”, terá acolhido e ‘tratado’, entre 2008 e 2020, cerca de 2100 pessoas. Destes 2100, apenas 20 serão portugueses. Números, são números. E pessoas não são números. Curiosamente, ou talvez não, discute-se a vacinação dos políticos. Ao mesmo tempo. É preciso ter cuidado. Sabendo do nível de competência dos nossos representantes, poderá dar-se o caso de trocarem as substâncias. E tornar esta confusão entre eutanásia e vacinação ainda maior. No fim de contas, a vida é sempre preferível à morte. E ver um título de jornal começar por ‘Morte’, não é lá muito agradável.