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leonorDesculpa, Leonor. Desculpa, antes de mais, por só te ter abraçado tão tarde. Desculpa por ter andado tanto tempo a pensar nas palavras ideais, e não as ter ainda encontrado. Desculpa estar a amontoá-las assim, quando tantos que te eram, de certeza, mais queridos, o fizeram com muito mais arte do que eu.

Desculpa também por só ter-te conhecido quando os teus olhos grandes se abriram num sorriso cúmplice pela primeira vez, a caminho da Casa da Música. Não te peço desculpa por te ter conhecido por causa da música. Aliás, essa foi uma das coisas mais saborosas que a arte me podia ter dado.

Sabes, a vida tem acelerado de uma forma avassaladora, e isso tem-me feito pensar ainda mais em ti. Na energia que transmites a partir de um ser aparentemente pequenino, mas tão grande, tão grande. Gosto muito de ti, miúda. Mesmo muito. E é por isso que guardo na memória cada palavra que me disseste, cada momento de alegria que te pude ajudar a viver e com que me presenteaste, cada gargalhada que te consegui fazer soltar. Desculpa só te ter abraçado aquelas dezenas de vezes, antes e depois do concerto que fizemos. Desculpa por não ter feito mais música contigo.

Vou lembrar sempre as últimas palavras que me disseste, e a forma serena e convicta com que as disseste. Vou procurar vivê-las, como quiseste vivê-las. Vou fazer delas a melhor lição que alguém me poderia ter dado, de forma tão simples e tão clara. Revejo-me muito em ti, envolvida até ao osso em tudo o que escolheste para dedicares o teu tempo e o teu talento. Mas deixa-me que te diga, o teu maior talento foi viveres. Não consigo ter saudades tuas, porque continuo a procurar-te todos os dias. Continuo à espera de voltar a cruzar-me contigo como da última vez, e ver os teus caracóis dourados a saltarem de ti como molas, e a dizeres-me olá com a tua voz de anjo castiço, um olá rápido, porque era urgente dar um abraço.

Era mais ou menos isto que te queria dizer, de forma dispersa, desorganizada, desleixada, distraída até. Também, não são as palavras que vão fazer grande diferença, muito menos as minhas. Prometo-te que vou guardar as que a tua mamã nos deu, depois de teres brilhado na sala grande da Casa, e eu a ver-te sorrir, com o saxofone bem apertadinho no teu abraço. Prometo-te que vou continuar a procurar as duas cartas especiais do baralho de jogar que perdeste ao vento, enquanto nos distraíamos um pouco. Prometo que vou continuar à tua procura, à espera de te reencontrar, como da última vez, formosa e segura, e ver-te chegar com os caracóis aos saltinhos, rasgares um sorriso, dizeres olá e dares-me um abraço. Depois, vou ficar para sempre sentado nos degraus da praça a ver-te brincar, até vires ter comigo e voltares a dizer-me que a vida tem de ser vivida com intensidade. Para que eu não esqueça. Nunca.