16 de Novembro de 2012 – Carta aberta ao presidente do PSD

Ex.mo senhor
Presidente do Partido Social-Democrata e Primeiro-Ministro de Portugal:

Nasci poucos meses antes de Sá Carneiro morrer, mas cresci a aprender a sonhar e a querer saber sempre mais sobre essa personagem fascinante e cativante da política portuguesa, que, parece-nos, e cada vez mais, levou consigo para a morte os nossos sonhos e a nossa vontade de querermos ser mais portugueses. Mas pouco interessará a V.ª Ex.ª saber sobre os meus sonhos, ou sobre o facto de conhecer ou não conhecer Sá Carneiro, o seu pensamento, os seus ideais, as suas batalhas por um Portugal de futuro, justo, moderno, crítico, sólido.

Cresci a aprender a gostar de política, muito por causa dessa personagem quase mítica, e por ver que o Partido Social-Democrata que fundou mobilizava as pessoas, fazia com que se identificassem com ele. O PSD era o partido dos melhores, porque era feito de gente íntegra, que não hesitou nunca em pôr as mãos no trabalho que o povo fazia, para, juntos, construírem este Portugal que desbaratamos agora. Mas pouco interessará a V.ª Ex.ª saber dos meus gostos, ou de um passado que em nada nos ajuda a resolver os problemas que enfrentamos hoje.

Aderi cedo, agora percebo, a esta mobilização, e fiz-me militante activo do PSD. Aprendi a debater internamente, na busca das melhores ideias, dos melhores projectos, das melhores acções para o bem comum. Aprendi como se faz política. Aprendi como se faz uma campanha eleitoral. Aprendi como se pensa e age politicamente, e como se pensa e age tendo em vista o bem comum, e como, de vez em quando, a diferença é maior que a semelhança. Mas pouco interessará a V.ª Ex.ª saber como e quanto, e até mesmo se, aderi ao mesmo partido que hoje V.ª Ex.ª lidera.

Também vivi os tempos recentes. Também em Arouca senti a mentira e o esquecimento a que os políticos habitualmente nos condenam. Também senti na pele as consequências desse desgoverno, que, dizem-me, V.ª Ex.ª está a tentar remediar. Só que eu não consigo continuar a fazer parte de uma entidade que já não sei se existe. V.ª Ex.ª e os seus pares estão demasiado concentrados no governo de Portugal, e isso percebe-se. Mas isso não permite que V.ª Ex.ª se esqueça do partido que lidera, que o elegeu e que o mandatou para conduzir nestes tempos difíceis. Sinto, sinceramente, que o PSD começa a deixar de existir. Como podem os autarcas sociais-democratas defender as políticas que dificultam a vida da população que eles próprios servem e que devem ajudar? Como podem as estruturas locais que se vêem em minoria lutar contra um estado de coisas que não lhes deixa qualquer margem de acção?

Sei, senhor Presidente, senhor Primeiro-Ministro, que pouco lhe importará perder um militante em Arouca, uma terra que, certamente, pouco ou nada lhe dirá. E perdoe-me por sequer pensar que um abandono como este o poderia preocupar, face aos terríveis problemas com que se debate diariamente. Mas o que é facto é que deixou de fazer sentido para mim pertencer a um partido que eu vejo, dia a dia, desaparecer. Eu pude ver o PSD crescer. Ajudei Arouca a acordar, muitas vezes, vestida de laranja. Senti o sabor da vitória, mas senti muito mais, e muito mais amargamente, o da derrota. Faço o balanço, e verifico que foram muitas mais as vezes em que saí prejudicado do que beneficiado por ser ou ter sido um militante activo. Apesar disso, nunca regateei o meu apoio e o meu empenho às causas com as quais me comprometi, mesmo sabendo que as consequências poderiam não ser as mais favoráveis. A isso, chamei luta, para a qual, neste momento, deixei de ter força.

Senhor Presidente, senhor Primeiro-Ministro. Aquilo que lhe peço hoje é a liberdade. A liberdade de pensar, de opinar, de decidir sem ter de estar à espera do que pensa o meu partido. Peço-lhe a liberdade de viver esta crise como português, e não como social-democrata. Peço-lhe a liberdade de me poder dizer livre de qualquer grupo ideológico. Peço-lhe a liberdade de trilhar o meu próprio caminho. E, se um dia esse caminho me trouxer de volta ao PSD, devolvo essa liberdade de me rejeitarem, se o entenderem. Neste momento, o que sinto é que o cartão que lhe devolvo não me faz falta. Porque o PSD que eu conheci, o PSD em que cresci a acreditar, o PSD de Sá Carneiro, o PSD invencível em Arouca, esse PSD não existe. E temo, sinceramente, que deixe de existir um pouco por todo o país.

O resto, senhor Presidente, senhor Primeiro-Ministro, já não dependerá de mim, mas de V.ª Ex.ª.

Cordialmente,

Ivo Brandão

 

Arouca, 16 de Novembro de 2012

2 thoughts on “16 de Novembro de 2012 – Carta aberta ao presidente do PSD

  1. E quem diz que os políticos são todos iguais?
    Eis o exemplo de um verdadeiro político, aquele que sabe defender a sua convicção, o seu verdadeiro sentido da responsabilidade.
    Também sou arouquense e espero que no PSD ou qualquer outro partido este Ivo Brandão, com princípios e honesto com sigo mesmo venha a ter um futuro político que defenda a nossa terra e Portugal.
    Parabéns.

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