3 de Março de 2009 – O PS, ou o «Partido Sócrates»

socrates-2009Tem sido interessante acompanhar o «fenómeno» que tem surgido, cada vez mais frequentemente, na política, e que centraliza as atenções na pessoa, mais do que no partido. Já há muito tempo que se falava disto no âmbito autárquico («o que conta são as pessoas», e outras frases habitualmente ouvidas), voltou a sentir-se isso, nos antípodas, com Barak Obama, e agora, ao que parece, chegou a vez de José Sócrates.

Na sequência do congresso de Espinho, a imagem de Sócrates saiu fortemente reforçada, fruto dos quase 100% de votos, após uma eleição «a solo». A par da apresentação de Vital Moreira como «cabeça de lista» às eleições europeias, o congresso foi, mais uma vez, como vem sendo hábito, uma sequência de situações pensadas ao pormenor, claramente alinhadas para uma mais fácil absorção por parte da comunicação social.

A recta final do conclave ficou marcada por uma mudança radical de cenário, das cores nacionais e do PS para um «azul relaxante», muito na linha de Obama, esbatendo a simbologia socialista e focando o Primeiro-Ministro. No palanque utilizado por José Sócrates aparecia inscrito o endereço do espaço na internet em que, a partir de então, se lançou um movimento de apoio à recandidatura: Sócrates2009.pt. O espaço é altamente interactivo, com fortíssimo recurso ao vídeo e às imagens, e com um espaço de apelo à adesão a este movimento, bem como uma secção dedicada aos «desafios» temáticos.

O rumo apontado parece ser, neste momento, o de concentrar as atenções em Sócrates «candidato a Primeiro-Ministro». O próprio logótipo do PS aparece apenas discretamente, em cima, a fotografia utilizada é exactamente a mesma de há quatro anos, e, sob o funo azul, o escudo nacional e o Palácio de São Bento. O «unanimismo» em torno deste «actor político» chega a ser embaraçoso para alguns socialistas, e quase só é comparável a situações como a de Chávez (salvaguardando, logicamente, as devidas diferenças). A aposta tem sido a de estar permanentemente na comunicação social, «himself» ou por interposta pessoa, com toda a comunicação orientada para si ou em cerimónias milimetricamente desenhadas para a «colagem fácil» das imagens. O PS está «refém» de Sócrates, que se apresenta como única alternativa para um futuro de médio prazo. Conseguiu criar canais de comunicação que parecem perfeitamente eficazes, e que «secam» qualquer oposição. Apesar de todas as «desmontagens» e análises, a «máquina» prossegue, e vai transformando cada vez mais o Partido Socialista numa espécie de «Partido Sócrates».

1 thought on “3 de Março de 2009 – O PS, ou o «Partido Sócrates»

  1. Parece-me que o nosso Primeiro-Ministro aprendeu muito bem a lição de como “ensinar” ao povo a decidir o melhor. E, a mim, causa-me estranheza o facto de ninguém se questionar se alguma vez a comunicação social foi tão usada e manipulada pelo Governo. É que, por acaso, isto até já aconteceu… Antes do 25 de Abril!!!! Mas agora é diferente… é a diferença entre as ditaduras de esquerda e de direita… ou então não… e é apenas uma questão de tempo até o cidadão perceber que está numa ditadura de pensamento. E, de repente, veio-me à lembrança uma rábula dos Gato Fedorento sobre como escrever o boletim meteorológico…
    Mas temos de dar mérito ao eng. José Sócrates… Onde ele não vai, manda recado. Por quem? Pela sua ilustre namorada, Fernanda Câncio… oh, que por acaso é “jornalista”. Há cerca de um mês, no programa “Prós e Contras”, debateu-se o casamento entre homossexuais. Nada mais, nada menos do que a bandeira abanada por Sócrates antes do congresso. Ora, Sócrates estava muito ocupado (ou dava muito nas vistas defender as suas próprias ideias), portanto mandou a namorada argumentar por si. Foi bonito de se ver.
    Mas mais uma vez… a comunicação social fez o que mais interesse tinha para o seu Primeiro-Ministro. E viva a democracia portuguesa.

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